As listas

Nessa época do ano costumam sair as infinitas listas de Melhor alguma coisa do ano anterior.

As pessoas tem uma certa obsessão por listas que é curiosa, seja para sentir validado vendo aquele item que você gostou laureado ou para se sentir injuriado quando o que você considerava melhor do ano anterior nem aparece na lista.

O mais curioso nessas listas na área de cultura é que elas transformam um produto totalmente individual em um esporte competitivo. Sua HQ/Filme/Livro/Disco se torna um competidor e terá “uma dura batalha” para vencer a HQ/Filme/Livro/Disco de fulano. Chega a ser engraçado quando você ouve comentaristas falando das expectativas para o Oscar, de como DiCaprio terá que “bater” Michael Fassbender.

Veja, não estou aqui desmerecendo as listas e prêmios. Muito pelo contrário, toda lista e todo prêmio tem muito valor, principalmente para quem ganha. Estar em uma lista de críticos, receber um troféu, um prêmio em dinheiro, ou seja lá o que for é uma validação daquele trabalho, é um incentivo para o autor e pode até abrir algumas portas.

A questão que eu quero levantar é que a recíproca não é verdadeira.

Não estar em uma lista, não ser lembrado, não vencer a corrida, nesse caso não torna ninguém perdedor por um simples motivo: toda lista, por mais bem-intencionada que seja, é falha.

A falha pode vir desde o nascimento, já em regras dúbias de acesso, pode vir da escolha dos jurados, pode vir dos critérios de rankeamento ou, mesmo que tudo isso pareça completamente perfeito e justo, a falha, que na verdade não é exatamente uma falha e sim parte da natureza da questão, pode vir da subjetividade infinita daquilo que está se querendo julgar.

Uma obra de arte tem um propósito de transmitir algo para alguém e a forma como isso ressoa dentro de cada pessoa é muito diferente. A melhor música de 2015, que fez uma multidão chorar com um acorde perfeito, pode não tocar o seu coração, pode não falar para você.

Veja, você pode definir infinitos critérios objetivos para analisar uma ficção, pode até conscientemente achar essa ou aquela história excelente artisticamente mas não gostar dela, da mesma forma que pode falar que tal livro é uma droga, mas adorar ele (esse caso tem até um nome: prazeres culpados).

Eu sei que no fim todo mundo quer estar nas listas, é um desejo egocentrico natural nosso, todo mundo quer ser lembrado, quer se ver representado, quer que tenha ganhadores de todos os gêneros, raças, estilos e credos. Mas as listas não têm que funcionar assim, não podem ser cotizadas ou divididas só para dar destaque a esse ou aquele setor que muitas vezes não é lembrado.

Você pode sempre mexer nas configurações e tentar um equilíbrio, esse ano, por exemplo, o site Vitralizando resgatou uma tradição do blog Gibizada de fazer uma “lista das listas”, 20 envolvidos na área dos quadrinhos fizeram 20 listas e de lá, Ramon Vitral e Lielson Zeni (roteirista dos HQs que eu tenho publicado aqui), apuraram quem receberia o Grampo de Ouro (veja aqui o resultado). Sabiamente, para formar essa lista eles pegaram 10 homens e 10 mulheres para ter um equilíbrio entre os votantes.

Ou seja você mexe nos critérios, tenta criar um equilíbrio, mas isso não cria justiças. Você tem autoras na lista, mas não nos primeiros lugares.

O mesmo questionamento vale para a nacionalidade das obras selecionadas, a grande maioria é nacional, nenhuma delas é mangá. Será que a seleção dos listadores apontou para uma direção? Um grande número com gostos em comum? Ou será que de fato o melhor do que se publicou no Brasil em 2015 foi efetivamente feito aqui?

Essa são questões impossíveis de responder, porque, novamente, as listas são imperfeitas.

Pessoalmente eu detesto fazer uma lista, mas adoro ler as listas das pessoas (aliás a parte mais legal do Grampo de Ouro é essa aqui, com todas as listas) o legal disso não é exatamente ver essa bobagem de esse é melhor que aquele para quem e sim ver quais quadrinhos foram lembrados e fazer uma espécie de checklist para correr atrás daquilo que você perdeu e que pode ser bom.

Uma outra crítica curiosa as listas é de que os listadores deveriam ter lido/visto tudo que saiu no ano, o que, vamos combinar, é impossível (ou se for possível é alienante e uma pessoa que só lê quadrinhos ou só vê filmes, acaba perdendo referenciais importantes).

Toda obra de arte passa por filtros. Hoje isso se horizontalizou bastante, não necessariamente você depende de jornalões para conhecer as coisas, pode ser um blog, pode ser um amigo seu que posta na rede social algo que leu e gostou, pode ser alguém que você admira que indica, enfim, existem mil maneiras de um trabalho cumprir sua função de ser falado o suficiente para entrar nos radares dessas pessoas (que já tem um faro apurado para a coisa, que vão em eventos, conhecem autores e etc).

Então, para mim, a pessoa não ler tudo não invalida a capacidade listadora dela e, se um trabalho não conseguiu chegar até essas pessoas que já tem esse hábito de vasculhar bem as produções, pode até se tratar uma obra excelente como peça individual, mas um elemento muito importante falhou nesse processo. A obra não conseguiu se divulgar, não conseguiu cumprir sua função de comunicar algo e, hoje em dia, nesse mundo de redes sociais e tudo mais, o papel do autor não para em criar algo sensacional, ele tem que trabalhar isso, tem que divulgar isso, tem que se mostrar para os outros para que as pessoas saibam do que ele é capaz e que o que ele está lançando pode ser bom.

Você pode lançar e esperar e tirar o prêmio da loteria de alguém “importante” achar por acaso aquilo que você criou e gostar ao ponto de se engajar e fazer o trabalho que deveria ser seu de divulgar. Mas isso são casos excepcionais.

No fim das contas, acho que temos que parar com essa mania de criar competições onde cada coisa tem uma métrica própria e se importar menos com a justiça sempre injusta das listas e aproveitar o que elas têm de melhor.

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Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on January 29, 2016.

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