Igor A. Oliveira
Jul 25, 2017 · 11 min read

CAPÍTULO 1

Um dia a mais, um dia a menos.

Eu voltava do trabalho, que é a minha única ocupação — trabalho em um escritório. Deparo-me com pessoas andando para lá e para cá, mas delas nada ganho a não ser olhares despreocupados — só mais um na multidão.

O céu, que já não estava lá essas coisas, se fecha mais um pouco deixando tudo numa escuridão peculiar para o horário, 15h26min. Aperto o passo para fugir da chuva e consigo chegar em casa a tempo. Quando coloco os pés na entrada do meu prédio a chuva desaba numa torrente sem precedentes, nisso Chico, o porteiro, me cumprimenta:

- É “seo” Ian, a chuva quase pega o senhor!

- Pois é Chico, por um triz eu não tomo um banho.

Logo após minha primeira conversa decente do dia, já no dito apartamento, vou tomar um banho que a chuva não teve a sorte de me dar e comer alguma coisa.

Tomo um banho rápido e quente e pego um pouco de cereal matinal velho sem açúcar no armário, sento-me na poltrona da sala — O “apartamento” é bem simples, com dois cômodos apenas: uma sala/cozinha e um quarto com banheiro — e fico a olhar a chuva cair pensando em ratos afogados e baratas saindo pelos ralos e assustando madames refinadas.

Aproximadamente umas 3 horas depois, acordo meio grogue com meu gato derrubando um copo esquecido na bancada da cozinha.

- Porra Milo, cale a boca, estou tentando dormir!

- Miaauu? — Ele me responde.

Levanto da poltrona, com a cara amassada, e me dirijo à cozinha para limpar os cacos do copo que Milo derrubou e guardar o pote em que eu estava comendo o cereal. Dou um pulo no meu quarto, lavo o rosto, troco de roupa e decido dar uma volta (a chuva já passou) na cidade, já que não tenho absolutamente nada para fazer esse fim de semana a não ser beber e talvez pagar para alguma mulher passar a noite comigo.

O elevador desce, saio meio apressado já pensando aonde ir quando me deparo com o porteiro com a cabeça baixa, parecendo que dormia.

“Seu turno não acaba às 17h, Chico?”

“Êhn? Oi? Ah, oi sêo Ian. Então rapaz, acaba sim, mas se o Cláudio não estiver aqui nesse horário, eu não posso deixar a portaria sozinha. Mas, já que sou eu que estou aqui, me deixa abrir o portão pra você.”

O portão abre, eu paro um táxi e peço que o motorista me indique um bom bar.

“Olha amigo, o Rogério, um amigo meu, comanda um boteco perto da avenida central que é bem bacana, às vezes rola um som legal e o preço é bom.”

“É, acho que serve.”

A viagem dura mais ou menos uns 15 minutos, tempo suficiente para ter um pequeno devaneio.

O boteco que o taxista me tinha dito era no mínimo respeitoso: O interior era de madeira, com um longo balcão no lado esquerdo, algumas mesinhas no direito, um palco pequenino no fundo e banheiros ao lado do mesmo. Sentei-me em um dos bancos do balcão e pedi um Uísque com dois cubos de gelo para começar, e a garçonete, que disse se chamar Anne foi bem educada, mas nada além do necessário.

Bebi meu uísque, e perguntei se tinha algo para comer por ali, o que me rendeu uma porção de fritas. Uma banda composta de quatro rapazes magricelas aparece e se apresentam com um nome em inglês parecido com Led Zeppelin, e dizem serem cover dos mesmos.

Começam tocando Black Dog, e sem dúvida parecem ser muito bons no que fazem. Me aproximo um pouco mais do palco para poder curtir um pouco mais o som velho, mas que nunca morreu de verdade. Ainda com a minha batata e agora uma cerveja eu continuo assistindo ao show, que se segue com Four Sticks, Moby Dick, Houses of the Holy, Dazed and Confused e termina com a clássica Starway to Heaven.

Depois do show, os rapazes descem do palco e vem até o balcão também. Ouço-os dizerem que até que não estão tão mal assim, já que a platéia desta vez consiste de mais de dois bêbados e uma prostituta velha. Meio que me intrometendo, eu lhes digo que gostei muito do som, e que a performance dos rapazes foi muito boa, mas ainda tem muito o que aprender. Eles simplesmente me olham de volta e fingem que não ouviram. Bem, eu tentei dar uma crítica construtiva, mas fazer o quê.

Depois de pagar a conta, decido continuar a minha volta pela cidade, dessa vez vou à casa de uma velha amiga, Helena.

A Helena é realmente uma velha amiga, conheço-a já fazem muitos anos, e ela já deve estar com os seus 50, eu acho. Helena gosta de gatos e tem sete em sua casa, o que deixa os vizinhos relativamente nervosos. Aliás, o Milo é filhote de um dos gatos dela, a Inga — Ela tem um gosto curioso por nomes, perceba.

São 20h15m aproximadamente já que o meu relógio, como todos os relógios que eu já tive, parou de funcionar subitamente por algum motivo muito obscuro, do qual duvido algum dia descobrir qual é. Bato a porta de Helena, e depois de alguns minutos sou recebido por uma senhora muito bonita e de aspecto jovial.

- Ian! Há quanto tempo não o vejo, menino!

- Oi Helena. Eu estou dando uma volta por aí, como de costume. Espero não ter vindo numa hora ruim.

- Imagine. Vamos, entre logo, farei um café pra você.

A casa de Helena é bonita, com um papel de parede liso, carpete espesso, móveis estilo colonial, uma lareira e um corredor que parece dar no outro lado do mundo, mas que na verdade só dá acesso aos quartos e banheiros.

Depois que Helena volta com o café, eu lhe digo por que fui até lá, em primeiro plano, mas antes que eu conte isso a você, teremos que fazer uma pequena viagem no tempo, há mais ou menos três anos atrás.

CAPÍTULO 2

Há três anos, num fatídico domingo, ocorreu algo estatisticamente incomum.

Eu fui atingido por um raio. É, um raio. Daqueles que são quentes e adoram queimar seus aparelhos domésticos.

A única diferença no meu caso é que ao invés de me queimar inteiro, o raio acabou por mudar o funcionamento do meu cérebro. Os médicos dizem que eu sou capaz de aumentar exponencialmente a minha capacidade cognitiva por curtos períodos de tempo, o que em termos simples significa que eu tenho uns picos de atividade cerebral, me deixando mais esperto com as coisas que me acontecem. Por alguns momentos, tenho reflexos mais rápidos, consigo fazer contas absurdamente grandes quase sem nenhum esforço entre outras coisas — não dá pra tentar virar super-herói, já que eu não escalo paredes nem tenho visão de raio laser (ainda). E é aí que a Helena entra na história.

Um dia desses, depois do trabalho, resolvi passear pelo parque perto do escritório, já que eu não estava muito afim de ir direto pra casa e sabia que o Milo ainda tinha bastante ração e água. A cidade onde moro tem um clima muito bizarro, parecendo as monções de Londres, mas são mais imprevisíveis ainda do que as primas europeias. Nessa data em específico, fazia um belo dia ensolarado, com várias nuvens no céu. O parque não estava lotado — dada a hora, claro — mas pude contemplar alguns casais adolescentes paquerando, outros em contato um pouco mais próximo nos cantos mais escuros e alguns pais com seus filhos.

Depois de olhar uma mulher bonita que passou por mim correndo, usando calça preta e blusinha rosa, resolvi parar ao lado de uma árvore e comprar um picolé do vendedor que por lá estava. Em questão de minutos após eu me recostar à sombra, o tempo começou a fechar muito rápido, coisa até que comum na cidade. Você até pode se perguntar se, por saber da imprevisibilidade do clima, eu não deveria andar com um guarda-chuva por aí. Bem, só posso dizer que eles invariavelmente quebram no meio das tempestades, então prefiro encarar a natureza de igual pra igual desde as primeiras gotinhas.

A mulher corredora de rosa, ao longe, abria a porta do carona de seu carro, uma baita de uma SUV, e ali colocava seus fones de ouvido e celular quando o primeiro trovão caiu. Se Thor ficasse enfezado e resolvesse sair brandindo o martelo Mjölnir pra cima de Hefesto numa batalha inter-panteática, podemos imaginar que faria um som próximo àquele do trovão. A moça de rosa ao ouvi-lo se apressou ainda mais enquanto eu observava se teria tempo de achar algum lugar coberto que não as próprias árvores. Pois bem que, enquanto eu saía de mansinho, vi um clarão imenso e apaguei.

Acordei não sei quanto tempo depois numa cama de hospital, com uma enfermeira feia que teimava em me colocar uma máscara de oxigênio enquanto eu — inconsciente do ato — dizia que aquilo era desnecessário pois já conseguia respirar sozinho. “Sozinho”, já que eu tinha um daqueles respiradores que colocam bem na entrada das narinas, deixando a respiração mais automática ainda.

Ontem eu tô?”

“Oi moço, calma que eu chamo o médico. Ô DOUTOR, O RAPAZ ACORDOU!”

Nota: a enfermeira era muito feia. Tão feia que o médico em si parecia relutar em olhar para ela por muito tempo.

“Ora, ora, e não é que o senhor acordou mesmo?” — disse o médico.

“Eehnn, minha cabeça dói!”

“Acalme-se, Ian. Esse é seu nome, né? deu sorte, rapaz. Nunca soube que não é esperto se esconder embaixo de árvores enquanto chove?”

Assim que eu ouvi a palavra esperto, eu apaguei de novo. Acordei dali um dia, com uma dor de cabeça maior que a anterior, o que quase me fez desmaiar mais uma vez. Nesse dia, ao invés da Enfermeira Feia, uma mulher bonita, muito familiar estava ali do lado observando o prontuário. Devo ter feito algum barulho, pois ela olhou pra mim e sorriu.

“Bom dia, flor do dia. Resolveu parar de babar e acordar pra vida?”

“…minha cabeça…fala baixo…por favor…”

“Ouch, desculpe. Como você se sente?”

“Como se fosse uma torradeira…ai…que sofreu um curto circuito”

“Não é de se espantar, aconteceram algumas coisas…”

Nisso a mulher, que eu descobri se chamar Helena, chamou o médico, quem me deu alguns analgésicos que diminuíram um pouco a dor de cabeça e ambos me contaram o que aconteceu e como fui parar ali. Helena era a mulher bonita que estava correndo. Logo após eu levar um raio, por conta do clarão e do som, ela me viu e me levou para um hospital. Ela disse que ao invés de desmaiar totalmente, eu fiquei alucinando por alguns momentos, dizendo coisas sem sentido — ao menos é o que ela diz. Os médicos tentaram explicar o que havia acontecido comigo, mas não tinham certeza absoluta do que exatamente o raio havia me causado. Sofri queimaduras na cabeça e dores de cabeça reincidentes, mas o cabelo voltou a crescer normalmente e as dores ficaram menos frequentes, mas nunca pararam de todo.

Após um ano do incidente, eu já havia me tornado amigo da Helena. Em parte por ela ter me salvado no parque e em outra porque ela era uma pessoa absolutamente adorável. Helena era de personalidade forte. Não era brava nem se impunha muito, mas sempre deixava claro o que queria e mesmo assim era um doce de pessoa. Ouso dizer que jamais conheci alguém que mantivesse uma presença tão gostosa ou tivesse uma conversa tão criativa e inteligente. Helena descobriu junto comigo que havia mais por trás das dores de cabeça. Após alguns check-ups semestrais, nós descobrimos que havia uma massa em meu cérebro. Um tipo de tumor, que havia se desenvolvido após o raio. Ao mesmo tempo que o tumor se desenvolvia, eu comecei a perceber certos lapsos de memória ou avanços de tempo muito estranhos. Nesses lapsos, eu terminava trabalhos de forma impressionantemente rápida ou mesmo efetuava contas do escritório em quantidades que levariam dias para serem terminadas. Normalmente, com os blackouts, vinham dores de cabeça aterradoras que me faziam encolher no chão de dor.

Quando Helena ficou sabendo disso, disse que talvez pudesse ajudar. Ela me contou que na sua família corria uma certa condição física. Após uma vida sem doença alguma, os integrantes desenvolviam um tumor no cérebro, assim como o meu, e morriam dali no máximo 25 anos em decorrência do mesmo. Helena me explicou que as mortes não ocorriam há anos, por conta de algo que sua tataravó descobriu.

Helena era descendente de índios, seus tataravós eram índios e a família havia preservado muitos dos costumes e maldições. A mácula os perseguia há incontáveis anos, mesmo antes da colonização estrangeira, por conta disso, algum de seus antepassados desenvolveu uma bebida, feita com raízes e plantas dificílimas de serem encontradas por aqueles que não soubessem o local exato para procurar ou o tipo certo para colher. A receita era passada de mãe para filha, geração para geração, até chegar na mãe de Helena. A mãe, ___________, passou a vida esperando pelo desenvolvimento do tumor — que não poderia ser impedido de se desenvolver mesmo com o uso preventivo da bebida — mas este nunca veio. Após incontáveis anos se mantendo com o inimigo interno, uma das mulheres não o desenvolveu. Ao contrário do que se esperava, isso fez que com que a mãe de Helena se tornasse uma pessoa ranzinza, impaciente, arrogante, completo oposto de sua filha, que curiosamente também desenvolveu o tumor. Por conta disso, __________ se afastou de Helena, de seu marido e do resto da família, se sentindo superior àqueles que a acolheram a vida toda.

Helena, ao contrário de sua mãe, buscou com sua avó a receita da bebida — muito parecida com chá, com um forte gosto de terra e folhas verdes, mas mesmo assim um pouco doce — e a passou a mim, após o incidente. O chá em si não alterava o tumor, mas impedia a metástase, coisa que nem mesmo os melhores tratamentos médicos existentes conseguiam.

Essa “cura para o câncer” deveria ser dividida com o mundo, você pode pensar. Eu mesmo pensei a mesma coisa. O único porém é que nem todo mundo pode ser tratado. Helena me contou que antigamente, quando os índios partilhavam seus conhecimentos com o homem branco, as pajelanças todas eram divididas entre caras-pálidas e os filhos da terra, mas desde aquele tempo, algumas eram mantidas em segredo. O chá, em determinado momento da história, matou uma série de europeus que o descobriram após chantagear uma das mulheres da família. Enquanto causa o retardamento do tumor e prolonga a vida de algumas poucas pessoas, se ingerida, a bebida ancestral causa a demência e a destruição do corpo daqueles que o quiserem tomar à força ou sem o conhecimento adequado do chá. A família de Helena é muito antiga e por mais que seja descendente de indígenas, prosperaram com o tempo e sempre foi muito rica. Não rica como as famílias de cidades interioranas que comandam suas usinas de açúcar ou empresas de renome regional, mas ricas ao ponto de nem sequer serem visíveis aos olhos de revistas especializadas em mostrar quem dos figurões atuais está namorando quem. É uma das vantagens de se ter dinheiro suficiente, pelas palavras de Helena. Com isso, sempre conseguiram buscar o que fosse necessário para manter seu próprio elixir da vida sempre presente.

CAPÍTULO 3

Eu calhei de ir no dia certo levar um raio na testa, o mesmo em que ela dava uma volta pelo parque. Me salvou aquele dia e com o passar do tempo, por estarmos ambos sozinhos no planeta, acabou se tornando minha amiga. Com isso, fui apresentado à bebida, mesmo sabendo do risco de acabar pior do que eu já me encontrava.

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    eu leio e às vezes escrevo também