Bisturi, Photoshop pra iPad e música em um precipitado inferno astral
Segunda-feira, novembro, um pouco mais de um mês para a virada do meu ano, do meu ciclo, esse ciclo que chamamos de aniversário e que vem sempre acompanhado de muitos questionamentos.

Hoje acordei assim, me sentindo vivo, querendo achar algo útil e importante pra fazer pelas pessoas, pelo mundo, talvez por ter assistido Grey’s Anatomy até as 5 horas da manhã. Parece que me bateu aquela vontade louca de ser cirurgião no Barra D’or e abrir pessoas e salvar corações, bombear pulmões e artérias, suturar feridas e dar pontos com linha de nylon. Que loucura! Quanta vida!
Me sentei na frente do computador abri o navegador e digitei, Feedly, e automaticamente já cai no meu resumo diário com as notícias dos meus meios de comunicação preferidos, separados por categoria: iPhone, Cinema, Fotografia, Tech, Nerd, Games e alguns outros perdidos como Fashion, Criatividade e Crypto Currency os quais eu nunca abro. Tem até um que eu nunca entendi o porque, chama “Gráfica” – sei lá quando eu categorizei algum site assim.
Me deparei com a primeira notícia que me chamou atenção na categoria Fotografia: "Adobe Photoshop finally makes it to the iPad". Gritei! Internamente, claro. Pensei, tá aqui o meu bisturi. Imaginei toda à habilidade com que eu editaria a pele e afinaria o rosto dos meus modelos, estava eu ali começando a minha tão aguardada residência médica em um vôo solo.
Antes que eu começasse a ler, alguma coisa mudou, como nuvens que cobrem um dia ensolarado, me bateu um desanimo, uma falta de vontade, parece que nem fazia mais sentido eu ter vibrado com um app que demorou mais de um ano pra ser lançado após ser anunciado.
Meu Deus! O que acontece? Há dois minutos eu estava querendo salvar vidas com o Photoshop, agora já quero me deitar no sofá abraçar uma almofada e me enfiar em uma das séries que faltam sei lá eu quantas temporadas pra acabar. Intuição, seria o meu inferno astral chegando?
Tem um peso nas minhas costas hoje que não estava aqui ontem. Esse peso de parecer que nunca suprimos as nossas próprias expectativas, que tem sempre um "Eu" insatisfeito dentro do peito ou da razão da consciência. Aquela coisa clichê que todo mundo tem e que insiste em negar, aquilo que chamamos de auto-crítica. Eu arrisco dizer que até o mais Leonino dos Leoninos tem – essa auto-flagelação dentro de si – e que diferente dos outros, eles tem a habilidade de ocultar para o resto do mundo.
O que você fez de novo? Mês passado? Nesse inverno? No primeiro trimestre do ano? O que não tinha no ano passado e que conquistou nesse ano? E o extrato da conta? Filhos? Previsões? E o ano novo? Projetos pro próximo ano? Planos de carreira?

Experimente fazer essas perguntas e gaguejar pra si mesmo ou tentar dar uma volta no teu próprio bom senso pra ver se o ombro direto não desce mais que o esquerdo, pra ver se a coluna não entorta e as juntas não começam a doer.
É assim que eu me senti hoje, quando desabrochei na frente do computador lendo a notícia do Photoshop pra iPad. Qual foi o gatilho que disparou?
Dei Alt + Tab e lá estava o Spotify, o qual seria a solução eminente, quando essa tal coisa bate a gente rebate com música. Normalmente coloco algo agudo, que me de socos de esperança. Comecei com Pérola Negra na voz de Gal Costa:
Tente passar pelo que estou passando, tente apagar este teu novo engano.. Tente usar a roupa que estou usando, tente esquecer em que ano estamos..
Que me fez perceber e realizar que todo mundo passa pela mesma agonia, entra ano, sai ano, já passavam décadas atrás, continuam passando e as próximas gerações também vão passar. Amém, me acalmou um pouco.
Percebo um surto do meu "Eu" desesperado com o tempo, que vem me confrontando, afinal estamos falando de um ano, um ano! Antes que Gal termine de cantar a última estrofe, já dou play na próxima:
Pra começar, cada coisa em seu lugar e nada como um dia após o outro. Pra que apressar, se nem sabe onde chegar, correr em vão se o caminho é longo. Quem se soltar da vida vai gostar e a vida vai gostar de volta em dobro. E se tropeçar do chão não vai passar, quem sete vezes cai levanta oito. (Tiago Iorc – Um dia após o outro)
— Vou me soltar, viver, caminhar na praia, mergulhar no mar, sentar na areia, melhor, vou rolar na areia..
Não, não vou, vou esperar até amanhã. Amanhã é terça e toda terça à tarde eu tenho um diálogo de 45 min com os meus “Eu’s”, acompanhados da minha terapeuta é claro. Nem sempre a gente se entende, mas eles estão sempre presente.
Até lá eu devo assistir pela 5º vez a palestra da Brené Brown no Netflix que fala sobre Vulnerabilidade e Coragem e se você for assistir também, cuidado na hora de levantar — quando acabar — pra não tropeçar nas fichas que vão cair enquanto você assiste.
Fiquei procurando uma conclusão adequada pra esse emaranhado todo, mas ainda não achei até porque tem inferno astral que dura meses, né? Bom eu vou chamar de inferno astral, já abri uma cerveja e acendi o tabaco, prefiro assim.
