O manzuá do judiciário em Minas
Aquiles, de dois anos, tem intimidade com o manzuá. Chama a geringonça de covo, como é apelidado pelos pescadores de Tibau/RN. Ele sabe da maldade armada no manzuá, onde a lagosta entra fácil e não sai mais.
Juízes, desembargadores, ministros de tribunais — todos esses abençoados e protegidos de Pluto — podem até não ter ouvido falar nesse objeto de pesca, mas o utilizam há eras. Cabe muito bem chamá-lo “receptáculo de penduricalhos”. É nele que se acumulam os salários paralelos maliciosamente legalizados como vantagens. Um juiz do estado de Minas levou pra sua poupança, agora em julho, a acanhada quantia de R$-470 mil. Isso aí mesmo, nem mentira nem brincadeira. Todos os 130 desembargadores mineiros levaram e levam pras suas contas bancárias mais do que o teto legal. Salários acima de R$-180 mil nas alterosas fazem parte da rotina. Alguns deles, talvez traídos pela fatalidade, exibem contracheques mais engalanados, de R$-150 mil, R$-408 mil, R$-415 mil. Um desses menos moderados costuma lamentar, entre uma dose e outra de Royal Salut, a indelicadeza do governo de cobrar imposto de renda dos magistrados. Tão só por serem magistrados.
As gratificações injustificáveis e os extravagantes auxílios gerados pela criatividade dos cavalheiros da lei e da justiça não aparecem no papel. Eles apresentam no contracheque “apenas” os R$-33.700,00 determinado como teto salarial do país. As diversas traquinagens por eles penduradas na conta do estado acabam multiplicando os ganhos e violentando a constituição que juram obedecer fielmente.
É o panorama. Nesse desenho ilógico e perverso vivemos os cidadãos das classes inferiores. Privilégios, até por definição, são exclusividade dos cavalheiros integrantes dos três (podres) poderes. São os escorchantes custos dos imorais privilégios e das múltiplas e sorrateiras investidas contra o caixa do estado, as razões da pobreza material da sociedade. Tudo bastante bem distribuído pelos estados e pulverizado nos mais de cinco mil municípios. Por tudo isso, o mais angelical dos analistas da política e da economia, crêem pouco, ou nada, em eventual recuperação do país. A não ser por um desses dois caminhos: eliminar pela força do voto, ou seja, democraticamente, os atuais detentores de mandatos, em todos os níveis, ou partir para a radicalização extrema, irracional. Aí já seriam outros quatrocentos; seria o imponderável. Podem, portanto, ficar à vontade para formular a complexa pergunta: “o Brasil tem jeito?”.