A Sexualização de Lésbicas na Publicidade e no Cinema

É triste como encontramos facilmente material midiático que trata lésbicas ou mulheres bissexuais como objetos de sexualização masculina.
Eu sei que não são apenas as lésbicas que sofrem com a sexualização de gênero, mulheres como um todo sofrem. Porém, vamos focar apenas nesse grupo hoje que além de sofrer com a opressão de gênero, ainda sofrem com sua escolha sexual.
Discussões sobre sexualidade estão sempre presentes nos meus dias e acho necessário compartilhar aqui algumas das coisas que mais ouço no meio masculino quando o assunto é lésbicas.
Já aconteceu mais de uma vez. Estava inserido numa conversa machista, meio que deslocado porque sempre tento me deslocar propositalmente e o seguinte comentário surge:
“Eu sempre quis transar com uma lésbica”
E quando ouço isso, penso: Como assim, amigo? Se ela é lésbica, ela não transaria com você.
Pode parecer óbvio, mas como na maioria das vezes, a obviedade não é o suficiente para tratar sobre um assunto. É preciso entender os pilares por trás dos pensamentos que geram esse tipo de comentário por parte dos homens.
Um dos primeiros pontos a citar é que nenhum homem é vitima unicamente de uma mídia influenciadora e maléfica ao fazer esse tipo de comentário. São todos opressores com culpa no cartório. Eles só não sabem, na grande maioria das vezes, o que os levam a pensar assim.
Quando eu tento abordar esse assunto entre meus colegas não muito habituados a discutir esse tipo de coisa, não é muito difícil de ouvir aqueles que resistem e fazem algum comentário como os do tipo: Ah, essa mulher sai de vestido curto para atrair os homens. Ou seja, adaptando para o nosso tema em pauta aqui e usando a lógica falha desse tipo de pessoa, a mulher se relaciona com outra mulher para atrair homens.

Eu acredito que esse pensamento, entre outros motivos, se forme pela seguinte razão: Estamos acostumados a ver lésbicas e mulheres bissexuais sendo tratadas em filmes e peças publicitárias como sexualização masculina.

É bem possível que se você pesquisar por campanhas publicitárias machistas que você encontre essa campanha da KIA, figurada ao lado.
Veja como a própria campanha brinca com a frase “Uma temperatura diferente em cada lado”. Ao ler isso, não seria nem necessário explicar qualquer coisa, mas só para ajudar a construir o pensamento aqui, veja como é interessante que a própria peça trata a visão feminina com traços mais cômicos, com texto mais despretensioso e com a coloração mais fria. Mas então compare com os quadros da direita e perceba que são totalmente opostos.
Não preciso nem citar o forte apelo pedófilo da peça.

Acredite, essa campanha da KIA citada anteriormente ganhou até prêmio em Cannes. Felizmente, depois a empresa se pronunciou sobre e disse que não havia aprovado a peça e o prêmio foi retirado.
E não é de hoje que campanhas publicitárias parecem ter um affair inevitável com a sexualização feminina. Quando o público a ser atingido é o público masculino, na maioria das vezes, mulheres são usadas para atrai-los. E geralmente, para atrai-los, a publicidade se utiliza de posicionar a mulher sempre aos pés da figura masculina.

Ok, Che. Usando a sua lógica, se a mulher escondida no armário é amante da esposa desse cara aí, o que faz você pensar que a situação seria melhor para o marido? Afinal, a mulher ainda está traindo ele.
Por favor, parem.

No cinema a situação não é muito diferente e para falar sobre isso, eu quero colocar dois filmes em pauta aqui:
O primeiro deles é Bound (1996), um dos primeiros longas dos - na época - irmãos Wachowski e agora, Lana e Andy Wachowski. No filme, acompanhamos duas mulheres, sendo que uma delas é casada com um mafioso de Chicago. Eventualmente, as mulheres começam a se relacionar e planejam abandonar o mafioso.
O segundo filme a mencionar é La Vie D’Adele ou, no Brasil, Azul é a Cor Mais Quente. No filme, acompanhamos Adele na jornada de descoberta da sua vida adulta e da sua sexualidade.
Ambos os filmes falam de personagens lésbicas e ambos tratam elas de maneiras bem diferentes.
Uma das coisas que mais incomoda em Bound é como o filme trata rasamente o envolvimento das suas personagens. Elas parecem ser exploradas apenas para deleite visual e isso, visto por um homem, pode facilmente ser confundido com um soft porn durante o filme inteiro. Por vezes, as mulheres usam roupas curtas, lingeries e ficam se insinuando uma para a outra de forma forçada e desnecessária. Se alguém tivesse que passar esse filme pelo teste de Bechdel, essa pessoa teria problemas. Apesar das mulheres não ficarem falando apenas da figura masculina como centro de todos diálogos, elas não tem problemas reais ou questionamentos reais que qualquer pessoa normal teria. Então, nesse caso, o teste teria que se adaptar para a questão de que as protagonistas do filme só se envolvem por meio de um apelo sexual forçado e que não acrescenta em nada na construção da vida dessas personagens femininas.
É esse tipo de coisa que não pode acontecer. Usar personagens unicamente para sexualizar o gênero. Não envolver conflitos reais, problemas que um casal de lésbicas enfrentariam ou qualquer outra coisa que não unicamente o apelo visual e sexualizado da figura lésbica diante das câmeras.
É por esse tipo de coisa que eu defendo Azul É a Cor Mais Quente com os dois braços. O filme contém uma cena de pouco mais de sete minutos de sexo explicito entre as duas personagens principais. A cena gerou na época — e creio que gere até hoje quando o filme é mencionado —uma polêmica enorme. Existem pessoas que acham que a cena é desnecessária, existem pessoas que acham que o diretor fez aquilo para próprio deleite e existem pessoas que defendem que aquela cena, grande como é, aumenta imediatamente o grau de intimidade para com as protagonistas. E eu tendo mais para esse terceiro tipo de pessoa.
Nós não temos um filme que é apenas destacado por essa cena de sexo de sete minutos, nós temos um filme que trata a intimidade feminina de Adele em um nível que dificilmente você encontrará em outra película. Adele de repente descobre um mundo novo com Emma, um mundo azul, diferente, onde ela se sente aceita e amada. Assim como acompanhamos com delicadeza dois ou três momentos sexuais dela (Adele) com Emma, acompanhamos também a intimidade dela com os amigos, com o primeiro relacionamento, com a primeira grande perda, com a transição para vida adulta e até a intimidade com os pais na mesa de jantar.
Percebe a diferença na riqueza de elementos que compõe a trama de ambos os filmes? Azul É a Cor Mais Quente não é, diferentemente de Bound — colocado aqui como exemplo — , um filme para deleite visual e apreciação masculina. É um filme com uma personagem real e forte que dispõe muito mais elementos do que Bound, entupido de apelos sexuais.
Infelizmente, é difícil a sexualização da figura feminina deixar de ser realidade da noite pro dia. Porém, eu acredito que seria um ótimo primeiro passo se o cinema e a publicidade ao menos tomassem cuidado antes de publicar qualquer coisa do gênero. Assim, talvez não apenas homens, mas a sociedade como um todo deixaria de enxerga-las por óticas de apelos sexuais e outros tabus que a mídia diariamente ajuda a construir.