Garganta do Diabo
Tem vezes que o silêncio fere meus ouvidos. Me parece que meus tímpanos vão estourar com o nada que os impede de trepidar.
Nesse momento, busco o barulho, qualquer que seja. Que acabe com o nada que há dentro e fora de mim. Qualquer barulho, o zumbido de uma abelha ou a explosão de um fogo de artifício. Qualquer coisa que acabe com o comodismo do não barulho.
E quando encontro barulho que faça vibrar o ar que respiro, por dentro, ainda tudo imóvel. Não importa se é grave ou agudo. Barulho surdo, cinza ou estridente. Por dentro, a mesma calma. A inércia inatingível, o silêncio arrebatador.
Só então grito. Um grito tão alto que não se ouve. Um grito tão forte que me despedaça por inteira. E, por entre as rachaduras, escapo. Escapo inteira. Saio ilesa.
Meu grito me acorrenta e me liberta. Chama a atenção pro que não existe. Destrói o silêncio repugnante e a calma puritana.
Tem que vir é de dentro! Por que só onde o inferno é calmaria é que se encontra a força pra quebrar o silêncio dos demônios.
