Entrevista com Bianca Pinheiro

Seguindo com a minha investigação sobre como se forma e evolui um artista entrevistei Bianca Pinheiro, uma garota de 28 anos com um trabalho impressionante de ilustração e quadrinhos.

Atualmente o grande destaque da artista é a série Bear que começou como uma webcomic e hoje segue na internet e é publicada regularmente pela editora Nemo. Além de Bear ela lançou outras HQs independentes com uma temática mais para o terror e em breve será autora de um dos livros da série Graphic MSP retratando com seu estilo a personagem mais icônica dos quadrinhos nacionais, a Mônica.

Nessa entrevista Bianca fala sobre a sua evolução, sobre suas dificuldades e a trajetória que a levou para o ponto em que está hoje.

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DP — Bianca, para começar, fale um pouco sobre a sua relação com o desenho. Como começou, qual sua formação e as principais influências.

Bianca — Comecei a desenhar ainda criança. não lembro exatamente quando, naturalmente, mas também não me lembro de um momento da minha vida em que eu não desenhasse ou gostasse de pensar em quadrinhos (o desenho para mim sempre foi uma ferramenta para chegar nos quadrinhos. nunca fui de desenhar só porque sim. meu desenho ou ilustrava alguma história que eu gostasse ou fazia parte de uma HQ).

Eu não cheguei a fazer curso de desenho, propriamente dito, mas na faculdade de Artes Gráficas e na pós-graduação em Histórias em Quadrinhos eu tive aulas de desenho, que geralmente focavam em desenhos de observação e/ou fórmulas de desenhar corpo humano.

No desenho a minha influência seguiu o seguinte caminho: Turma da Mônica, Combo Rangers e mangá, e depois de muito tempo só “mangazando” e achando que nada valia a pena se não fosse mangá (hahahaha), eu li Retalhos do Craig Thompson e comecei a pensar em outras maneiras de ver o desenho. a partir daí busquei outras influências, sendo que as que eu mais busco atualmente são Steven Universe, Cyril Pedrosa, Emily Carroll, Noelle Stevenson e Ryan Andrews. o estilo de desenho de todos eles me agrada muito e acabo voltando a eles com frequência sempre que quero estudar um pouco.

DP — Você sente que teve algum processo de aprendizado ao longo dos anos até consolidar o seu estilo atual? Consegue identificar o que ajudou ou o que atrapalhou na evolução?

BP — Eu não gosto de pensar no meu estilo atual como consolidado. aliás, espero que não seja, porque eu não gosto muito dele, pra falar a verdade, hahaha! Mas, no final das contas, o que mais me ajudou a evoluir no desenho foi ter trabalhado por 3 anos e meio como ilustradora dentro de uma empresa. Ser obrigada diariamente a desenhar coisas diferentes para diversos públicos e propósitos me fez evoluir rapidamente em três anos. Foi a minha maior fase de estudo e foi quando descobri minhas influências favoritas (exceto por Steven Universe, que conheci ano passado).

Como eu sou uma pessoa muito preguiçosa e procrastinadora, ser obrigada a estudar foi excelente para mim e, bem, trabalhar aprendendo é sempre bom.

O que sempre atrapalha é a preguiça. eu morro de preguiça de refazer desenhos quando não gosto deles. Aí fico só insatisfeita e me sentindo mal. não recomendo a ninguém.

DP — Você deve ouvir toda hora que o traço do Bear é muito fofo. Isso incomoda?

BP — Ouvir que o traço de Bear é fofo não me incomoda, não. É uma característica mais constante dos meus leitores brasileiros, diga-se de passagem. Por algum motivo, os gringos não se veem obrigados a comentar a fofura do traço o tempo todo (comentam se alguma cena for propositalmente fofa). O que me incomoda é quando dizem que Bear — a obra — é fofo. E eu não sei se é porque eu conheço bem o que e está acontecendo em Bear ou se é só porque o pessoal tende a não prestar muita atenção nos detalhes… não acho Bear fofo.

Muitas pessoas me disseram que quando o Rei G, no segundo volume, fica criança e vira submisso e servil, ele se torna fofo. Isso é muito assustador para mim. Não vejo fofura na submissão e tampouco na pessoa que se coloca na posição de servil. Aí, é claro, fica a dúvida se o povo só não pensou nisso desse jeito ou se fui eu que apresentei a questão de maneira incorreta.

Talvez a galera em geral se deixe levar pela fofura do traço e aceite Bear como um todo como algo fofo. Pode ser. não sei. xD~

DP — As suas duas outras HQs independentes (Dora e Meu Pai é um homem da motanha) tem uma estética diametralmente oposta, o fundamento do desenho é o mesmo, mas o resultado é um clima tenso, pesado. Por que essa variação e como é pensar a arte de forma tão distinta?

BP — Bom, o motivo da variação é o que você mesmo colocou na pergunta: dar um clima tenso, pesado. xD~ As histórias precisavam disso, então precisei adaptar o desenho para ajudar na narrativa.

Mas confesso que eu não vejo muito bem essa questão de pensar a arte de forma distinta. Tenho medo de parecer pedante aqui… por favor, não é o caso. eu gosto de pensar em quadrinhos. E a “cara” do desenho faz parte disso, é um modo de incrementar a narrativa. Ela já vem meio que naturalmente para mim. Eu geralmente já sei a cara que a HQ tem que ter para alcançar o objetivo da história e eu geralmente não consigo fazer o que eu estou pensando e acabo testando enquanto desenho (e/ou coloco as sombras).

Mas eu não vejo diferença em pensar Bear ou pensar em Dora ou Meu pai é um homem da montanha. O pensamento só vem, sabe? Saber se eu serei capaz de colocar no papel o que eu pensei é outra história. E, no final das contas, deve ser por isso que nunca fico realmente satisfeita com os meus quadrinhos; eu nunca consigo atingir o meu objetivo final. Talvez seja uma questão de treinar mais.

DP — Você sempre quis fazer quadrinhos? Por que?

BP — Sim. Sempre. não sei por quê. Só sempre quis. Existe na minha mente a vontade de fazer quadrinhos desde que eu me entendo por gente. Não sei o que causou isso, se foi ler Turma da Mônica ou o que aconteceu. Mas eu sempre quis. Acho mais fácil me expressar em quadrinhos do que só com ilustrações ou só com textos. Mas só percebi isso recentemente.

DP — Qual a maior dificuldade fazer uma HQ?

BP — Sentar e fazer, hahahaah! Sério. sentar e fazer. Eu sou muito preguiçosa mesmo. Gosto da ideia de fazer uma HQ, gosto dela na minha mente, amo fazer o storyboard e até a parte dos esboços eu me divirto. Depois disso é um trabalho mais mecânico e tedioso, o de parar e desenhar direito, colorir e sombrear e balonar. Gasta tempo e é chato. a gente faz porque quer ver a coisa pronta e porque o prazo está apertando. Mas exige muita disciplina, então é difícil pra mim.

DP — Por mais que Bear tenha começado independente, dá para sentir que ela foi planejada para dar certo. Você buscou uma estética “mais comercial” na criação da história?

BP — Não… eu comecei a fazer Bear com o único objetivo de me manter produzindo e pensando em HQs. O traço, o estilo, as cores eu escolhi o que achei bonito quando fiz a primeira página e nos dois volumes eu já mandei a HQ completa para a editora, então nem trabalho de editor eles tiveram (tiveram só de revisor). Não foi planejada para dar certo. Só fiz algo que eu gostaria de ler.

DP — Não falando de você especificamente, mas você acha mais importante para o artista trabalhar no estilo que ele gosta, mesmo que seja mais difícil encontrar um público, ou é preciso buscar um modelo mais “comercial”?

BP — Acho que é uma questão de experimentar e ver o que gosta mais. Mas eu acredito que começar a fazer quadrinhos para ficar rico e/ou famoso seja um equívoco. claro que a gente precisa de público, de uma certa medida, e aí fica a dúvida se a pessoa prefere fazer algo que agrade a todos e portanto venda ou se prefere fazer algo que fale mais de si mesmo e talvez não faça tanto sucesso. No final das contas, falando da minha própria experiência, fazer um trabalho inteiramente autoral e buscando o que o artista realmente quer é muito mais prazeroso do que fazer algo por encomenda, mas vai de cada um.

Só agradeço que caras como Leandro Melite e Pedro Cobiaco não se deixem levar por essas coisas. se eles buscassem apenas “traços comerciais”, talvez “Dupin” e “Aventuras na Ilha do Tesouro” nunca tivessem existido e isso seria triste demais. Essas foram as duas melhores HQs de 2015, na minha opinião.

DP — Você está produzindo uma HQ para a coleção de Graphics da MSP justamente com a personagem mais icônica do Mauricio de Sousa. Como foi seu processo de redesenho de uma figura que ficou tão marcada naquele padrão Mauricio de Sousa Produções?

BP — Ainda está sendo, hahahaah! Acho que o processo de redesenhar a Mônica só terminará quando a Graphic estiver pronta. E talvez nem aí. Mas é gostoso trabalhar com os personagens do Maurício. Especialmente as crianças (detesto desenhar adultos, são mais difíceis). Quando se cresceu lendo Turma da Mônica como eu, a imagem dos personagens já está tão gravada na mente que quase não precisei buscar referências. Os personagens saíram quase que naturalmente. Mas ainda fica o medo de o pessoal não gostar, né. vamos ver. O Sidão [Sidney Gusman editor das GMSP] tá aprovando por enquanto! xD~

DP — Fora dos quadrinhos, você trabalha com ilustração. Como esse trabalho é diferente do seu processo nas HQs?

BP — Trabalhar como ilustradora é exatamente o que eu mencionei a respeito do trabalho por encomenda. Raramente acho divertido fazer. Exceto no começo. Começar as ilustrações encomendadas é sempre divertido porque é quando experimento novos estilos. Mas depois, quando é só trabalho mecânico, saber que não é algo para mim, mas particularmente por dinheiro, torna as coisas mais difíceis. Se esses freelas não viessem com prazos eu provavelmente nunca os terminaria.

DP — O que você tem lido de quadrinhos?

BP — Tenho lido muito quadrinho nacional, ultimamente. Gosto muito do trabalho que a Mino vem fazendo com seus autores e tem saído muita coisa independente interessante. Especialmente financiado pelo Catarse. Tenho lido também as Graphic Novels que a Nemo tá publicando, são ótimas! O último quadrinho que li e que achei muito bom foi o Gnut do Crumbim. Aí acompanho também as séries Saga (ainda que lentamente) e The Lumberjanes, e qualquer coisa que a Emily Carroll publique.

Mas ainda tenho uma lista longa de HQs pra ler… o processo é lento e demorado.

DP — Cite dois artistas que você gosta muito e diga por que.

BP — Emily Carroll é minha quadrinista favorita, absoluta. gosto de tudo o que ela faz, especialmente da narrativa dela. o traço dela é maravilhoso e a versatilidade dela nas HQs que encanta demais.

E o Pedro Cobiaco, que deu um salto gigantesco de “Harmatã” para “Aventuras na Ilha do Tesouro”. eu não curti Harmatã (desculpa, Pedro… se algum dia você ler isso). mas sou apaixonada pelo Aventuras. fora o traço dele, que é incrível, lindo, expressivo e fantástico (de fantasia, mesmo).

DP — Você tem participado de vários eventos de quadrinhos nos últimos anos. Você vê alguma mudança no público leitor?

BP — Não tenho participado, não, hahaahha. Só comecei a ir em eventos de quadrinhos em 2014, com a Gibicon. Sou caloura nisso ainda. Só fui a uma Gibicon, a um Lady’s Comics, uma Fest Comix, um FIQ e uma CCXP. Só consigo comparar um evento com outro e não diferentes edições do mesmo. E ainda não pude observar mudanças no público leitor. O que pude é notar o tipo de público em cada evento. Em 2017 ou 2018 você me pergunta de novo. 😛

DP — Você prefere trabalhar com desenho digital ou mídia tradicional?

BP — hum… depende. é muito legal ter o papel pra guardar depois (embora os originais de Dora, por exemplo, me frustrem por eu não ter direito onde guardar). É gostoso ouvir o lápis arranhar o papel e sentir o cheiro da tinta e ver o papel enrugar. Mas eu sou mesmo muito cagona e estou sempre com medo de errar e ter que refazer uma página inteira (lembrando que sou também muito preguiçosa). Então acabo na maior parte das vezes finalizando no computador ou fazendo logo tudo digital. O digital é mais rápido, tem camadas e o incrível Ctrl+Z, no qual sou viciada.

DP — Uma das coisas que eu mais gosto no Bear é o uso pontual e genial do GIF para animar o desenho da Raven, como surgiu a ideia disso e a oportunidade de publicar o material impresso mudou alguma coisa nessa questão?

BP — Pô, valeu!

Eu não sei o que me fez fazer o desenho dela ser animado. Fiz isso na página 4, que é quando aparece pela primeira vez e, logo em seguida, ao fazer o storyboard da página 5, resolvi que os desenhos dela se mexeriam de fato e que isso seria o poder dela. Naquela época eu tinha só a história muito geral na cabeça e fazia página por página sem um roteiro maior.

Mas desde o princípio eu tinha a intenção de, eventualmente, publicar aquela história (achava que faria isso pelo Catarse). Então todos os meus usos de gif foram feitos de uma maneira que não fosse essencial para a narrativa. eu não substituí quadrinhos para deixá-los animados. Os gifs apenas dão um tchans a mais visualmente. então adaptar para a versão impressa não foi problema nenhum.

DP — Tem alguma coisa que você considera fundamental para a formação de um desenhista?

BP — De um desenhista, especificamente? Talvez treinar bastante o desenho? Depende na verdade do objetivo que a pessoa tem para o desenho. Mas acho que não considero nada fundamental na formação de um desenhista. O negócio é pegar lápis (ou algo escrevível), papel (ou algo riscável) e mandar bala. 😛

DP — Para finalizar, quais suas dicas para quem está aprendendo a desenhar ou gostaria de fazer quadrinhos?

BP — Mais do que tudo: preocupe-se em ter um bom texto e uma boa narrativa. Texto ruim e narrativas mal planejadas acabam destruindo a maior parte das HQs. O desenho é importante na medida em que for expressivo e puder contribuir para a narrativa. Não precisa ser “esteticamente perfeito”. Precisa ser perfeito para aquela HQ em questão. E por fim: leia boas HQs. Estude essas boas HQs. É uma boa maneira, penso eu, de se tornar um bom quadrinista.

Capa do primeiro gibi que Bianca colocou a venda (2005)

dumbledore (2010)

Pets (2010)

(2012)

Página de Bear (2015)

Compre Bear da editora Nemo na Amazon, Cultura, Saraiva e Travessa.

Para ver mais do trabalho lindo da Bianca viste o página dela, do Bear e conheça a Vaca Voadora.

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Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on January 26, 2016.

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