Mentiram para você sobre o papel do professor…
Já ouviu aquela história de que, se importássemos uma criança do século passado e a trouxéssemos para este século, ela ficaria surpresa com tantas novidades, cores, sons e estímulos? Já parou para pensar que o único local onde esta criança se sentiria familiarizada seria na escola? Pois é… o nosso modelo escolar continua o mesmo há séculos, mesmo depois de tantas inovações e tecnologias.
Se você não sabe como este modelo surgiu, aqui vai um breve histórico. Para os gregos, o local que hoje conhecemos como escola — olha que irônico — representava um espaço para o ócio, e para este povo, a escola era um lugar de lazer e descontração, voltado única e exclusivamente para o prazer. Não havia esta formação que hoje conhecemos e a prática era de livre interesse do aluno, orientado para uma certa formação técnica.
No entanto, na idade média, com o surgimento do trabalho, das técnicas de produção e com a nova divisão social, escola passou a ser um local privilegiado, não mais um espaço para o ócio e sim local de debates, de “instrumentalização” do ensino.
Religião e política passam a ser os assuntos favoritos nos debates devido ao cenário no qual a escola estava inserida. O clero, representante da igreja, passou a ser o responsável pela formação dos habitantes da sociedade. Sendo assim, os frequentadores da escola passaram a ter acesso as melhores formações técnicas e logo a escola, espaço de lazer e descontração, passa a ser sinônimo de ascensão social, de status.
Já na era industrial, com o avanço da tecnologia, a escola começou a se organizar, sendo necessário uma formação “básica” dos proletários -trabalhadores da época: eles precisavam saber ler, escrever e contar. Surgem, então, as série, as avaliações padrões e a sistematização de alunos separados por idades. O aprendiz é, desde aquele cenário industrial até hoje, tratado como um “operário — padrão”, e o professor, como um fiscal, avaliador e transmissor de conhecimentos.
Este modelo obviamente servia bem aos propósitos da época, onde não havia acesso a informação, discussões e maneiras de expressar suas próprias ideias. Mas com o surgimento da tecnologia, das redes sociais e de um monte de outras ferramentas facilitadoras que nos conectam com o mundo em apenas um clique, este modelo de ensino precisa ser repensado.
Diferentemente do aluno-operário, os alunos de hoje precisam ser empoderados para o diálogo e participação. O professor deve estimular a evolução de seus aprendizes, a fim de torná-los capazes de fazer escolhas melhores. Nesta sociedade onde todos nós somos produtores e consumidores de informação e conhecimento, devemos libertar os alunos da dependência professor-escola e ensiná-los a serem mais produtivos e realizados.
Professor precisa tornar o aluno o protagonista de seu próprio aprendizado. Faz-se isso por meio da aprendizagem significativa, onde os alunos enxergam validade do conhecimento no seu próprio mundo, desenvolvem autonomia e capacidade de realização. Caso contrário, o aluno assume uma postura mecânica e meramente responsiva.
Assumindo o papel de facilitador, o professor mostra que não existe só uma maneira de aprender: aprendizagem é um processo contínuo. Com esta postura dentro e fora de sala de aula, o professor encoraja a auto disciplina e o senso de responsabilidade dos alunos.
É preciso que lazer e estudos estejam integrados para que a motivação do aluno em aprender continue elevada, assim como sua participação e interesse. Para tanto, o professor deve propor atividades personalizadas de acordo com cada estilo predominante de aprendizagem, com diferentes ritmos e graus de dificuldade, selecionando os recursos que mais se aproximam da melhor forma de aprender do aluno, sem nunca esquecer que alunos aprendem de formas diferentes, em ritmos diferentes e com base em seus conhecimentos prévios, habilidades e emoções.
Construir relacionamento com os alunos é importante, tanto para acompanhá-lo de perto quanto para criar um cenário de confiança, sobretudo nas atividades relacionadas a sua visão de futuro. Enquanto professores, devemos ensinar por meio de provocações, a fim de estimular a criticidade — não apenas mostrar estratégias diferentes para aprender e sim PROBLEMATIZAR a aprendizagem.
Com tantos canais de comunicação, formadores de opinião e influenciadores digitais, a comunicação na escola como um todo — e não somente na relação aluno-professor — deve ser aberta, bidirecional e não linear. É preciso causar emoção ao transmitir informação e delinear juntos (com todos os envolvidos) o processo de aprendizagem.
Ensinar requer diálogo.
O Brasil carece de professores com características de coach, capazes de dialogarem com seus alunos, fazerem avaliações diagnósticas e pensar atividades em diferentes níveis de proficiência.
A avaliação, neste cenário inovador de aprendizagem, precisa superar o binômio aprovação-reprovação. Elas devem ser usadas como ferramenta de orientação pedagógica e meio de desenvolver a aprendizagem. Desta forma, incentivamos a aprendizagem colaborativa e não a competição por notas.
Por fim, os papeis da escola, do professor e do aluno precisam ser repensados.
A escola precisa ser pluralista, com visões de viver diferentes e possibilidades de realização pessoal e profissional diversificadas. Ela ainda é a chave indispensável na descoberta de mundo do aluno, na construção de sua identidade e no reforço de seu papel na sociedade.
O professor, por sua vez, deve ser enxergado e valorizado como um profissional competente, investigador, cidadão, crítico, autônomo e criativo. Para tanto, precisa criar estímulos externos para aprendizagem, contextualizando problemas reais com criatividade.
Já o aluno precisa abandonar sua passividade e compreender que seu papel é ser co-autor, com mais autonomia, diminuindo seu vínculo (de ensino- aprendizagem) com escola e professor.
Juntos, a sociedade, a escola, professores e alunos são fundamentais para abrir acessos plurais a um universo pluricultural e devem levantar juntos a bandeira da personalização, não da massificação.
