Os poderes despudorados

Fazer o quê, senão ajoelhar e derramar as derradeiras lágrimas? Nem os mais pessimistas imaginariam deixar para os que virão depois uma terra devastada, sem rumo.

O esgarçamento moral, que acaba por contaminar a sociedade brasileira, vem sendo praticado há tempos. Uma pontinha de ilusório otimismo ainda alimentava a vã expectativa de recuperação, mínima que fosse. Mas, nada… O comportamento marginal dos condutores da nossa política e dos pretensos guardiães das instituições nos diversos níveis da república foi assumindo proporções inacreditáveis, até que chegamos aos estertores; não chegamos ao fundo do poço porque já não há fundo, nem fundos. Nem mesmo poço.

Chega a ser enfadonho repisar o tema. No entanto, a persistência dos desmandos e dos expedientes inidôneos praticados pelo moço-velho, posto cirurgicamente à frente do governo, assume o imponderável. O chefão, líder de uma quadrilha incrustada nas hostes palacianas, revelou-se um sicário, mau a ponto de pretender inverter sua condição de réu e dizer-se vítima de conspiração (logo ele, que comandou um sórdido golpe contra a ex-presidente e extirpou-lhe o mandato).

Dispensável insistir nos deslizes do legislativo e do judiciário porque a delinquência nas entranhas desses poderes chega à avacalhação. Por este momento, compete reverberar os atos de indecência e dissimulação do comandante dessa grande bacanal a que chegou esta sexta economia do mundo. Não se trata de algo apenas grave, mas catastrófico do ponto de vista do comportamento cívico-ético-político. O presidente da República se revela capaz de subverter a ordem — e é o que está a fazer diuturnamente. Ele já não exerce suas funções há meses porque ocupa todo o seu tempo nas operações de mascarar o cenário e de monitorar a compra de consciências parlamentares. Ele tem conseguido manietar a maioria dos congressistas com benesses extraídas do cofre público. A troca de verbas e empregos bem remunerados por votos de parlamentares para livrá-lo da condenação e prisão tornou-se uma ilicitude escancarada, um escapismo inqualificável.

Se, de um lado, o executivo, pelo seu chefe com seus ministros notoriamente delinquentes, se misturam com os principais quadros do poder legislativo, formando uma mixórdia insalubre, abjeta, o outro poder — o judiciário — expele inconfundíveis sinais de fraqueza, de pusilanimidade, causando perplexidade aos mais de duzentos milhões de patrícios. Esse poder, até recentemente único merecedor da confiança coletiva, vem há muito se esgarçando, decidindo de forma ambígua, nitidamente suspeita, enxovalhando a carta magna, que tem o dever de respeitar. Alguns dos onze componentes do STF (cúpula do poder judiciário) têm se comportado, até ostensivamente, como políticos, engajados em causas absolutamente impróprias aos misteres da magistratura. Que dizer mais, se bem menos do aqui exposto seria suficiente para a solene derrocada de uma república que abriu mão do respeito dos seus cidadãos?

Compete-nos, daqui pra frente, esperar um provável desfecho trágico e de consequências imprevisíveis. Pelo quadro deteriorado que estamos a presenciar e os cinzentos desdobramentos que se descortinam, qualquer posição de otimismo seria o mesmo que convalidar os atos dos simpatizantes do estilo da “cosa nostra”, de triste memória.