Anunciação

Tem duas coisas que me atraem muito em livros: o livro ser curto e ser escrito por um poeta.

Nas últimas décadas proliferou uma moda de livros de mais de quatrocentas páginas que compõe uma série ou coleção que em pouco tempo somam milhares de folhas escritas.

Nada contra o livro longo, nada contra ter o espaço para trabalhar tudo, para explorar todos os detalhes, nem contra as intermináveis sequências descritivas tão característica da língua inglesa. Nada contra nada disso, mas ao mesmo tempo tudo a favor dos romances sucintos franceses que já começam no meio, retrocedem só o necessário e param antes do “fim” — do fim narrativo, uma vez que o fim do livro simplesmente é onde o autor decidiu parar.

Sobre os poetas, eu talvez seja a leitor mais avesso a poesia, leio pouquíssimo, gosto de quase nada, mas adoro quando o poeta resolve ir para a prosa.

A vantagem do poeta está ligada ao livro curto, o poeta tem um cuidado com a palavra, ele aprendeu com os seus versos a dizer só o necessário e construir cada frase como uma peça realmente importante do mecanismo.

E Anunciação da Vanessa C. Rodrigues já de cara me ganhou nesses dois pontos e não decepcionou em nenhum momento.

Não vou dizer que é um livro fácil, porque não é. Mas essa dificuldade não que dizer complexidade e sim intensidade.

Pense em uma sessão de terapia onde o paciente vem e despeja todas aquelas emoções intensas, complexas e confusas no terapeuta. O terapeuta fez uma faculdade e estudou bastante para estar amparado o suficiente para lidar com isso. Mas o leitor incauto não.

O leitor chega como eu, senta confortavelmente, e fala: bom em um horinha eu mato esse livro. Daí você começa a ler e aquela história aparentemente simples começa a descarregar emoções tão fortes da personagem no leitor que você para e quer colocar o livro embaixo de uma pedra para garantir que nada mais vaze dali.

Anunciação pode ser curto, mas eu levei mais tempo para lê-lo que muito romance longo. É um livro que pede pausas, que pede um tempo para sentir e processar aquilo que a personagem está passando. E como se torna delicada uma situação que aparente não deveria ter problema nenhum.

Em última instância se lhe contasse a história de uma garota em crise, casada com um rapaz que todo mundo considera perfeito, que parte para Londres em uma fuga da sua vida e que se descobre grávida, você poderia classificar essa história como o Carlos H. Cony se refere aos seus próprios romances: “histórias sobre os dissabores da classe média”.

Mas história em si não importa, o problema da personagem ser insignificante diante da fome na África, ou qualquer outra coisa que efetivamente é mais significante que todos os problemas que muitas pessoas tem na vida toda, também não importa. O que conta aqui é não é a narrativa factual que pode ser resumida em poucas linhas e sim a narrativa emocional que é algo tão gigantesco que nem cabe no livro.

Além disso, o romance tem toda uma visão muito peculiar sobre a gravidez e o papel biológico/social da mulher que vale muito a pena.

Enfim, recomendo muito esse livro. Não é uma leitura para divertir, para pensar ou refletir, é um livro para sentir, então se prepare.

O romance foi publicado pela editora Oito e Meio, com uma capa excelente feita por Pedro Franz, e pode ser adquirido diretamente no site deles.

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Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on January 14, 2016.

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