Você nunca vai terminar de escrever aquele livro

Descrição acessível: Foto tirada de uma vista superior. Vemos uma mesa coberta de livros, um notebook, um caderno aberto numa página quase toda preenchida por frases inelegíveis pela foto, um estojo de couro preto, uma caneca de café preto, um mouse também preto e ao fundo, uma fruteira coberta de frutas como banana e pessegos. Além disso, ainda é possível notar duas cadeiras no lado oposto da mesa e a parede de madeira branca completando a composição.

Não, eu não mexi nas suas coisas. Mas sim, eu sei que você tem aquele arquivo cheio de palavras e frustrações de uma história que parecia boa o suficiente para que você se sentisse bem o suficiente para dedicar mais de mil horas sentado a fim de escreve-la.

Então, me diga, o que aconteceu? A rotina aconteceu? Teve alguma ideia melhor, mas se sente culpado em abandonar algo já em desenvolvimento? Ou até mesmo, você não se importa mais com a história o bastante?

Por favor, faça um favor a si mesmo, se você respondeu sim às três últimas perguntas, exclua aquele arquivo do seu computador. Exclua-o e esvazie a lixeira. Depois pare, se espreguice e sente-se novamente para conversarmos — não é o fim do mundo.

Agora venha comigo porque eu vou compartilhar algumas coisas que fizeram minha escrita melhorar.

As melhores ideias vêm de recomeços.

Eu sou um escritor frustrado com grandes ideias. Grandes o suficiente para que eu me preocupe em nunca compartilha-las na internet ou até mesmo com alguns amigos. Mas a verdade é que o desapego me ajudou mais do que prender todos esses pensamentos, personagens e histórias na minha cabeça, nos meus apps de notas e no meu moleskine.

Nos últimos 53 dias, eu venho expondo diariamente aqui uma série de pensamentos que provavelmente eu nunca registrasse para que o mundo soubesse. Sempre fui reservado, contido e minha escrita sofreu com isso. Aconteceu que, ao escrever diariamente e ao me desprender de rótulos, pautas a serem abordas e falar o que realmente estava na minha mente, fez muito bem à elasticidade de pensamento ao escrever.

Não existe caminho fácil.

Se você veio pulando parágrafos até aqui, esse post provavelmente não te ajudará em nada. Afinal, se o motivo para ignorar paragrafos inteiros logo acima é preguiça, não há nada que te fará terminar um livro que não um milagre.

Eu não acredito em milagres assim.

Além disso, não acredito que haja, de qualquer forma, um caminho garantido para se escrever bem que não seja a pratica insistente aliada à absorção constante do mundo e das histórias além da tela do seu computador. Acredito também que não possa ser escrito com uma precisão segura um manual que se proponha a fazer do leitor um ótimo escritor. Talvez, e se contente com isso, a única coisa que te ajude são dicas de pessoas que passaram e passam por bloqueios diariamente.

Escreva mesmo quando não estiver com vontade. Não desista facilmente. Mas, se ao aplicar isso em daquelas suas histórias paradas isso não funcionar depois de algumas tentativas, parta para outra. Além disso, não considere seu trabalho indispensável porque, se ele for, as pessoas te dirão isso.

E leia. É um pré-requisito.

There is nothing to writing. All you do is sit down at a typewriter and bleed — Ernest Hemingway.

Primeiro vem a escrita, depois o aperfeiçoamento

Sempre me prendi muito a forma e a qualidade do meu texto. Nunca publicava algo que eu não me sentia seguro ao menos um pouco depois de terminar.

Com os posts diários que venho fazendo, isso mudou. Publico até o que não gostei, o que eu consideraria vergonhoso meses atrás.

Não se prenda em consertar o que já foi escrito. Algo que funciona bem para muitas pessoas é escrever sem rédeas e depois reescrever tudo, aperfeiçoando o texto onde necessário. Além disso, todo texto é como uma parede sendo pintada, se você pintar demais fica escuro e estranho, mas se pintar de menos, você não chega a alcançar a cor que realmente queria.

Sua escrita não é como a foto inicial desse post

Okay. Volte ao começo do post, olhe novamente para a foto que o encabeça e então desça novamente à esse ponto para continuar a leitura.

Feito? Ok.

Sua vida não é como aquela foto. Ou, pelo menos, não deveria ser necessariamente. A minha, por exemplo, se parece mais com isso aqui e isso aqui. A vida não é feita como filtros de imagens e composições ligeiramente preparadas para lindas fotos de blog.

Por muito tempo, eu me prendi à fantasias de que para escrever eu precisava de um ambiente certo, do feedback certo, da ferramenta certa. Mas isso é o que anos e anos de escrita no Tumblr (ou até mesmo aqui no Medium) fazem com você.

Um escritor não pode virar vítima desse pensamento romântico de que a escrita é feita entre epifanias e produzida em Starbucks ou equivalentes. Essa é uma visão que te prende na ideia de que a escrita tende mais para um ritual e menos para um trabalho duro.

A maior parte desse meu processo é feito antes mesmo da primeira palavra. Costumo dizer que meu lugar favorito para faze-la acontecer seja durante o banho ou nas andanças aleatórias por São Paulo. Porém, seja nos banhos ou nas caminhadas pelas ruas, qualquer que seja o lugar, eu sempre me pego delineando frases chaves, diálogos interessantes ou praticando a identificação de elementos que possam ser traduzidos em ficção ao chegar em casa.

Além disso, às vezes, eu chego a nem escrever as ideias que cozinhei o dia inteiro onde eu pretendia originalmente. Posso descarregar esses pensamentos todos em um post do Um Dia na Vida (onde escrevo diariamente sobre meu dia ou sobre algo que passou na minha mente durante aquela manhã ou tarde) ou até mesmo no Twitter.

Desse processo todo, o importante foi (e ainda é) compartilhar. As ideias só se tornam criação após expostas à outras ideias e ao confronto criativo. Depois disso, fica muito mais fácil identificar se tudo aquilo que estava na sua cabeça era algo para se trabalhar em cima. E se for, nunca é tarde para faze-lo.

Antes de mais nada, questione tudo o que eu falei

O que é de um escritor que não questiona o que lhe é dito? A desconfiança é produto de um interesse pela divagação, onde a mesma, a divagação, é produto do desejo de escrever.

Não se prenda à padrões, nem mesmo à esse que compartilho aqui. Esse processo de escrita funciona para mim, talvez não seja o ideal para você. Se descubra. Seja sincero consigo mesmo.

Afinal, saiba que eu nunca tirei mais de 800 numa redação do ENEM.

E para fechar…

Eu amo social media. A internet (e o Medium está incluido, claramente) é um ótimo lugar para compartilhar suas ideias e escritas. É aqui que seu público talvez esteja.

Apesar disso, aprendi que não é possível quantificar o sucesso facilmente, afinal, tenho menos de 60 seguidores, mas uma sensação reconfortante já me invade quando um deles me procura para comentar que gostou de algo que escrevi.

Percebi então que eu não quero escrever para atingir à todos, percebi que isso seja talvez até impossível. Percebi que quero escrever para atingir alguém e que esse alguém já é motivo suficiente para que eu continue.

Me contentei com poucos coraçõezinhos verdes porque, geralmente, quanto maior é seu público, menor é o número de engajamento.

O importante é sempre continuar escrevendo. Talvez não as mesmas coisas. Mas continue escrevendo.


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