DIÁRIO DE UM RECRUTA
1 DE AGOSTO DE 20##
O PRIMEIRO DIA
Mantive a calma e permaneci calado durante todo o caminho ao alojamento (Continuaria assim por mais uns dias), logo encontrei o armário que correspondia a minha numeração. Sim, é como no filme Tropa de Elite e não como nos filmes norte americanos em que o sargento sabe o nome de todo mundo. Se ele souber, acredite, você ta muito fodido. Guardei meus pertences que não passavam de escova, sabonete e umas camisas brancas.
Até o momento da minha chegada parecia tudo tão tranquilo, só aparentava, quando um estrondo de porta sendo arrombada ecoa por todo o alojamento junto de um homem mediano com barriga grande num camuflado verde de fuzileiro naval gritando mais ordens que minha mãe teria dado em toda minha vida, o cara devia ter aproximadamente 40 anos, olhos azuis como vitrais de igreja; Eram olhos azarados como ele mesmo costumava dizer, e uma voz rasgada com sotaque carregado de carioca. Eu pensei “Puta que pariu, onde eu me meti”
A maioria dos recrutas tinha cara de assustado e, deviam ta se fazendo a mesma pergunta que eu, mais impressionante como todos sem excenção eram muito parecidos naquela roupa padrão e de cabeça raspada. Alguns eram masi feios que outros. Pareciam gados tentando passar por uma mesma porta estreita, prontos pro abate. Os cristãos acreditam que as trombetas anunciam o apocalipse, para um recruta o som de um apito mete bem mais medo.
caso você pergunte a um militar como foi o seu recrutamento e ele responder que foi tranquilo e que não teve medo algum, ele com certeza é um mentiroso.
Chegando no local onde as primeiras instruções iriam começar, a famosa Ponte, não foi preciso muita organização já que até então eram apenas informações básicas sobre ordem unida (Sabe quando você vê soldados em formação marchando em sincronia? Aquilo é ordem unida). Nesse momento relaxei, entretanto fiquei bem atento a qualquer mudança repentina na situação. Logo depois de demonstrar como deveriamos fazer, nosso primeiro instrutor, um cabo fuzileiro naval paraquedista e meio desorientado das ideias, disse que naquele momento iríamos fazer tudo que ele ensinou. Alguns foram bem, outros foram escurraçados, mas nada demias. Chegou minha vez, ao contrário da maioria das pessoas que treme ou sua ao ficar nervosa eu tenho uma pequena mania que rir, e essa mania me trouxe o primeiro contato com a famosa FLEXÃO! — também bastante conhecida como “empurrar o chão” , “segurar o mundo” , “ajudar na rotação da terra” e outros nomes criativos — Vale muito a pena ressaltar que na Marinha as pessoas são tão criativas pra apelidos quanto um comediante de stand up.
— Ta rindo da minha cara recruta? — O instrutor pergunta deixando umas gotinhas de baba cair. O que só piorou minha situação, foi bem engraçado o jeito que ele se babaou.
— NÃO SENHOR! — as letras estão em maiúsculas pra poder fingirmos que eu realmente consegui falar alto naquela hora ao invés de ficar segurando a risada.
Depois de uns segundos olhando pro Cabo na minha frente eu me cocentrei e disse — Não SENHOR! — com a voz trêmula de uma garotinha.
O fuzileiro não gostou nenhum pouco e pra me mostrar o que acontece com engraçadinhos me mandou pra um amigo íntimo de todos os recrutas. O CHUVEIRO. O problema não é tomar banho de chuveiro, o lance é que você se molha de roupa e tudo e depois vai ter que ir pra sala de aula da mesma maneira, fora que o tênis vai dar um chulé. Resumindo, a partir daquele dia eu ficaria “podre”.
O primeiro dia começou bem pra mim, e pra mais alguns que também acabaram indo parar debaixo do chuveiro, que além de molhado tive que pagar flexões com meu corpo extremamente sedentário naquela época.
Nota 1: Os dois cabos instrutores são peças chaves pras crônicas de muitos recrutas, apesar de serem o demônio durante o curso logo se tornam boas pessoas na vida sem o uniforme.
Nota 2: Mas tinha vezes que a vontade era de chutar a cara de cada um só pra descontar.
