Gilmar é réu na Vara de Moro

Olbiano Silveira
Aug 28, 2017 · 2 min read

Como numa peça de ficção jurídico-processual, Janot conseguiu enquadrar o polivalente Gilmar Mendes e mandá-lo a julgamento na Vara do novo reformador social da república, imparcial, justiceiro, proprietário da verdade absoluta e de poder incontrastável, Sérgio Moro. Esse fato novo e inusitado na história do judiciário brasileiro galvaniza a expectativa do mundo todo porque a personalidade investigada não é um brasileiro qualquer. É Gilmar Mendes, que consegue ser, a um só tempo, único e múltiplo. Exerce como ninguém o papel de julgador leniente, permissivo, ardiloso. Movimenta-se como bom quadro político-partidário voluntário e voluntarioso; falastrão, amigo de ricos e, como ele, poderosos, a quem costuma ser fiel e protetor nas horas mais difíceis; seguidor de Santa Rita de Cássia; solidário aos condestáveis encarcerados; admirado, pero no mucho, pelos seus pares da corte suprema; admirado como extremoso pai de família. O julgamento de Mendes na corte hiper-suprema de Curitiba sob o martelo do juiz-xerife-justiceiro, pela suma importância e repercussão não acontece à toa, nem em todos os séculos.

O mega-espetáculo caiu no hospitaleiro colo do bruxo de Curitiba. A ele caberá a incumbência de traçar o destino remanescente do benevolente ministro libertador. Coletar dados, informações, jurisprudência e pareceres dos mais notáveis juristas, consultar a legislação internacional e rever a matéria de Direito Comparado não é missão trivial. Para cumpri-la adequadamente só um onisciente, onipotente, que nem o feiticeiro de Curitiba.

Nos circuitos forenses e nos bares paranaenses se comenta à exaustão tratar-se do julgamento do milênio. Muita curiosidade, expectativa mesmo, ali e nos 27 estados da federação. Perguntas se multiplicam sobre como se comportaria o juiz Moro para avaliar, entre outras obras de Gilmar, a soltura de gente graúda como Eike Batista, como os mafiosos reis do transporte público do Rio de Janeiro. E outros. Mas a desmedida ansiedade misturada à indignação das vítimas, familiares e sociedade como um todo, está direcionada à atrevida e inconcebível atitude do agora réu, de presentear com a liberdade um estuprador condenado a 180 anos de reclusão. Como irá se comportar o juizão Moro no interrogatório e nos fundamentos da sentença para o ministro quando interrogatório sobre as diabruras do monstrinho Roger Abdelmassih? Será que Moro ficará à vontade para formular indagações do tipo “o que o senhor faria se uma das vítimas desse protagonista da reprodução humana fosse sua mulher ou uma filha sua”? Ou, assim: “o senhor não sente remorso de mandar ara o conforto do lar um monstro condenado a 180 anos”?

Sejam quais venham a ser as respostas de Mendes sobre essa e outras esdrúxulas decisões do mal amado membro do Supremo Tribunal Federal, como viria ou virá uma decisão do distribuidor de condenações da lava jato? É um grande teste para o salvador de plantão.

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