O cristianismo mata
Como educar crianças na Igreja prejudica no desenvolvimento da moral e amor próprio
Não tenho nenhum problema com religiões e com a educação de cada um na sua própria casa, mas eu não poderia deixar de fornecer a vocês esse ponto de vista:
Não pensem que estou aqui para condenar a conduta da Igreja. A pauta aqui não é essa. Meu posicionamento é sobre educação infantil e desenvolvimento da moral.
Você sabe a diferença entre moral e ética? Brevemente, ética é tudo que um ser humano deve (ou deveria) fazer e que está dentro da lei, como não matar, não roubar, não ser corrupto, etc; já a moral é a definição de certo e errado de acordo com cada cultura, sociedade ou religião.
Para a igreja, é imoral usar álcool e drogas, ser “vulgar”, trair o(a) parceiro(a), mentir, propagar o ódio e preconceito, ser gay (coloquei os dois itens lado a lado propositalmente), etc etc… Parecem coisas ótimas de se ensinar a uma criança, não é? Mas tem um problema na igreja: ela, em teoria, te ensina a amar o próximo, mas não te ensina a se amar. Muito pelo contrário, ela te ensina que você é um pecador, pois é humano, e que deve sempre estar na busca de ser… Bom… diferente de tudo que você é.
Cresci em uma igreja presbiteriana, uma das vertentes tradicionais do evangelismo (não tanto quanto a Assembléia, mas ainda assim, bem raiz). Minha mãe jurou, diante de toda a igreja e de Deus, me levar na igreja e me ensinar os dogmas até meus 18 anos; aos 16 eu avisei que não iria mais à igreja. Por que eu caí fora? Porque a igreja estava me afundando em depressão.
Aos 12 anos, quando eu estava descobrindo minha sexualidade, eu me condenava por ter desejo. Em todas as orações, eu chorava porque queria ficar com um menino da escola e minha mãe me ensinou que era errado - porque assim a ensinaram, pois eu era muito nova pra isso. Aos 13 anos, eu beijei um menino na escola e comecei a namorar escondido; em casa eu me mutilava e chorava até dormir todos os dias, porque eu pecava.
Aos 15 anos, senti desejo por mulheres. Me apaixonei por uma. Mais uma vez me condenava — e me machucava.
Aos 16 anos, no ensino médio, me apaixonei por mais meninas, e também andei com uma galera que representava tudo que a Igreja repudia. E eu gostava de tudo aquilo. Mais uma vez, todo dia, eu me condenava — e me machucava.
Você deve estar pensando o quanto isso é dramático, e também o quanto é comum eu me sentir com medo de ir contra a vontade da minha mãe e com vergonha de ser gay… É comum, mas não deveria ser. E sim, é dramático. A pré-adolescência e adolescência é a fase em que você descobre quem você é, é quando você está mais perdido e ao mesmo tempo é mais pressionado pela sociedade e pela família a ser uma massinha de modelar e se encaixar no molde deles. E quando você é um jovem adulto as coisas não mudam tanto… Pessoas de 15 a 24 anos são as que mais cometem suicídio no Brasil, com ênfase nas mulheres e a porcentagem de suicídios continua aumentando!
Durante a formação da minha identidade, a Igreja me ensinou a odiar tudo que eu gosto e que eu sou, porque era pecado. Durante toda a minha adolescência, eu me mutilei, me depreciei, me condenei e criei motivos para me afastar de amigos, de tudo que estimulasse minha sexualidade e das coisas “do mundo” (balada, álcool, músicas explícitas e/ou com palavrão, entre outras coisas).
Hoje, com 20 anos, eu ainda tenho isso enraizado em mim. Estou fora da Igreja há 4 anos, explorei outras crenças, explorei a ciência, estudei movimentos LGBT e o feminismo, a legalização da maconha, bebi, fiz sexo, explorei meu corpo, e ainda assim, ainda tenho esses tabus e vergonha de mim mesma e ser humana.
A Igreja acaba manipulando uma criança sem discernimento do que ela concorda e do que não concorda, pois elas são folhas em branco e desse jeito é muito mais fácil fazer com que acreditem naquilo de verdade.
A Igreja ajuda muitos que estão “perdidos”. Mas dê a liberdade de escolha pros seus filhos. Eu não sou a única pessoa que tem uma história dessas, já ouvi muitas. Ensine o certo e o errado, mas não ensine seus filhos a se odiarem, ensinem-os a amar o próximo como a si mesmos, porque eles são o suficiente.
