Dupin

Dupin é uma adaptação que a tem tudo para o leitor chegar com os dois pés atrás. Tem um traço peculiar, transforma os personagens de Edgar Allan Poe em duas crianças, traz a Rua Morgue para a Santa Cecília… enfim, se ninguém me falasse que é bom, eu teria certeza que seria ruim.

Eu sou fã do detetive Dupin criado por Poe, até traduzi o Assassinatos na Rua Morgue, conto em que a HQ se baseia. Poe criou nesse conto a base para toda a literatura policial que temos até hoje.

Óbvio que isso que deveria pesar a favor é mais um ponto contra Dupin, porque as pessoas gastaram tanto a fórmula de Poe que hoje ele parece um decalque do Sherlock Holmes e não o inverso.

Com tudo isso jogando contra essa HQ, o fato dela ser excelente a torna merecedora até uma láurea a mais, nota 10 com louvor.

O trabalho de adaptação de uma história para outro meio, mesmo quando se apoiando em algo como uma boa direção no cinema ou um bom desenho e uma boa narrativa visual nos quadrinhos, é algo ingrato, porque a história original se torna um limitador. Quem já leu o original, não tem muito o que esperar da versão.

É aí que Dupin me ganhou. A história original está lá, em alguns momentos mais literal, em outros se valendo de uma certa liberdade, mas ela, apesar de ser o condutor narrativo, não é o destaque da HQ, que ficou para os dois garotos e a relação deles entre si e com o que estão vivendo.

Gustave, o misterioso primo de Eduard que chega de Portugal para passar o tempo com a tia depois de uma tragédia familiar, traz em si a essência de Dupin, mas tem algo a mais, um monstro interno, uma violência calculada quando necessária. Eduard, por sua vez, não é o parceiro passivo que só escuta e serve de espelho para o leitor, ele tem sua tragédia pessoal, a relação com um candidato a padrasto, uma certa cleptomania e outros elementos que o compõe como um personagem completo e não um coadjuvante qualquer.

A arte de Melite pode não ser das mais virtuosas, um traço simples, tremido, com certas inconstâncias — às vezes deliberadas outras talvez nem tanto — mas funciona bem. O design dos personagens é bom e ele tem um trabalho interessante de ângulos de visão que favorecem demais o seu desenho em vários momento. Nem é preciso ir longe para demonstrar isso, a belíssima capa da HQ já prova como funciona bem essa perspectiva.

Com isso, Dupin pode não ser uma adaptação fiel, mas sem dúvida é uma adaptação excelente. Não li tudo que saiu de adaptação em 2015, mas, mesmo no escuro, daria o HQMix de melhor adaptação para esse título, pois o trabalho de Melite deve ser lembrado como exemplo de como pegar uma boa história e contá-la com um algo mais que torna a adaptação não melhor que o original, mas algo singular que vai além do decalque bem feito.

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Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on February 22, 2016.

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