Da arte de ajudar não atrapalhando

A internet é um negócio muito legal. Sério, eu acho incrível a capacidade de se comunicar instantaneamente com pessoas que residem a milhares de quilômetros de distância que só a internet pode propiciar. Com essa velocidade nas relações a possibilidades de que coisas boas aconteçam é IMENSA. Só que como tudo na vida, ao surgir a oportunidade para uma coisa boa, a possibilidade é a mesma pra algo ruim, o que vale pra internet e pras pessoas que “vivem” nela. Tem muita gente escrota por aí. Muita mesmo.

Mas pior que gente escrota é gente escrota indiferente ao sofrimento alheio. Gente que, ao ver alguém falando sobre como o mundo devia ser menos destruidor pra tantas pessoas enquanto carrega algumas poucas nos braços, acha que isso tá ok , como se fosse apenas “mimimi”, uma bobagem querer uma sociedade mais igual pra todos — e tome meritocracia na cabeça. O que nos leva ao ~maravilhoso~ termo SJW, sigla para Social Justice Warriors. Uma expressão de escárnio contra pessoas que acham errado que ainda exista preconceito. Uma piada pra quem se indigna com racismo. Uma ironia internética direcionada àqueles que acham legal que o feminismo esteja mais forte hoje em dia e crescendo ainda mais. Ainda que o termo às vezes se mostre apenas contra pessoas que, supostamente, estariam pegando carona em gente preocupada de “verdade”, é válido o direito de dar um apelido tão pejorativo? Até que ponto alguém pode reclamar de injustiça social? Se eu não servir sopão no albergue ou atuar numa ONG tenho mais é que ficar quieto? Acho que não é por aí.

“Mas qual o problema em ser indiferente ao problema dos outros? Eu tenho MESMO que ficar me preocupando com todo mundo sendo que tô cheio de problemas meus pra resolver? Não deveria cada um cuidar da sua vida?”. Então, amiguinho, é óbvio que você não precisa ficar chorando porque há pessoas passando fome por aí. Claro que você pode dormir com a cabeça em paz sabendo que há zonas de guerra em alguns países. O que não pode é ridicularizar a galera que sente vontade de fazer algo além de lamentar.

Ao reduzir uma pessoa ou grupo que tenta trazer uma discussão pertinente sobre minoria, representatividade, gênero, etnias, e etc. você trata todo o assunto como se fosse sem importância. É como se cada aprendizado e desconstrução para entender um determinado tema e buscar ser uma pessoa melhor pra que a sociedade seja melhor fosse algo sem valor. Imagina só se, após você levar dois anos de estudo pra concluir um curso, alguém viesse e desacreditasse todo o tempo e esforço que você dedicou pra isso.

O que leva a outra questão, a opção de escolher entre: a) uma sociedade onde há preconceito e desigualdade a dar com pau e pra resolver isso só na base da lei (e mesmo assim só com muita pressão); b) uma sociedade onde ainda existam problemas, mas as relações pessoais não são mais sustentadas mediante a superioridade de um indivíduo sobre o outro. Muito difícil escolher entre essas opções? Se acha que sim, é provável que o primeiro exemplo lhe beneficie de alguma forma, nem que seja no fato desses problemas não chegarem a atingir a você. Fica parecendo aquele amiguinho que, ao ver duas crianças construindo um castelo de cartas juntas vai e assopra só porque “a zueira, ela não tem limites”.

Mas, como disse no início do texto, a internet está aí para o bem e para o mal. E se esse texto atingir nem que seja uma ínfima parcela de pessoas que usam o termo SJW e elas chegarem até este parágrafo (mesmo com todo o padrão “muito longo, nem li”), o papel dele já foi feito.

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