À sombra do fair-play financeiro: FC Porto supera dificuldades e garante bom início de temporada sob novo comando

Invicto, surpreendente e acima das expectativas. Assim começa a temporada 2017/2018 para o FC Porto de ânimo renovado, que trocou de comando e ainda busca um caminho para retomar a hegemonia do futebol português. É inegável que, se analisarmos os últimos seis meses, as expectativas seriam baixíssimas. Depois de ter a oportunidade de ultrapassar o tradicional rival (mais de uma vez) e arrancar a liderança das mãos do Benfica, o Dragão vacilou e viu a equipe da Luz conquistar o quarto título consecutivo. Cenário que, por si só, já seria horrível, porém, somado às sanções financeiras impostas pela FIFA, tornava a situação calamitosa para o lado azul e branco. Resumidamente, perdia-se o campeonato novamente e o FC Porto ficava alijado de recursos para tentar vencer o próximo.

No dia 9 de junho, o FC Porto chegou a um acordo com a UEFA para o pagamento de uma multa de 700 mil euros em virtude do não cumprimento das regras do fair-play financeiro. A direção portista não conseguira adequar seu déficit às normas da instituição, a cada ano os problemas financeiros seriam mais graves. Portanto, ficava determinado que a instituição deveria reduzir completamente os investimentos, entrar em regime de austeridade e se adequar ao exigido até a temporada de 2020/2021. Para além da sanção monetária, o FC Porto ficava limitado no número de inscrições de jogadores na lista das competições europeias. Hoje, os dragões podem inscrever apenas 22 jogadores, ao invés dos 25 habituais. Ou seja, o desafio era se reinventar com pouco, muito pouco.

A complexidade da tarefa do FC do Porto só iria aumentar ainda mais com a mudança do comando técnico da equipe. Nuno Espírito Santo foi dispensado pela direção logo após o término da temporada 16/17, na qual a equipe não alcançou nenhum título. Apesar da ausência de troféus, Nuno Espírito Santo chegou à frente do Sporting CP na Liga, com uma equipe bastante humilde e apenas um ano de trabalho. Não me parecia um treinador completamente desgraçado, tanto que rumou para a Premier League. No Dragão ele não prosperou. O substituto estava definido: Marco Silva, competente e jovem técnico português, que já havia comandado o Sporting CP e vinha de um curto (e bom) trabalho pelo Hull City, apesar do inevitável rebaixamento. O problema é que em meio às negociações, Silva recebeu uma proposta irrecusável do Watford, na mesma Premier Legue, e acabou fugindo do FC Porto. Os Dragões foram obrigados a apelar para uma terceira alternativa: o velho conhecido Sérgio Conceição.


“Mudar não mudando”: O bom início de Conceição traz alívio

Sérgio Conceição está a um jogo de igualar início histórico

Recém-chegado da França, onde comandou o Nantes por uma temporada, Conceição desembarcou no Porto causando controvérsia com a seguinte frase em uma coletiva de imprensa: “Não venho aqui para aprender, venho ensinar”. Pareceu arrogante e pretensioso, contudo, talvez fosse, naquele momento, o que precisava o FC Porto. Curiosamente, na pré-temporada, o novo comandante optou, em linha gerais, pelo mesmo esquema tático utilizado mais vezes por Nuno Espírito Santo na temporada passada. O funcional 4–4–2, seja com um trinco/volante ou com um duplo pivô no meio. E que fantástica pré-temporada fez o FC Porto. Os portistas marcaram por 31 vezes em 10 jogos (3,1 por jogo) e apenas em uma partida, contra o Cruz Azul, na viagem ao México, não foram capazes de anotar gols. Ainda é difícil compreender esta série de amistosos no México, que trouxe pouquíssimo retorno desportivo. Entretanto, mesmo valendo apenas do ponto de vista marketing-financeiro, o FC Porto soube aproveitar a oportunidade, afastar a desconfiança e fazer o que era esperado: vencer. Em nove jogos na pré-temporada, dentro e fora de Portugal, o FC Porto não perdeu. Foram seis vitórias (Rio Ave, V. Guimarães, Portimonense, Deportivo La Coruña, Paços Ferreira e Gil Vicente) e três empates (Académica, Chivas e Cruz Azul).


Óliver Torres e Casillas: as melhores ‘contratações’ possíveis nesta janela

Meia espanhol atinge valor de mercado superior aos 20 milhões de euros

Como já vimos, o FC Porto passa por uma fase de completa austeridade. Nada mais lógico do que manter a base já pré-estabelecida, agregar qualidade com o retorno de alguns (bons) jogadores que estavam emprestados e, por fim, apostar forte na formação de novos atletas. Era a única alternativa para o clube, porém, é importante destacar que foi muito bem conduzida pelas cabeças pensantes. A equipe foi montada de trás para frente. Muito se falou sobre um suposto descontentamento de Casillas, apesar de tudo o goleiro de 36 anos anunciou sua permanência em Portugal por mais uma temporada. Por outro lado, o caso do meia espanhol Óliver Torres precisou de um grande investimento por parte dos Dragões. Cedido pelo Atletico de Madrid com cláusula de compra fixada em 20 milhões de euros, o jovem de 22 anos convenceu a direção portista a fazer esta ‘loucura’ e esvaziar os já modestos cofres do clube.

A única contratação de fato foi, para além do técnico Sérgio Conceição, o goleiro Vaná, velho conhecido da torcida brasileira. Mesmo com passagens por clubes como Coritiba, Chapecoense e Canoas, o camisa 1 arriscou tudo em uma proposta do modesto Feirense. E deu rigorosamente certo. Após uma ótima temporada, o FC Porto desembolsou cerca de um milhão de euros e agora conta com uma excelente alternativa ao experiente Casillas. Quase 20 atletas retornaram de empréstimo, entre eles 7 (!) nomes serão aproveitados pela equipe principal. Uma quantidade impressionante de utilização de jogadores que estavam, a princípio, ‘fora dos planos’, com destaque especial para o camaronês Aboubakar, que saiu do Besiktas diretamente para a titularidade com a camisa azul e branca. Fechando o grupo, o FC Porto promoveu 4 atletas das categorias de base e, somando com os 7 que retornaram de empréstimo, chegamos à cifra de 11 homens sem, teoricamente, gastar nenhum dinheiro em novas contratações. Uma ginástica financeira que, até agora, vem rendendo bons frutos no Olival.

Lista de contratações do FC Porto para a temporada 2017/2018: Vaná

Reaproveitamento de atletas emprestados: Aboubakar, Marega, Hernâni, Ricardo Pereira, Sérgio Oliveira, Diego Reyes e Fabiano.


A formação que salva: André Silva sai, mas garante alívio no caixa

Atacante não tem sido titular no início de temporada do Milan

O FC Porto sempre foi prodigioso no quesito vender jogadores para gigantes europeus. Sobretudo no início dos anos 2000, o clube faturou milhões e mais milhões, seja formando jogadores ou servindo como ponte do futebol sul-americano. No atual contexto do clube, não conseguir uma grande transferência na atual janela poderia ser fatal para as contas. André Silva, atacante de 21 anos, fará muita falta, contudo não pode ser considerado um nome insubstituível. O Milan se encantou pelos gols do português e pagou 38 milhões de euros, que servirão de oxigênio financeiro no Porto. Sem dúvida, o destaque na seleção portuguesa ajudou o clube a valorizar bastante o goleador. Rúben Neves, vendido ao Wolverhampton, Martins Indi, ao Stoke City, Depoitre, ao Huddersfield, fecharam a lista de vendas mais rentáveis do Dragão na janela 17/18. Ao todo foram cerca de 70 milhões de euros somadas todas as saídas. Do ponto de vista monetário, é uma grande ajuda. Pelo aspecto desportivo, não se percebe nenhuma perda irreparável.

Por fim, ainda existem casos em aberto e jogadores com situação indefinida. Abdoulaye, Gudiño, Alberto Bueno e Suk deverão ser reemprestados até o fechamento da janela de transferências, em 31/08/2017. Em uma segunda hipótese, os atletas até poderiam ser reintegrados ao plantel de Conceição, entretanto, o próprio técnico já afirmou que o elenco está fechado e a impossibilidade de inscrição de 25 nomes nas listas europeias também esvazia mais ainda esta alternativa. Se o processo de remontagem do elenco, dentro das possibilidades do clube, foi feito de maneira eficiente e econômica, as saídas e dispensas vão sempre na mesma linha: pagar as contas, viabilizar a instituição e não perder competitividade. Jogadores deixaram o Dragão, mas o time dá indícios de coesão para a temporada que se inicia. Novamente, entre perdas e ganhos, ponto para a direção portista.

Lista de saídas do FC Porto até então: André Silva, Rúben Neves, Martins Indi, Depoitre, Andrés Fernández, Mikel Agu, Tiago Rodrigues, Zé Manuel, José Ángel, Josué, Boly, Sami, Adrián López, Diogo Jota e Victor Garcia.


Time-base (4–4–2): Casillas; Maxi Pereira (Ricardo Pereira), Felipe, Marcano e Alex Telles; Corona, Danilo, Óliver Torres e Brahimi; Soares (Marega) e Aboubakar.

Ataque com força nos extremos e defesa clássica em 4–4–2

OPINIÃO

Confesso que, em determinado momento, temi pela temporada 2017/2018 do FC Porto. O cenário era devastador e o futuro não parecia promissor. Como a direção conseguiria montar uma equipe mais competitiva com pouco investimento e sem um técnico de convicção? Não sei bem como, mas é fato que atingiu o objetivo. Após a pré-temporada, ainda torcia o nariz, esperando um nível de competição mais alto. O bom início de Liga portuguesa e as vitórias contra Estoril, Moreirense e Tondela não me convenceram. Ainda torcia o nariz e pensava sobre o desempenho contra os times mais tradicionais. Eis que a partida diante do Braga, na última rodada, trouxe a confirmação daquilo que eu, insistentemente, negava: o FC Porto é franco candidato ao título do campeonato em 17/18. Mesmo não sendo a primeira opção, Sérgio Conceição montou uma equipe coesa, usou as melhores peças e aposta na repetição. Parece simples, mas não é.

No que diz respeito a Champions League, os Dragões estão no grupo G, ao lado de Mônaco, Besiktas e Leipzig. Adversários mais complicados do que podem parecer, mas, de qualquer forma, o FC Porto não tem maiores aspirações na competição e a passagem às oitavas-de-final seriam como um bônus nesta temporada em que o objetivo é um só: mais do que ser campeão português, evitar outro título do maior rival nacional. Para tal, o primeiro desafio de peso será no dia primeiro de setembro, contra o Sporting CP, em Alvalade. Duas equipes que buscam destronar o Benfica e dois times que jogam de maneira, relativamente, parecida. Até agora, o ponto mais forte da equipe de Conceição é a jogada pelos lados do campo, especialmente na esquerda. Alex Telles, Óliver, Brahimi triangulam e constroem para Aboubakar finalizar. Velocidade, habilidade, vitória pessoal e poder de fogo. A receita perfeita para furar qualquer bloqueio defensivo. Vem dando certo até agora e, enquanto não surge nenhuma fragilidade latente, o avião azul e branco vai planando no céu limpo do campeonato português. O problema é que fragilidades surgirão, derrotas podem desestabilizar um elenco tão confiante, com um técnico tão seguro. Se a dúvida é o princípio da sabedoria, só tenho uma certeza: não será verão o ano inteiro no Porto.

Confesso, ainda torço o nariz.

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