Por que eu tenho que terminar meus livros?

Lembro-me da primeira vez que a sensação de preenchimento e satisfação invadiu meu peito ao terminar um conto que na ocasião era O Tesouro Perdido, escrito para um trabalho de português ainda no ensino fundamental. E mal sabia eu que a partir daquele momento, essa seria a minha droga.

Fiction’s about what it is to be a fucking human being.
- David Foster Wallace

Só que essa droga não circula por aí e nem é fácil de encontrar. Essa droga é feita aos poucos e com muito suor porque quando é feita nas coxas não possui o mesmo efeito. E eu sei muito bem disso. Não é qualquer história mal contada que te dá satisfação. Não é qualquer trinta páginas que te deixa orgulhoso de si mesmo. Não é assim. Mas então eu entendo que também sou humano e que também tenho que sair do quarto e arrumar minha vida, ir trabalhar e me alimentar. Às vezes, isso ajuda, mas na maioria dos casos, agrava.

Por isso, desde que comecei a levar meus contos e romances a sério (e quando digo que estou levando a sério, digo que me dou ao trabalho de planejar a história, fazer mini-biografias de personagens e tomar conta de alguns detalhes que me ajudam a desenvolver a narrativa antes mesmo dela começar) eu sempre estou escrevendo cinco ou seis histórias diferentes. No momento, estou envolvido em cinco e essa é uma sensação maravilhosa.

Porém, mesmo que a sensação de plena e ininterrupta criação seja ótima, é muito fácil cair num limbo e não estragar todas de uma vez. Esse limbo pode ser formado ou representado por várias coisas, desde uma fase ruim na sua vida à confusão entre os universos dos vários projetos (histórias) em que você está trabalhando. E desde 2013 venho sofrendo com isso. Não consigo terminar muita coisa e entrei, então, em uma abstinência excruciante. Estou sofrendo desde então. Não consigo terminar muita coisa e devo admitir que estou no limbo que eu tanto temia e criticava.

Ouvi muitos “Transforme sua dor em inspiração”, mas isso é uma coisa muito fácil de se dizer para quem não está de fato criando algo. Às vezes, você simplesmente não quer emanar nos seus projetos toda aquela energia ruim que está tamborilando na sua vida. Você quer passar outra impressão, viver uma outra vida.

Sofri muito, joguei muita coisa fora e desisti várias vezes. Isso me deixava muito mal, passava dias trancado no quarto tentando não pensar mais nas histórias que deixei de lado. E quando você se encontra assim, não tem café que te ajude.

Hoje, finalmente por insistência (mas muita insistência mesmo) estou terminando A Tragédia Humana, uma coletânea de contos sobre como uma tragédia na vida de alguém desencadeia a tragédia da vida de outra pessoa. E estou tratando essa coletânea de contos interligados como o meu bebê. Quero mostrar para todo mundo, mas ficarei chateado se disserem que se parece com um joelho. Porém, o passo mais importante já aconteceu que foi simplesmente a chegada à etapa final: a revisão, onde reescrevo o que não gostei muito e corrijo outros erros.

Aprendi que antes de mais nada, a escrita se faz aos poucos, mesmo quando produzida rapidamente. Acontece uma gestação no caule da sua mente que uma hora sai. E para mim, a lição (mesmo que para muitos pareça óbvia) de que é aos poucos, página por página, frase por frase, letra por letra que se conta uma história é a coisa mais valiosa desse processo.

É um final feliz? Ainda não. Ainda não sai completamente do limbo. Ainda me pego lá às vezes. Mas já me sinto realizado de terminar, ao menos, esse post.