Vida fluindo; sem pactos, sem impactos
Lá vem aquele homão, dois metros de poesia ambulante. Chapelão de palha, quarenta cms de diâmetro, de aba a aba. Terno branco hospitalar, de cambraia, paletó folgadão, como se o alfaiate houvesse errado as medidas. Um caminhar compassado, sem pressa, preocupação zero. O Recife dos anos 1950/60 não era um quintal de monastério, mas não exigia pacto pro caboclo atravessar a ponte Maurício de Nassau e chegar ao cais. Mesmo nas madrugadas, o caminhar do Recife antigo ao Derby, em paz, era rotina. E meio que obrigatório porque os bacuraus eram arredios. Transporte precário, como o é ainda nesses tempos em que se mistura o bem público com o privado sem a menor cerimônia.
Nossos poetas falavam de trens maria fumaça, indo pra Catende; da beleza suprema da mulher; lembravam das flores na janela, de desejos presos e sonhos frustrados, de lugares paradisíacos; de amor avassalador capaz de comer-lhes a paz, a identidade e a cor dos olhos; de humildade, da chuva noturna, da bandinha municipal.
A segurança? Era uma preocupação distante. Pra dizer a verdade, aproveitava-se mais o tempo para as conversas do seneno nas calçadas, do próximo São João, das músicass de Capiba, de Nelson Ferreira para o carnaval se aproximando. Assassinatos e assaltos aos milhares não faziam parte do imaginário; prisões de políticos por corrupção, nem pensar, embora eles já se revelassem perniciosos, em grau menor.
Pois é. Como que de repente, passamos a conviver com a decadência moral e ética, numa escalada que parece não ter mais fim. Ao contrário, eles, os paladinos da corrupção sistêmica e contagiosa, nos dizem tacitamente estarem sempre num recomeço.