Eldritch

Uma avenida tranquila e vazia. O silêncio espreita por detrás das folhas marrons que se agitam sob o vento do fim de outono. Um menino caminha distraído. O menino passa pela avenida quase que diariamente, já tendo decorado as rachaduras do asfalto e o nome dos poucos cachorros da vizinhança. Ele sabe de cor quantas árvores existem no trecho por onde passa e qual a cor de cada casa.
 Hoje, porém, a forma e as cores de três das casas do caminho são aterradoramente erradas.

Totalmente destoantes do resto dos prédios, com cores que não são certas (seguras) e não encaixam exatamente dentro do espectro visto pelo menino. Com uma geometria que desafia os olhos ao exercer o que parece impossível, ângulos que não deveriam ser e curvas que não saem de lugar algum e chegam a todo canto, o menino de olhos arregalados finge não perceber que elas estão ali. Os vizinhos não notam a presença alienígena destas construções nem mesmo a falta dos moradores dos prédios anteriores. Nem mesmo as plantas são mais as mesmas. Agora com uma cor doente e brotos que parecem casulos negros, transparentes e contendo alguma coisa que o garoto não faz questão alguma de descobrir o que é, as flores murcharam e o jardim morreu, a terra tomada por um tom de cinza arroxeado. A árvore ressecada mas impossivelmente viva. Ele aperta o passo e se lembra de quando isso começou.

As três construções tinham duas cores, duas delas eram rosa e uma era laranja, tons pastéis de aparência inofensiva. A primeira vez que notou uma diferença em uma das casas, a que era laranja, foi quando ela havia mudado de cor, um tom mais escuro e certamente infeliz. “Isso é o que eu chamo de mau gosto”, pensou o menino.

Conforme os dias foram passando, ele se acostumou com a casa de aura infeliz até que outras duas também adquiriram tons mais escuros de suas respectivas cores. De um rosa calmo e relaxante, passaram para a cor escura de rosas mortas “O mau gosto aqui é contagiante”, pensou em determinado momento. Passado mais algum tempo, quanto exatamente ele não se lembra, a própria arquitetura havia mudado. Algo curioso em como as pilastras localizadas na entrada da casa laranja infeliz se erguiam, pareciam não seguir uma linha reta ao mesmo tempo em que era óbvio que eram apenas pilastras. Além da casa laranja infeliz, as outras duas também começaram a demonstrar pequenas mudanças em suas janelas, que pareciam se retorcer se vistas de canto de olho. O menino pensou em simplesmente mudar de rota para não precisar contemplar o péssimo gosto de outrem, mas seu transporte o deixava ali e qualquer outro ponto seria longe demais para ele. Não olharia pro lado, talvez?

Certo dia, ao passar pela avenida, percebeu que a varanda superior da casa laranja estava escura. Era esperado, já que o garoto só passava por ali ao anoitecer, próximo ao crepúsculo, mas a escuridão que vinha da varanda não era natural. Não apenas uma sombra, mas como se um abismo infinito e desconhecido estivesse ali, a menos de dez metros do menino. Só o ato de olhar para a escuridão absurda o fazia sentir calafrios. Perguntou a uma senhora que passava por ele se percebia algo de estranho, tudo que recebeu foi um olhar profundo e acusador, como se estivesse cometendo uma heresia ao questionar o status quo óbvio do prédio. A senhora, agora distante, havia apertado o passo após a pergunta.

Após um dia cansativo, o garoto retomou seu caminho novamente, imaginando o que seria obrigado a testemunhar. As casas previamente rosas, com grandes plantas suculentas e de aparência doente e insana, anteriormente haviam desenvolvido gordos frutos, também parecidos com os casulos da casa laranja, que agora apresentavam-se vazios e secos, como se o que ali havia estado tivesse saído há certo tempo. A terra do canteiro sob a planta estava revirada e cinza, resultante da saída do conteúdo desconhecido. Adiante, a casa laranja agora se encontrava tomada por febris veias vermelhas, como raios venenosos que serpenteavam por suas paredes. As pilastras, substituídas por algo semelhante a tentáculos de rocha negra, pareciam pulsar com o vento. Este mesmo vento fez as casas chorarem tenebrosamente, ao que o menino correu aterrorizado.

Depois de muito discutir com colegas e parentes, ele não mais podia suportar a ideia de ter que passar por ali. Seus pais diziam que eram apenas desculpas para não comparecer aos compromissos, os amigos diziam que ele queria atenção ou que era mentiroso. O garoto estava impotente frente a terrível condição que As Casas Escuras impunham sobre ele. Desta vez, ao seguir seu calvário, o menino percebe que o vento carrega um som inumano, ancestral e horripilante. Parece que algo o persegue enquanto atravessa a frente das casas. As três estão de portas e janelas abertas, de dentro delas, um cântico que quase deixa o menino catatônico. As vozes são aparentemente humanas, mas o horror e a dor presentes em notas tão frias não podem vir de gargantas que tenham algum dia andado sob este nosso sol. O menino agora corre desesperado, gritando por ajuda nas casas vizinhas. Ele vê que algumas delas tem luz, vê sombras de pessoas em frente às janelas mas ninguém se mexe, ninguém faz nada. O som do vento se mistura ao cantar ensandecido e morre num grand-finale de um silêncio absoluto. As Casas agora estão fechadas, nenhum movimento na avenida. Não há menino e não há expectadores nas janelas. Tal como a morte que vem imperceptível, novos frutos parecem crescer lentamente nos jardins cinzentos.

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