
Fome de Leão: Sporting CP investe alto e confia em Jesus para quebrar longo jejum
15 anos sem títulos. O jejum na Liga portuguesa somado aos insucessos recentes da última temporada deixam o ambiente quase irrespirável em Alvalade. A pressão é tamanha que o atual presidente reeleito, Bruno de Carvalho, já garantiu que sai ao final da temporada caso o Sporting CP não vença o Campeonato Português. No projeto do polêmico presidente, o técnico Jorge Jesus é uma constante. Depois de uma temporada 15/16 de glória, ficando atrás do Benfica por apenas um ponto, o segundo ano foi um desastre completo. Com carta branca, o treinador contratou errado, gastou 40 milhões de euros e, em janeiro, estava eliminado de todos objetivos do clube na temporada. Foi deprimente. Quase seis meses a jogar amistosos.
Entretanto, tudo tem um lado positivo. O Sporting CP soube aproveitar o indesejado tempo livre para se reorganizar. Confirmou a permanência de Jorge Jesus ainda na temporada passada, foi ao mercado com força e antecedência, além de se reapresentar antes dos demais adversários. Evidente que o play-off da Champions League foi o responsável por toda essa pressa do Leão em aprontar sua equipe. Os jogos diante do Steaua Bucaresti obrigaram o Sporting CP a retomar as atividades no dia 26 de junho. Muito cedo. Um verdadeiro calvário para jogadores como Adrien Silva, Willian Carvalho e Rui Patrício, cativos na seleção nacional, que há três temporadas não tem férias por conta do serviço a Fernando Santos.
Resumidamente, o Sporting CP tem um projeto sólido na figura de Bruno de Carvalho e Jorge Jesus. Ações que passam não apenas pelo futebol, mas também pelas outras modalidades promovidas pelo clube. Concordar ou não com o projeto é facultativo. Pessoalmente, discordo em vários pontos específicos, como os ataques constantes aos rivais. Contudo, é inegável que depois de muito tempo, os Leões se organizaram na intenção de quebrar o insuportável jejum. A primeira temporada de Jesus foi excelente. Com liberdade, a segunda foi desastrosa e quase rendeu sua demissão. Em 17/18, teremos uma espécie de tira-teima e só o tempo responderá se a manutenção de Jesus foi um acerto.
O ‘3–4–3’ e a pré-temporada inconsistente

Jorge Jesus foi considerado, durante muito tempo, um guru da tática em Portugal. Reabilitando atletas desacreditados e reorganizando equipes do ponto de vista técnico-tático, JJ foi um fio condutor das mudanças na forma com que se joga futebol no país. Adepto do 4–4–2 com algumas variações, o técnico também aproveitou a pré-temporada para testar novas formações. Sem dúvidas, depois de quase três anos à frente do mesmo time é normal que as coisas se tornem previsíveis. Uma variação é impositiva. Atento às tendências globais, o treinador do Sporting CP optou por um 3–4–3 em algumas partidas de preparação. A ideia me pareceu bastante válida, mas a execução comprometeu a ideia. Defendendo em 5–2–3, os problemas foram latentes. Com o meio-campo e corredor central vazios, a defesa sofreu e ficou claro que, mesmo sendo um grande zagueiro, Coates enfrenta grandes dificuldades quando é obrigado a jogar ao lado de outros dois defensores.
No binômio resultado x desempenho, a preparação do Sporting CP não foi brilhante. Começou a trajetória com uma partida quase insignificante contra o Belenenses (1 x 1), aquilo que no Brasil seria chamado de jogo-treino. Na Suíça, o 3–4–3 entrou em ação. Os Leões começaram batendo o Fenerbahçe, mas perderam em sequência para o Valência, Basel e Olympique de Marseille. De volta a Portugal, já com todas as contratações à disposição, o Sporting não teve dificuldades para vencer o badalado Mônaco e a Fiorentina. Antes de começar a Liga, a equipe leonina ainda agendou um último amistoso contra o Vitória, em Guimarães, e acabou goleado por 3 a 0, sepultando, ao menos por hora, a ideia dos três defensores.
Inconsistente e preocupante. Para uma equipe que já trazia muitas dúvidas da temporada anterior, a preparação sportinguista nem alcançou grandes resultados, nem consolidou um novo sistema de jogo. Porém, é o preço a se pagar para dar ritmo de jogo a uma equipe que logo no primeiro mês de trabalho decidirá a permanência na Champions League. Certamente não foi fantástica a pré-temporada do Sporting CP, mas talvez sofrer no início será necessário em um futuro próximo.
Leão rugiu mais alto no mercado de transferências

O Sporting CP fez as melhores contratações do futebol português na atual janela de transferências. Redesenhou completamente seu plantel e, claramente, pagará caro pela falta de entrosamento. E ainda não acabou. Gabriel Barbosa, o Gabigol, já tem negociações avançadas e deve ser o último reforço do clube nesta janela. Depois de uma temporada simplesmente ridícula e conflituosa defendendo a Internazionale, o atacante brasileiro busca um recomeço em Portugal. Para o Sporting CP é um grande negócio. Garante mais opções a JJ e não gastará nenhum euro com o atleta. Contratualmente, o clube é obrigado a fornecer apenas um apartamento e um carro para o jogador (informação da imprensa italiana).
A prova que os investimentos e objetivos do clube de Alvalade foram elevados a um outro patamar são as contratações de Fábio Coentrão e Jérémy Mathieu. Quem imaginaria o Sporting CP contratando jogadores do Real Madrid e Barcelona? Ok, sabemos que não eram titulares, sabemos que não estão no auge da sua trajetória, sabemos que sofreram com lesões. De qualquer forma, na realidade portuguesa, são dois acréscimos de qualidade incontentável. Em pouco tempo, Mathieu já demonstrou que será xerife da defesa leonina. Coentrão é sempre participativo, mas precisa de ritmo de jogo.
No meio campo, Bruno Fernandes é o destaque. Contratado junto a Sampdoria, custou cerca de 8,5 milhões de euros e, até agora, provou que vale cada centavo. Entre todos os reforços foi o que deu a melhor resposta até agora. Rende como um organizador pelo corredor central ou também pode se somar a Bas Dost como segundo atacante. Outro investimento notável foram os quase 10 milhões de euros na contratação de Marcos Acuña. No Racing, curiosamente, não era protagonista. Porém, a juventude, polivalência e força física do jogador encantaram Jorge Jesus que vê nele um ‘motor’ que pode atuar como extrema esquerda. Mesmo que o jogador ainda pareça um pouco ‘pesado’ para a função e não tenha marcado gols, tem sido titular no início de temporada sem empolgar.
Entre os titulares, ainda podemos citar Piccini e Rodrigo Battaglia. O primeiro foi trazido para suprir a ausência de jogadores na lateral-direita, após a inexplicável dispensa de Schelotto. Contudo, o italiano de 24 anos que estava no Bétis se mostrou extremamente semelhante ao seu antecessor argentino. Bastante ofensivo e eficiente no apoio ao ataque, mas frágil e precipitado na fase defensiva. Por outro lado, o caso de Battaglia é bem particular. Não é exatamente titular. Mas tudo indica que virá a ser. Por enquanto, William Carvalho, titular da seleção, está lesionado. Entretanto, é do conhecimento de todos que as propostas do futebol inglês pelo volante sportinguista já chegaram aos 38 milhões de euros: a saída é uma questão de tempo. Rodrigo Battaglia, vindo do Braga, já conhece a Liga e terá uma grande responsabilidade.
Confira a lista completa das contratações leoninas* (-35 milhões de euros): Marcos Acuña, Bruno Fernandes, Rodrigo Battaglia, Cristiano Piccini, Mattheus Oliveira, Salin, André Pinto, J. Mathieu, Doumbia, Stefan Ristovski, Fábio Coentrão, Jonathan Silva, Iuri Medeiros, Tobias Figueiredo e Petrovic.
*Inclui jogadores que voltam de empréstimo
Limpeza profunda, até onde não se esperava

Depois de tantas temporadas consecutivas sem atingir o sucesso pretendido é normal que se crie uma espécie de ‘passivo’ dentro do plantel. Jogadores que não deram certo, alguns que foram emprestados inúmeras vezes e aqueles que seguem no time mesmo sem demonstrar mais pretensões, os que estão na inércia. O Sporting CP negociou/dispensou/afastou mais de 20 jogadores de seu elenco. São dois times inteiros entre atletas que não interessam mais em Alvalade. Como destaque podemos citar as vendas de Ruben Semedo (13 milhões de euros) para o Villareal e Paulo Oliveira (3,5 milhões de euros) para o Eibar. Quase 20 milhões de euros na venda de dois zagueiros. Números realmente fantásticos. Contudo, são negócios que me causaram estranhamento, principalmente quando Jesus propõe um esquema alternativo com 3 defensores. Nesta perspectiva, parece lógica a permanência de Paulo Oliveira. Poderia ser um bom líbero entre Coates e Mathieu, adicionando mobilidade, e não faria grande diferença aos cofres do clube.
Teo Gutierrez, bastante ineficiente, foi negociado com o Junior de Baranquilla por menos de 2 milhões de euros, além de dois atletas importantes que encerraram o período de empréstimo em Alvalade: Joel Campbell e Marcelo Meli. Porém, a direção leonina também surpreendeu com dois afastamentos em particular. Bryan Ruiz e Ezequiel Schelotto, dois jogadores importantes e titulares nas últimas duas temporadas, foram simplesmente comunicados que não interessavam mais ao técnico Jorge Jesus. No caso do meia costa-riquenho, fica difícil discordar da decisão do técnico. Ruiz até fez uma boa primeira temporada com a camisa verde e branca, mas desde então não conseguiu mais jogar em alto nível. Lento e displicente dentro de campo, foi liberado para procurar um novo clube. Já o caso de Schelotto gerou dúvidas entre os torcedores. O que terá ocorrido? Se sabe que não é um extraclasse e não fez uma temporada passada brilhante. Mas também não parece uma desgraça ao ponto de ser afastado do grupo principal. A verdade é que Piccini e Schelotto possuem imensas semelhanças entre si.
Finalmente, o caso do goleiro Beto, que demonstrou imenso carinho pelo Sporting CP, mas não teria espaço no clube enquanto Rui Patrício vestir a camisa 1. Foi uma passagem breve e eficiente, ao fim pesou o dinheiro turco e a possibilidade de ser titular. No dia em que confirmou a saída de Beto, o clube de Alvalade foi muito rápido e anunciou também a contratação do goleiro francês Salin, que assinou um contrato válido por duas temporadas.
Confira a lista de saídas* (+20 milhões de euros): Rúben Semedo, Paulo Oliveira, Teófilo Gutiérrez, Joel Campbell, Marcelo Meli, Ewerton, Esgaio, Chico Geraldes, Matheus Pereira, Beto, Bruno Paulista, André Geraldes, Jefferson, Lukas Spalvis, Castaignos, Domingos Duarte e Leonardo Ruiz.
*Inclui jogadores emprestados
Time-base (4–4–2): Rui Patrício; Piccini, Coates, Mathieu e Fábio Coentrão; William Carvalho (Battaglia), Adrien Silva, Acuña e Gelson; Bruno Fernandes (Alan Ruiz/Podence) e Bas Dost

OPINIÃO
Confesso que tenho uma simpatia especial pelo Sporting CP. Depois de tantos anos sem vencer um título disputado, basicamente, entre três clubes, a torcida segue acreditando e abraçando a equipe. A direção verde e branca buscou qualidade. Como sabemos, no futebol qualidade custa caro. Não sei se Coentrão será o melhor lateral da Liga portuguesa, não sei se Mathieu conseguirá jogar todos os jogos da temporada, não sei se Acuña alcançará sucesso em solo europeu. Mas tenho que opinar hoje. E hoje posso garantir que foram ótimas contratações. O clube fez rigorosamente a sua parte, agora vai depender dos próprios atletas e das habilidades de gestão de Jorge Jesus.
Resumindo, o Sporting CP fez o melhor mercado entre todos os clubes portugueses, superando Benfica e Porto — talvez os leões fossem aqueles que mais precisavam, é verdade. Desde já, credencio a turma de Alvalade a vencer a tão sonhada Liga. Arrisco até afirmar que nesses 15 anos, o Sporting CP nunca esteve tão forte na briga pelo título português. Um pouco pelas próprias contratações, um pouco pelo que Benfica e Porto ainda não apresentaram. O grande problema será, claro, a pressão. O primeiro semestre está condicionado à passagem para fase de grupos da Champions League. Do contrário, será um péssimo início de temporada para o clube e tudo que foi planejado vai por terra.
Esse é o motivo pelo qual escrevo esse texto hoje. Amanhã os comandados de Jorge Jesus definem a classificação diante do Steaua Bucaresti, na Romênia (primeiro jogo: 0 a 0 em Alvalade). Em caso de insucesso, a avaliação acima ficaria completamente condicionada pelo resultado negativo. Por hora, o Sporting CP é (ainda) uma equipe em construção. Foi bem reforçada, porém ainda apresenta algumas inconstâncias. JJ precisará definir um companheiro para Bas Dost, ou até a opção por um só atacante. As jogadas mais agudas dos leões surgem pelos flancos, principalmente com Gelson, contudo o time ganha em previsibilidade e esvazia completamente o corredor central.
Isso é tudo até amanhã, quando os leões definem se dão um passo à frente e voltam a ter algum protagonismo em nível europeu ou se voltará à espiral de fracassos que assola o clube há tantos anos.
Depois de amanhã, só Jesus sabe.
Colaborou Gabriel Corrêa
