Black Mirror vai tirar seu sono

Quando eu assisti as primeiras temporadas da série inglesa Black Mirror fiquei muito impressionado com a qualidade e a criatividade dos roteiros (comentei essas temporadas aqui). Tem várias preciosidades ali naqueles episódios. O primeiro episódio da série é daqueles que será tema de conversas por muitos anos pois cria um dilema antológico, uma armadilha perfeita e um questionamento gigante sobre nosso foco na mídia, sobre celebridades e tudo mais. Na sequência a série explora várias situação absurdas envolvendo tecnologia, futuro e o ser humano.

Depois de um hiato a série retornou agora com a produção bancada pela Netflix que certamente se impressionou com a audiência alcançada pela série dentro da plataforma.

Eu sempre elogio a melhoria da qualidade das séries com as tramas de longa duração, com roteiro mais complexo, personagens explorados de forma mais profunda. Nos viciamos nessas narrativas cadenciadas de fôlego que se prolongam e se revolucionam por anos e, felizmente, Black Mirror veio para mostrar que as contos isolados agrupados dentro de uma temática ainda podem ter tanto ou mais força que uma série longa. (Óbvio que esse formato não é inédito, Além da Imaginação é um exemplo clássico, mas essa estrutura de narrativas curtas agrupadas apenas pela temática praticamente desapareceu nas últimas décadas)

Olhando pelo aspecto do criador, produzir uma série dessas é um desafio muito mais intenso que qualquer série longa. Cada episódio é um filme, um roteiro diferente, um cenário diferente, um elenco diferente. Você muda o foco estético narrativo quando produz esses “contos”, sai do roteiro focado em desenvolver um personagem e passa para uma estrutura que depende de uma ideia poderosa para sustentá-la. Não há espaço para excessos, não há tempo para criar personagens complexos e profundos que criarão uma identificação com as pessoas. O roteirista tem que ter uma ideia matadora, perturbadora e concisa.

E não é só esse o trunfo de Black Mirror, os episódios não são apenas boas histórias que se encerram ali, eles são pontos de partida. Cada episódio encerrado abre uma potencial discussão infinita sobre o tema abordado. Todos episódios acabam de forma reverberante, é simplesmente impossível passar incólume, sempre fica um debate infinito com outros ou consigo mesmo. Pode ser algo muito próximo do nossa realidade, como o episódio que um grupo de hackers chantageia algumas pessoas e as forçam a fazer diversas coisas (algo possível já nos dias de hoje) ou até algo mais distante como o conceito de alma, vida e simulacros de realidade.

O primeiro episódio da temporada em si já é um caso a parte. Ele é uma extrapolação futurista do mundo das redes sociais. A história é ambientada em um futuro que pode ser visto como distópico (ou utópico por alguns) se mostra como uma metáfora tão pungente sobre o que já vivenciamos com o mundo paralelo do facebook, do instagram, do youtube e dos influenciadores digitais que parece algo que já está acontecendo.

A fotografia desse episódio é um caso a parte, o mundo é todo feito em tons pastéis e todo mundo tem que se forçar a ser sempre parecer simpático e educado pois é avaliado constantemente por todos a sua volta e sua nota nessa rede social totalmente integrada com o mundo real não é algo bobo, é algo que define sua vida ao ponto de dizer: você só pode entrar ali se tiver uma nota acima de X.

Apesar de Black Mirror não ser uma série de terror, pode até ter seus momentinhos mais tensos, um suspense mais pesado, mas o conjunto todo não é feito para dar sustos ou dar medo enquanto assiste, é uma série capaz de perturbar e tirar o sono mais do que qualquer história de monstros.

Pare o que você está assistindo e veja e discuta com seus amigos Black Mirror.


Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on October 31, 2016.

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