Tears in rain

A chuva da tarde lavava a vitrine da cafeteria enquanto as garçonetes vagavam por entre as mesas servindo aos poucos clientes. O movimento era sempre fraco naquela hora. Uma das moças veio até nossa mesa e ofereceu mais café. Na verdade não vi se foi isso mesmo, estava distraído olhando as gotas que escorriam pela vidraça.

- Você tá bem?
- Ahn?
- Perguntei se você tá legal… — repetiu a moça de olhos castanhos e cabelos cacheados.
- Ah sim…acho que to, não sei. To estranho.
- Tava pensando na visita de hoje cedo? Na lápide?
- Mais ou menos…na verdade tava olhando a chuva e lembrei da cena final de blade runner.
- Não lembro se vi. É bom?
- Pra falar a verdade eu não lembro muito do filme em si, só da cena final, que é um monólogo.
- Sobre o que?
- Basicamente o personagem do Rutger Hauer, que é um androide fala de tudo que ele já viu durante a existência dele. E que “todos esses momentos vão se perder no tempo, como lágrimas na chuva”.
- Caralho…é meio triste.
- Sim…
- E você acha que isso vai acontecer com ele ou com a gente? A gente vai se perder no tempo?
- Não sei…acho que sim. Não gosto de pensar em nada como eterno.
- Aham.
- Mas é uma boa frase, na verdade. “All those moments will be lost in time, like tears in rain…”.
- Verdade. Você queria colocar na lápide?
- Seria legal, mas ele não era fã de Blade Runner, acho que nunca assistiu, na verdade.
- Ah sim.

Outra garçonete parou na nossa mesa e ofereceu mais café. Enchemos nossas xícaras, ela deu um sorriso e saiu.

Tava lembrando de quando éramos mais novos. A gente foi naquele cemitério com um primo nosso.
- Nossa, funeral de algum parente?
- Não…só fomos olhar os túmulos. Tipo, alguns eram bem bonitos e tal.
- Ah, sim…
- Coincidências da vida…

A chuva continuava caindo, agora com menor intensidade.

- Vou vou ali no estacionamento fumar.
- Quer que vá com você?
- Não, tudo bem…acho que tá um pouco frio lá fora. Já volto.
- Tá bom…vou pedir um sanduíche, quer alguma coisa?
- Pede um pra mim também.
- Certo. Mas se quiser eu vou com você, não me importo com o vento.
- Sério, tá tudo bem…acho que só quero ficar um pouco sozinho.
- Tá bem.

No estacionamento o vento soprava estranhamente frio para o clima da cidade. Enquanto fumava e olhava a chuva sem enxergar realmente, me peguei pensando numas linhas que tinha escrito no dia em que você morreu. Pensei também sobre o fato de que você provavelmente nunca iria lê-las e que a gente provavelmente nunca iria conversar sobre isso.
Por um tempo isso me fez sentir mais triste e solitário do que o normal. Me fez pensar no quanto a existência é volátil.

Enquanto dava um último trago no cigarro e soprava a fumaça, ela veio caminhando entre os carros e me abraçou.

- Eu sei que você queria ficar um pouco sozinho, mas só queria dizer que você não tá só.

Eu não soube o que responder, só abracei de volta enquanto a chuva voltava a cair e me senti bem por ela estar ali.

Enquanto voltávamos pra cafeteria lembrei mais uma vez da frase que o Rutger Hauer fala em Blade Runner e entendi que realmente, todos os momentos, bons ou ruins, vão sumir de alguma forma no tempo…like tears in rain.

Pensar nisso não me deixa feliz, mas de alguma forma me dá algum conforto…

~por todas as conversas que nunca mais teremos~