O VAR é uma merda

Exatamente isso que você acabou de ler. Não existe adjetivo, tese ou embasamento científico melhor que isso para descrevermos as primeiras experiências em competições de alto nível com a ferramenta de vídeo-árbitro. Calma. Se você é como eu, que sempre apoiou a evolução do futebol e o uso da tecnologia, também viu com bons olhos a tomada de decisão da arcaica FIFA e os primeiros testes do VAR, ainda com o Hawk-Eye, da linha do gol, em 2012.
Evidente que o objetivo aqui é gerar, para além do título polêmico, uma reflexão em todos nós. Tanto pedimos o auxílio da tecnologia e agora ele está presente. O que, concretamente, mudou? Não é preciso rever nenhuma decisão do vídeo-árbitro para entender porque ainda está em fase de teste. Acompanhei com atenção 3 experiências: Mundial de Clubes, Taça de Portugal (final) e Copa das Confederações. Nenhuma foi 100% satisfatória.
A questão é: muito se duvidou a respeito da tecnologia, do vídeo, dos árbitros, da imprensa, da comunicação… Mas será que nós, os torcedores, estamos realmente prontos para o VAR ? E, além disso, para as mudanças que esta ferramenta vai causar na nossa relação com a dinâmica do esporte?
Acho que não e abaixo listo 5 motivos:
- Comemoração do gol
O gol é o momento máximo do futebol. A apoteose. O orgasmo. Nada mais bonito do que um gol do seu time ao minuto 90'. Explosão de euforia e simbiose entre arquibancada e jogadores. Não mais. Com o vídeo-árbitro, a comemoração de gol nunca mais será a mesma. Perde-se emoção. Ficará sempre a dúvida se o gol, quem sabe, foi irregular. Possivelmente no futuro sequer se comemore quando a bola cruzar a linha da meta. O padrão será aguardar silenciosamente 30 segundos até a confirmação ou não (exagero, ok). Pior ainda em lances confusos, com muitos jogadores na área ocupando pouco espaço, situações comuns justamente em… partidas decisivas.
2. Aplicação do VAR
As discussões sobre arbitragem nunca vão acabar. O que até tem um lado bom. A prova disto é justamente o limite da aplicação do VAR. Por limite, entenda-se tempo/duração da ação ofensiva. O lance que me despertou essa dúvida aconteceu em uma partida entre Portugal 2 x 2 México (Copa das Confederações). Na ocasião, o gol não aconteceu, mas certamente geraria muito debate. A falta teria ocorrido no meio-campo e exatos 18 segundos depois o atacante português errou a finalização. E então? Em caso de gol, o lance era passível de anulação mesmo duas investidas de ataque depois? Já não é uma punição ao próprio time que fez o gol? Quanto tempo dura um lance ofensivo? A responsabilidade de parar o ataque, mesmo duas jogadas depois, não seria da própria defesa? Qual o limite temporal de validade do VAR? Perguntas e mais perguntas.
3. Quando e quanto tempo de espera?
Não é só um problema neste item, mas sim dois. Quem alertou foi o técnico da Rússia, Stanislav Cherchesov, em entrevista coletiva sobre um lance de possível pênalti para sua seleção: “Se foi um erro de arbitragem, o VAR não foi útil. Mas se não teve erro, então foi uma boa decisão”. O comandante russo pediu o recurso de vídeo em lance duvidoso e o árbitro negou. Quando será aplicado o VAR? Apenas pela vontade do árbitro pode ser bastante discutível. Em todos os lances? Se perderá imenso tempo de espera, gerando impaciência ou desinteresse na arquibancada. Os times vão dispor de um número limitado de ‘desafios’ como no tênis? Ninguém sabe.
4. Chance para errar duas vezes
O principal argumento para adoção do vídeo-árbitro é a honestidade (ou justiça) esportiva. Agora os árbitros terão chance de acertar em uma segunda ocasião ou… errar duas vezes. Aconteceu em Chile 2 x 0 Camarões. Um gol do Chile foi inicialmente validado, após o auxílio do vídeo foi anulado por impedimento e, ao fim, a posição do atacante chileno Vargas pareceu legal. É apenas um exemplo de como as coisas podem não ser tão claras assim. Os torcedores estão prontos para, mesmo com o VAR, aceitarem injustiças esportivas gigantescas?
5. Custa muito caro
A princípio, esse é um item que só diz respeito aos clubes e entidades organizadoras. Mas só a princípio. O VAR é tecnologia e como toda nova tecnologia custa caro. Estima-se que serão cerca de 2 mil euros por jogo para a utilização da ferramenta nos jogos da Liga portuguesa da próxima temporada. 600 mil euros por ano. A questão é a seguinte: no caso brasileiro, apenas o Campeonato Brasileiro Série A terá condições de utilizar o sistema. As divisões inferiores e campeonatos estaduais vão demorar (e muito) para adotar o vídeo-árbitro. O resultado será evidente: “Se fosse no Brasileirão, esse lance seria anulado… Só não somos campeões porque a Federação incompetente não usa VAR… Não existe isonomia entre os campeonatos no Brasil…”
Sempre defendi o recurso da tecnologia em nome da lisura e justiça esportiva. Porém, para tudo há um preço e, como está funcionando hoje, o vídeo-árbitro cobra bem salgado. De fato ainda não me convenceu, mas querendo ou não já é realidade. Na próxima temporada, o VAR está confirmado nas principais ligas europeias, inclusive em Portugal. A ver.
