A libélula dos seus oito anos

Às vezes eu fico um tempo sem ler livros, eles acumulam em casa, às vezes eu volto e não consigo ler pouco, tem que ser direto, tem que ler um livro em menos de um semana, emendar em outro, comprar mais (mesmo que ainda na fila tenha 476 outros livros já comprados).

Eu fiquei um tempo sem ler, estava meio focado em tirar um atraso dos quadrinhos, em desenhar sem parar, de repente eu dei uma pausa em tudo e voltei para os livros. O primeiro era um que, se fosse pensar em uma fila cronológica estaria longe, mas pensando no método do último a entrar primeiro a sair, esse livro acabou sendo privilegiado.

A libélula dos seus oito anos é um livro de um escritor francês que eu simpatizo muito. Já tinha lido o excepcional Talvez uma história de amor, também do Martin Page, e é um livro que eu sempre recomendo muito.

Eu não quero fazer uma sinopse ou falar muito da história em si porque eu acho que estraga um pouco a surpresa da descoberta e da construção dos personagens de Page.

Eu diria que Page não é aquele narrador de tramas complexas, ele é um criador de personagens surreais amarrados por um cotidiano quase fantástico.

Page tem um humor negro sutil e uma ironia bizarra que me faz rir alto constantemente durante a leitura, mas não existe ali uma “piada” facilmente explicável e sim a construção complexa de um personagem que gera situações de humor e para entender a graça só lendo o livro todo.

É interessante como esses personagens bizarros de Page são de uma empatia gigante, você quer ser amigo deles, quer estar na vida desses personagens para poder depois contar para os outros histórias desse seu conhecido fora do normal.

Além desses personagens a deriva na vida parisiense o livro traz entranhado uma crítica ao mundo da arte, especialmente aos críticos de arte. Não é nada aprofundado, não é nenhum ensaio ou mesmo um discurso com um propósito muito articulado, mas serve a sua função dentro da realidade excêntrica em que vivem os personagens de Page.

Uma das coisas que eu gosto muito na escrita do autor é que ele é conciso e preciso. O livro é curto, sem excessos e cheio de frases maravilhosas. Pincei algumas que estão aqui embaixo.

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“Somente aqueles que sempre dispuseram de tudo é que sonham com uma vida aventureira e excepcional em que tudo se escreve com maiúsculas.”

“…não queria um príncipe encantado, pois esse era o sonho das garotas que acabavam se casando com seres lamentáveis que cheiravam a estupidez e outras mulheres.”

“…não se morre de doença: morre-se porque as mentiras acabam sendo sempre descobertas.”

“A sociedade é muito bem organizada para aqueles que já tem tudo.”

“Gostava de sair com os amigos, era o único momento em que se sentia realmente só.”

“O ódio é uma forma de se consolar em relação às coisas que nunca se poderão ter.”

“Espero que você não seja uma dessas pessoas rústicas que põem açúcar no chá.”

“Há pessoas que são assassinadas quando forçadas a existir.”

“A morte não é nada mais que um esconderijo. O melhor deles”


Originally published at www.diletanteprofissional.com.br.

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