Shiva
Jul 25, 2017 · 4 min read
Por anos estivemos juntos. Éramos ambos pessoas muito agradáveis, ainda mais um com o outro, mas de um lado tínhamos o meu temperamento explosivo como um vulcão e do outro havia a paciência curta e de uma atitude retalhadora com Ela. Ainda sim, vivíamos em harmonia, mesmo a palavra nunca ter aparecido em nossos lábios na época.
Eu a conheci, ou melhor, nós nos conhecemos numa festa de um amigo dos dois, ela com uma cerveja na mão e eu com um copo de refrigerante. Eu havia perdido de vista o colega com quem eu fora à festa e a avistei. A curva do pescoço exposto, rodeado por um cordão negro e fino e os caracóis do seu cabelo eram uma visão almejada pelos deuses (perdão por ser tão piegas). Não houve escolha na minha mente a não ser descobrir de onde havia vindo tal criatura. Ao me aproximar, percebi que Ela discutia com uma amiga o sentido de se ler Stephen King sendo que o final sempre seria idiota e sua amiga rebatia usando do velho argumento da “jornada ser mais importante que o destino”. Me intrometi discretamente na conversa lembrando que mesmo que Celular tenha tido um final péssimo, Duma Key até que acabava bem. A amiga, amante ferrenha do escritor concordou comigo na parte de Duma Key, mas discordou quanto ao outro livro, no que a dona dos caracóis reafirmou que Celular acabou quando Alice morreu. Opa, acho que contei uma parte importante. Após a conversa entre nós três, a amiga disse que iria buscar uma bebida então ficamos apenas nós dois conversando. Ela, me acusando de ser juvenil por não estar bebendo uma cerveja e eu justificando ao dizer que estava de carro, conversamos a noite toda que terminou comigo levando-a para sua casa sob uma chuva fina e tendo um beijo roubado na porta de sua casa. Foi a partir desse dia em que mesmo sem saber nos tornaríamos dois de um inteiro, inseparáveis.
Após alguns anos, inúmeros momentos inesquecíveis, alguns conflitos idiotas e montes de piadas internas, os dois se tornaram três. Normalmente, isso seria uma ótima notícia. Não era nosso caso. Uma dor constante em seu quadril acabou se mostrando um tumor ósseo, aparentemente controlável com algumas sessões de radioterapia. Os médicos acharam até que seria operável. Não foi o que aconteceu. Seu humor, por conta da dor constante e do tratamento que se tornara agressivo, era inconstante e imprevisível. Nossa rotina se alterou bruscamente, mas ainda éramos parte de um único ser. Eu ainda te amava, é claro. Conforme o tempo passou, ela teve de ser internada.
Um tempo quase que infinito havia se passado, e eu ali, ao lado, sentado numa cadeira disforme e torta. Você, com os pés erguidos, a cama desarrumada, eu ainda não podia aceitar que a cama era pra você ou que não mais te veria correndo para os meus braços. Quebrada por dentro, tesouras inexistentes construídas por você rasgavam tecidos que morriam aos poucos. Você nem gritava mais. Os analgésicos potentes quase davam à sensação de morrer o mais breve sentimento de sobrevivência.
Eu, mais destroçado do que jamais imaginei que poderia, me excusei da sala por um momento. O médico já havia dito, não havia como salvá-la, os sinos iriam dobrar e essa coisa haveria de te matar. Eu poderia simplesmente correr, largar a minha parte daquele par de anéis, trocados às pressas há algumas semanas. Apenas correr e não voltar mais, não mais ouvir seus pesadelos de como seu pai era um imbecil e de como sua família te estragou. Um monte de engrenagens enfiadas na sua cabeça e eles só as faziam girar. Eu até poderia, mas ainda éramos duas partes de um só ser.
Você não mais podendo gritar ou chorar enquanto seu fêmur se quebrava em pedaços, começou a gargalhar de um modo insano mas ao mesmo tempo aliviado. Então veio o silêncio e um apito contínuo ao fundo. Um apito que eu conhecia mas nunca estive pronto pra ouvir. Havia prometido a mim mesmo queria ouví-lo mais a não ser que fosse o meu próprio. Voltei à sala e vi seu rosto, transfigurado pela dor dos últimos dias, derrubar uma lágrima de desesperado alívio.
E agora? Quem sou eu? O que eu faço? Como continúo sabendo que deveria eu também estar naquela cama abominável ao invés de ser um mero espectador inútil esperando um final trágico?
Arranquei a pulseira velha do pulso esquerdo e vi sua pele sensibilizada pelo aperto. Ela nunca reclamou disso, mesmo eu tendo perguntado várias vezes.
Retirei seu anel e o guardei comigo.
As duas partes de um haviam se perdido, uma rasgada e a outra deixada para trás.
Com os olhos embaçados, sem ver por onde ia, saí e fui pedir um café.