Porque parei de consumir long neck

E acho que você também deveria parar.

O texto acabou saindo maior do que eu esperava então segue um resuminho se bater aquela preguiça de ler até o final — TL;DR:

Garrafas long neck não são reutilizáveis, quebram fácil, geram uma quantidade enorme de lixo problemático para cooperativas, podem machucar pessoas se descartadas com descuido e, de quebra, não apresentam nenhum benefício real para quem só quer uma cervejinha gelada. Ah: e o gosto é o mesmo que o da latinha — que gela mais rápido.

Meu deus, agora que escrevi esse texto não consigo pensar em nenhum motivo para escolher a long neck. Acho que tunelei. Se pensar em algum, me conta por favor!

Agora o texto completo, incluindo a introdução de como surgiu isso tudo:


Era sábado e, naturalmente, queríamos sair. Eu e Augusto. Se o Zeh não estivesse viajando teria se juntado a nós para um sábado típico no 14. Queríamos dançar forró e, depois de tomar umas caipirinhas (bem fortes, por sinal), fomos para a Lapa.

Chegando no Vaca demos de cara com a porta fechada. “Ontem estive aqui e o cara me garantiu que ia rolar.” falei para o Augusto, inconsolável. Decidimos ficar no samba um pouco e depois partir para o tradicional plano B: o bar do nanam ali perto, na Tiradentes.

O som era um samba bacaninha que tentava sair afinado naquelas caixas de som temerosas que tem lá. Na paralela tava rolando uma festa e passamos no meio da galera purpurinada, mas decidimos voltar. Ambulantes por todo lado, como sempre, fazendo a festa com as ruas cheias. Os primeiros sinais do carnaval começaram evidentes: quantidades exageradas de ambulantes e pessoas purpurinadas em qualquer lugar que o olho mirasse.

Quando o samba acabou, o nanam deu uma esvaziada. Descemos da calçada e ficamos do outro lado da rua, só pra mudar de perspectiva. Ao nosso lado tinha uma caixa de cerveja que, a essa altura, tinha virado um enorme depósito de lixo.

Antes desse sábado, nunca tinha me incomodado tanto com a quantidade de garrafas no chão. Eu mesmo já deixei várias deitadinhas no meio fio. Talvez, por estar muito cheio, a quantidade também tinha sido multiplicada… não sei. Mas começou a incomodar. Eu e Augusto passamos a reparar e, num certo ponto, percebemos cacos por todo lado: garrafas quebradas.

Aí que tudo mudou. Atrás da gente tinha um fluxo intenso de pessoas— que era impossível ignorar, já que quase todo mundo esbarrava violentamente em mim. Reparamos muitas garotas de rasteirinha e sandálias baixas e logo começamos a catar os cacos no entorno. No Boi Tolo de abertura do carnaval vi uma garota com o pé cortado e foi horrível. Imagina: um corte profundo no seu pé imundo no meio de uma rua no centro da cidade. De madrugada ainda por cima.

Catamos o que conseguimos e, como sempre fazemos, começamos a debater sobre isso. Alguns segundos depois, alguém deixou uma garrafa no morro que havia se formado em cima da caixa de cerveja e a pilha desmoronou e esparramou pelo chão — estilhaços para todos os lados. A mais alta caiu e quebrou no meu pé. Logo depois da gente falar sobre cortar o pé, uma garrafa quebra no meu. Sorte que eu tava de sapato. Ficaram uns estilhaços fininhos na meia e só. Sorte.

Naquele momento começamos a deliberar sobre consumo de long necks e eu contei essa história toda para compartilhar quais foram as nossas conclusões nesse debate. O resumo é que não vou mais beber long necks. Augusto vai deixar de beber, pelo menos, no carnaval — o que já é um bom começo.

Quais são os motivos para tomar essa drástica decisão que significa, basicamente, abrir mão da nossa cerveja preferida em detrimento de uma forma de consumo mais consciente?

1. Evitar cortes e machucados

Garrafas de vidro quebram. Vidro quebrado é altamente cortante. Muita gente usa sandálias, chinelos, rasteirinhas, etc. Junta essas três coisas e dá pra pensar em várias situações desagradáveis — como a da menina com o pé cortado no Boi Tolo. Se num sábado qualquer esse risco é eminente, no carnaval ele se multiplica mil vezes.

Nem vou falar de briga de rua com garrafa quebrada porque não vale o nosso tempo, né?

2. Praticar os três R’s da sustentabilidade

Um dia vou escrever um post sobre mudar o mundo. Por enquanto, me preocupo da forma que puder com o impacto que eu causo ou deixo de causar, ativamente. Quando se trata de consumo e descarte, é impossível deixar de falar sobre Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

Reduzir

O pessoal do Pegada de Lixo fez uma conta e concluiu que um bar, em média, descarta 800 kg de vidro por semana — o que resulta em um impacto hídrico de 5.600 litros, e uma emissão de 960 kg de CO2 na atmosfera. Um bar. Por semana.

Segundo o Jornal nacional, uma cooperativa de coleta seletiva em Campo Grande recebe 6 toneladas de vidro por dia! E só consegue se desfazer de 300 quilos. O resto fica acumulado e se torna um risco para a saúde pública, já que é o local perfeito para a reprodução do famigerado Aedes aegypti.

A gente tem a tendência de olhar para uma pilha de lixo e pensar: “Só mais uma não vai fazer a menor diferença!”. Mas vai sim. Vamos fazer uma conta rápida: uma pessoa bebe em média 5 long necks por noite (por baixo). Se você é uma pessoa comportada e só sai aos sábados, em 2017 você vai sair 52 noites e, ao todo, terá bebibo 260 long necks. Lembra da pilha de lixo? Você bebeu uma pilha com 260 long necks!

Eu acho que você também bebe mais que isso num ano. ;p

A título de exercício imagina também uma pilha com 260 latinhas. Agora amassa todas e empilha de novo. Qual pilha de lixo você prefere chamar de sua?

Reutilizar

Segundo a Rede de Educação Ambiental do Paraná, a indústria vidreira modificou a composição química das long necks para que ela se tornasse competitiva em relação à latinha de alumínio. O resultado compromete a resistência da embalagem e não permite o seu retorno para um segundo envase. Ou seja, a long neck não é reutilizável, ao contrário das clássicas garrafas de 600ml.

Além de não ser retornável, quebra mais fácil!

Nota: me disseram que algumas garrafas menores que 600ml são retornáveis, tipo a “cracudinha” da Antártica. Nesse caso, claro, é de boas consumir — desde que você retorne de fato. Se é pra beber e jogar fora, a latinha continua sendo a melhor opção. 😉

Reciclar

Enquanto as long necks são um problemão para as cooperativas e demoram mais de mil anos para se decomporem, o Brasil lidera o ranking mundial de reciclagem de alumínio. Segundo a ABAL (Associação Brasileira de Alumínio), em 2015 o índice de reciclagem do alumínio no Brasil foi de incríveis 97.9%!

O Paraná é o estado que mais discute o descarte das long necks, tendo chegado até a votar um projeto de lei que proibia a venda dessa embalagem. Há quase 10 anos, em 2008, a Tribuna do Paraná publicou uma notícia afirmando que poucas empresas possuem planejamento de descarte de long necks. Em 2016 é surreal que empreas produzam algo em larga escala sem se preocupar com o resíduo gerado.

3. Lembrar dos catadores

Catadores são pessoas que fazem do lixo seu sustento. Hoje estima-se que 1 a cada 1000 brasileiros seja catador, e que 3 a cada 10 catadores escolheriam permanecer na cadeia produtiva da reciclagem, mesmo que tivessem alternativas. 67 latinhas dão aproximadamente 1kg e cada quilo é vendido, em média, por R$2.

Catadores da Cooperativa Cruma de Poá, SP. Foto: mncr. Créditos: http://riscosambiente.blogspot.com.br/2014_06_01_archive.html

No Brasil são consumidas 51 latas de alumínio por habitante por ano — menos que 1kg. Nos Estados Unidos esse número chega a 375 latas por habitante! Ainda há muito espaço para o consumo de latinhas. Se cada um substituir a long neck pela latinha já vai fazer uma diferença enorme.

As condições de trabalho dessas pessoas geralmente são insalubres e sem nenhuma medida de apoio ou política pública (principalmente os que trabalham nas ruas). Mesmo assim, eles são os grandes responsáveis pelo alto índice de reciclagem no país. Existe o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, que luta pelos direitos dessa classe — que tem a atividade profissional reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2002.

Você não precisa se envolver diretamente com essa luta. Mas saiba que o consumo de latinhas ajuda a movimentar mais dinheiro no bolso dessa galera que coleta, separa, transporta, acondiciona e, às vezes, beneficia os resíduos sólidos — transformando lixo em mercadoria com valor de uso e de troca.

4. É a mesma cerveja

Uma desculpa comum é que “a long neck é muito melhor e tem um sabor mais rico” — um grande caô. Quer dizer, eu não sou especialista mas o Brejas, site especializado em cervejas, conversou com o Paulo Schiaveto (respeitado mestre-cervejeiro e engenheiro de produção) que disse, entre outras coisas, que:

“… a grande maioria das latinhas é feita com material bastante inerte (assim como o vidro das garrafas), com a vantagem de proteger a breja da ação prejudicial da luz. Em qualquer dos casos, as composições químicas tanto das latas quanto das garrafas não altera o sabor da cerveja.”

Ainda tá na dúvida? Faz um teste cego! Eu super vou fazer um pra tirar minhas próprias conclusões.

5. Gerar esse debate

Há um tempo, graças à uma palestra da incrível Mariana Camardelli, passei a pensar em como gasto dinheiro de uma forma diferente. Pensa assim: todo o dinheiro que a gente tira do bolso vai para alguma instituição, pessoa ou empresa. Nós estamos, com cada Real, em uma escala pequenininha, investindo nessas empresas/pessoas/instituições para quem estamos dando nossa grana.

Eu quero viver num mundo melhor. Se eu trabalho para ganhar o meu dinheiro e posso escolher como vou utilizá-lo, eu escolho investir em fazer do mundo um lugar melhor. Ou, pelo menos, para não cagar mais o que já tá difícil. Isso vai da ONG que você doa até a cerveja que você bebe. Se a empresa que você compra cerveja polui e não tá nem aí com isso, você é conivente. Afinal, você tá dando dinheiro pra ela.

Depois disso tudo, não consigo mais comprar cerveja long neck achando que tá tudo de boas. E também não acho que precise abrir mão da cerveja… Mas que seja, pelo menos, latinha ou retornável.


Se você leu isso tudo, quero fazer um convite: o carnaval está chegando e ele é uma das épocas do ano com maior consumo de cerveja. Nesse carnaval, ao invés de comprar long neck consuma cerveja em lata. Se você estiver fazendo careta agora e rejeitando a ideia, te desafio ainda mais: se esforça um pouquinho e depois me conta se a sua folia foi muito pior por causa disso. ;)

No final das contas eu não posso fazer mais ninguém consumir de forma mais consciente ou abrir mão de coisas ou comprar uma lata ao invés de uma long neck. Mas eu posso fazer isso. E se isso acontecer já é uma pessoa a menos consumindo long neck no mundo. Duas, porque o Augusto também parou. Se você parar também, seremos três. E é assim que a gente começa um movimento capaz de mudar alguma coisa: uma long neck por vez.


Muito obrigado Augusto e Bruna pelas revisões e pelos toques. 🙏