Henri de Toulouse-Lautrec

Henri de Toulouse-Lautrec teve uma vida curta, 36 anos (1864–1901), mas uma produção imensa com mais de mil pinturas as óleo, cinco mil desenhos, 275 aquarelas, 363 cartazes e gravuras.

Eu confesso que não era um grande fã do artista, mas era uma questão de puro desconhecimento. Eu conhecia os quadros do acervo do Masp e uma ou outra coisa que tinha visto na internet.

Ano passado quando veio esse quadro (abaixo) para a exposição de pós-impressionistas no CCBB eu comecei a mudar minha visão sobre ele.

E agora, com a exposição dele no MASP (viste, é maravilhosa) eu compreendi a dimensão desse artista.

Lautrec é classificado como pós-impressionista.

Ele nasceu em uma família decadente da aristocracia francesa, seus pais eram primos e isso provavelmente causou o defeito genético que, combinado com dois acidentes, fez com que suas pernas parassem de crescer. Seu corpo se desenvolveu, mas suas pernas continuaram as de um garoto, então ele era muito baixo e com um corpo peculiar.

Abaixo uma fotografia do artista.

Desde que criança, Henri demonstrou habilidade para o desenho e depois dos seus acidentes, sem poder se dedicar as atividades mais físicas, se dedicou mais a isso.

Com 18 anos, saiu da cidade do interior onde seus pais viviam e foi para Paris estudar pintura.

Um de seus professores foi Fernand Cormon e no estúdio dele conheceu outros alunos como Vincent Van Gogh e Émile Bernard.

A partir daí Lautrec seguiu uma vida boemia, se fixou no bairro marginalizado de Montmartre e virou frequentador assíduo dos bordéis da época.

O alcoolismo foi uma grande marca na sua vida adulta; é atribuído a ele a criação de um cocktail chamado de Terremoto, com uma dose de absinto e uma de conhaque; e esse vício o levou a ser internado e encurtou sua vida.

A biografia em si de Toulouse-Lautrec é infinitamente mais rica, mas quero me ater aqui ao trabalho dele como pintor a importância dele para a história da arte até hoje.

A primeira questão a ser respondida é: por que ele é tão importante?

Lautrec teve uma formação completa como desenhista e pintor, é notória a qualidade do trabalho dele nas pinturas mais “acabadas”.

Ele tem um desenho bem expressivo, com posições bem dinâmicas e com um grau razoável de estilização que dava muita vida aos rostos nas suas pinturas. Sua composição tem uma tridimensionalidade e uma profundidade impressionantes e sua temática retratava pessoas em poses “vivas”, ele buscava cenas cotidianas, seus quadros possuíam uma narrativa, contavam uma história em vez de apenas exibir um modelo posicionado por um pintor para ser retratado.

Além disso ele trabalhava com cores vibrantes e trouxe para a pintura, provavelmente por influência de ter conhecido Van Gogh, um trabalho curioso de hachuras coloridas para construir as áreas de sombras.

Outra influência na obra dele foram as gravuras japonesas do período Endo. Lá ele aprendeu a valorizar as linhas, os contornos, as cores chapadas, os espaços vazios diagonais.

Toulouse trouxe tudo isso para a suas pinturas e, de certa forma, no seu trabalho está parte das raízes da ilustração moderna.

Outra curiosidade ainda sobre as pinturas é que ele trabalhava com a tinta óleo de uma forma um pouco diferente que a muitos artistas dessa técnica. Ele dissolvia a tinta em terebentina e trabalhava ela mais transparente, sem brilho e sem impasto (camadas grossas de tinta para dar textura à pintura).

Assim, muitas das pinturas dele eram feitas em um papel cartão (muito semelhante ao papelão) e ele deixava muito do papel exposto na sua cor natural, como se partisse de uma tela matizada, ele usava essa cor ao seu favor.

É possível notar como ele trabalhava bem as figuras, as expressões e só delineava os fundos, deixando muito da cor natural do papel para compor a pintura. O resultado é bem curioso, porque, mesmo sendo óleo, parece um trabalho feito com canetões (que não existiam na época) ou mesmo giz pastel.

Esse trabalho com a tinta mais translúcida e com o fundo exposto também pode ser visto em algumas pinturas. Além de não trabalhar com camadas grossas de tinta, ele fazia a pintura preparatória (o underpaint) para colocar o desenho, trabalhava as áreas que interessava e compunha o resto de forma muito gráfica, sem a necessidade de cobrir essa cor de fundo, deixando essa pintura prévia respirar.

Agora, a principal contribuição dele para a história da arte e para a origem do design moderno foram suas litografias.

Um parêntesis aqui para esclarecer o que é litografia, segundo a wikipédia:

Litografia ou litogravura (do grego λιθογραφία, de λιθος-lithos, pedra e γραφειν-graféin grafia, escrita) é um tipo de gravura que envolve a criação de marcas (ou desenhos) sobre uma matriz (pedra calcária ou placa de metal) com um lápis gorduroso. A base dessa técnica é o princípio da repulsão entre água e óleo.[1] Ao contrário das outras técnicas da gravura, a Litografia é planográfica, ou seja, o desenho é feito através do acúmulo de gordura sobre a superfície da matriz, e não através de fendas e sulcos na matriz, como na xilogravura e na gravura em metal. Seu primeiro nome foi “poliautografia”, significando a produção de múltiplas cópias de manuscritos e desenhos originais.

Toulouse se interessou muito por esse processo gráfico e passou a produzir vários cartazes e peças publicitárias com grande refinamento usando essa técnica. Muitos consideram que ele foi o primeiro a elevar peças publicitárias para o status de arte.

Nas suas gravuras ficava claro o domínio que ele tinha do desenho, da composição. Ele trabalhava muitos elementos gráficos, criava planos, tipografias e cores chapadas muito expressivas.

Olhando os desenhos dele você pode ver um inclinação forte para as caricaturas, para o dinamismo, para o movimento e a narrativa. Ali você vê algo semelhante ao que se chama de linha clara, um dos estilos de desenho de quadrinhos europeus (um exemplo de linha clara seria o Tintin do Hergè) e pode-se inferir que os trabalhos de Toulouse reverberaram para todo o tipo de arte gráfica.

Lautrec sempre é lembrado como cronista da Paris dos bordéis do início do século XX, o que de fato ele foi, mas talvez não seja divulgado com tanta veemência o quanto ele foi influente para a construção do design gráfico moderno que se infiltrou em tudo na nossa vida (publicidade, ilustração, quadrinhos, fotografia, cinema, graffitte, gravuras etc).

Tudo que dá vida para um desenho está ali nos quadros dele. O desenho simples e dinâmico, que valoriza o movimento; a composição que conta uma história; os elementos gráficos, como as hachuras, que enriquecem e dão volume; as cores vibrantes.

Como todo artista, Henri de Toulouse-Lautrec é o produto de todo um conjunto de referências e influências, individualmente suas características podiam não ser inéditas, mas resultado conjunto, a aplicação que ele fez dessas influências, o diálogo que ele estabeleceu entre quadros e gravuras, entre o erudito e o popular é sensacional.

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Veja essa análise em vídeo

Esse retrato acima faz parte de uma série que foi encomendada pela a dona de um bordel, olha que coisa linda a posição que ele escolheu. O retrato tem praticamente 3 tons, 3 cores, 3 planos e, ainda assim, sem precisar de uma trabalho intenso de luz e sombra, apenas com uma escolha de design, ele criou volume, expressão e movimento.

(note como ele deixa o papelão exposto no vestido da mulher)

(não lembra os quadrinhos no estilo do Tintin?)

(esse quadro é gouche sobre papel, ele está na mostra do Masp e é impressionante a definição do rosto em relação com o despojamento com o restante da pintura.)

(olha que lindo esse desenho, totalmente caricaturizado)


Originally published at www.diletanteprofissional.com.br on July 5, 2017.

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