Vontade de Ferro

O personagem desta cinebiografia teve origem nas classes baixas da sociedade em que vivia. Cresceu em condições desfavoráveis e como trabalhava desde muito cedo, não pode aproveitar os prazeres da juventude. Com dedicação e persistência, ainda bastante jovem, se tornou um líder político regional que após impressionar os membros de um partido, foi convidado a se candidatar para a liderança partidária e posteriormente, para o parlamento.

O filme A Dama de Ferro (The Iron Lady, 2011, Reino Unido e França) narra a história da filha de quitandeiro que cresceu ao lado da via férrea dedicando-se aos estudos e ao trabalho no pequeno estabelecimento da família. De currículo escolar notável, se formou e se especializou em Química em uma das mais prestigiadas universidades do mundo, Oxford.

Foi na universidade que conheceu trabalhos como O Caminho da Servidão de Friederich Hayek, que demonstra como a intervenção econômica do governo é o primeiro ato precursor de um estado autoritário. Ainda como parlamentar (de 1959–1970), na Conferência do Partido Conservador em 1966, criticou as políticas de alta tributação do Governo Trabalhista que eram medidas “não rumo ao socialismo, mas ao comunismo”. Para Margaret, impostos mais baixos servem como incentivo ao trabalho duro.

Quando líder da oposição (de 1975–1979), Thatcher se debruçou nos estudos da liberdade econômica junto ao Instituto de Assuntos Econômicos (Institute of Economic Affairs, IEA), um think-tank do empresário e filantropo Antony Fisher. Fisher através da Atlas Network, colaborou com a fundação de mais de 150 instituições pelo mundo. Margaret passou de leitora assídua das publicações do instituto (algo que fazia desde o início dos anos 60), para principal propagadora das ideias desenvolvidas por Ralph Harris e Arthur Seldon. Estas ideias são contrárias ao Estado de bem-estar social keynesiano, que enfraquecia cada vez mais a economia britânica após a Segunda Guerra.

Margaret, que tinha uma voz histriônica, reagiu ao comentário de um crítico de televisão que comparou sua voz a “um gato deslizando em um quadro negro”, empregando aulas de dicção do preparador vocal do Royal National Theatre e com a vontade e dedicação que lhe eram naturais, conseguiu suprimir completamente seu dialeto de Lincolnshire.

A vontade e dedicação também são características marcantes da atriz que interpretou Margaret Thatcher neste filme. A escolha de Meryl para interpretar Margaret foi questionada por críticos britânicos, por ser uma atriz americana. Neste filme ela recebeu sua 17a. indicação ao Oscar de Melhor Atriz e faturou o prêmio, 29 anos depois de ganhar o seu segundo Oscar. Ela também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático (seu oitavo prêmio Globo de Ouro em geral) e seu segundo Prêmio BAFTA de Melhor Atriz em um papel principal. Meryl já recebeu 19 indicações ao Oscar (um recorde para as categorias ligadas a atuação). Também recebeu 29 indicações ao Globo de Ouro, vencendo oito, também um recorde para o prêmio. A atriz recebeu dois Emmys, dois Screen Actors Guild Awards, o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes e no Festival de Berlim, cinco New York Film Critics Circle Awards, dois BAFTA, dois Australian Film Institute Award, quatro indicações ao Grammy Award e uma indicação Tony Award, entre outros prêmios.

Este longa metragem não narra apenas a história de dedicação ao serviço público da primeira primeira-ministra do Ocidente. Suas ideais de privatização das improdutivas empresas estatais, da desregulamentação do mercado, a sua dura oposição ao corporativismo sindical, a forte crítica a União Soviética e o preço que o poder cobra da sua integridade moral quando se decide reagir a ameaças por intermédio do horror da guerra, culminaram não só no seu apelido, “A Dama de Ferro”, mas também na tentativa de assassinato que ela sofreu em 1984. O filme mostra também intimidades da vida da ex-premiê que poucos conheciam. Seus filhos ficaram “chocados” com o roteiro do filme, mas é nas cenas de cotidiano que a personalidade da Baronesa Thatcher de Kesteven ficam evidentes, como nesta conversa, dela já bastante idosa, com o médico:

Margaret

- O que sou obrigada a sentir?
- As pessoas não “pensam” mais.
- Eles “sentem”.
- “Como você está se sentindo?”
- “Não me sinto confortável com aquilo.”
- “Me desculpe, mas nós, o grupo, estava sentindo…”
- Sabe, um dos grandes problemas da nossa época…
- É que somos governados por pessoas que se importam…
- Mais com os sentimentos do que com pensamentos e ideias.
- Pensamentos e ideias.
- Isso me interessa.
- Pergunte-me o que eu estou pensando.

Médico

- O que você está pensando, Margaret?

Margaret

- Cuidado com seus pensamentos, pois eles se tornam palavras.
- Cuidado com suas palavras, pois elas se tornam ações.
- Cuidado com suas ações, pois elas se tornam hábitos.
- Cuidado com seus hábitos, pois eles se tornam o seu caráter.
- E cuidado com seu caráter, pois ele se torna o seu destino.
- O que nós pensamos, nós nos tornamos.
- Meu pai sempre dizia isso.
- E eu acho que estou bem.

Publicado originalmente na revista A Agorista de Março de 2016.

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