Memórias inventadas da infância. 01 — lobisomens viajam de carro?

Ana Caroline
Jan 17 · 7 min read

Memórias alteradas sobre medos da infância e fuscas azuis

Photo by Kym MacKinnon on Unsplash

Sempre tive muito medo de lobisomens.

Depois de um tempo isso começa a parecer idiotice mesmo, principalmente quando você já se considera um adulto quando se olha no espelho; mas até hoje eu evito assistir qualquer filme que envolva lobisomens ou outra coisa parecida. Sem lobos assassinos ou cachorros zumbis pra mim. E, se hoje parece idiotice, essa era uma preocupação muito real de quando eu era criança, pelo menos até os meus dez anos. Eu costumava sonhar que um monstro animalesco desses quebrava uma de nossas telhas de brasilit, bem aquelas que cobriam o meu quarto, destruindo tudo com as garras e pousando com força no chão. E eu ficava ali sozinha deitada na minha cama, enquanto ele parava na minha frente, rosnando e esperando, esperando seja lá qualquer coisa que devesse acontecer em seguida. Eu sempre acordava antes de qualquer coisa acontecer, mas ainda me lembro do isolamento no quarto escuro, dos dentes grandes brilhando na minha direção no meio do breu. E, com muitas variações, esse ainda é um dos meus pesadelos mais recorrentes, comigo ficando sempre tão pequena e vulnerável no meio do cômodo escuro.

Nós morávamos no meio do mato. Literalmente, só tinha um muro baixo que separava o quintal da nossa casinha de uma grande floresta da mata atlântica; pelo menos eu imaginava que era grande, já que nós só nos aventurávamos a cruzar uma pequena fronteira, caminhando pé ante pé atrás de uma bola perdida ou empurrados por alguma criança mais velha. Claro que é ótimo para uma criança crescer perto das árvores, comendo fruta do pé, alimentando macacaquinhos tímidos e temendo grandes tempestades que poderiam alagar a casa inteira; mas nossa casa também era refúgio de cobras — que meu padrasto matava com uma faca enorme — sapos — que meus amigos sempre tentavam me convencer a matar com sal nas costas — um milhão de baratas a cada verão e, obviamente, lobisomens famintos, que não hesitariam em comer uma criancinha depois de meses se alimentando de jaguatiricas e saguis. Mas a verdadeira culpa desse medo todo não é da escuridão da floresta, e sim do meu tio Zé — Zé assim mesmo, como todos os tios em todas as histórias mais genéricas. Ele costumava armar fogueiras grandes quando estávamos entediados demais; e, naquele lugar, costumávamos ficar entediados com muita frequência. As crianças se reuniam em volta da fogueira, cada uma destinada a comer uma das batatas ou as espigas de milho que assavam embrulhadas em papel alumínio no meio do fogo; alguns adultos se juntavam pra assistir e dar risada, às vezes carregando garrafas transparentes de pinga consigo. E o tio Zé fazia essa fogueira se iluminar bem na divisa entre a vila e a grande floresta que se estendia atrás, num dos únicos cantos por onde a gente conseguia passar e entrar no meio das árvores. Com a luz das chamas ardendo nos olhos, era difícil ver qualquer coisa além de nós mesmos que não fossem grandes sombras fantasmagóricas se esgueirando pelo mato. E, enquanto esperávamos as batatas assarem, ele costumava contar histórias, e contava histórias sobre fantasmas e animais selvagens que invadiam a cidade e atacavam homens desavisados. E contava histórias sobre lobisomens, homens cruéis que se viam dominados por uma força sobrenatural nas noites de lua cheia; você conhece essas histórias, todos nós conhecemos. Mas ele contava tudo de um jeito muito mais especial, com seus grandes olhos brilhando com a luz do fogo, fazendo caretas e cutucando nossos ombros e costelas sem que percebêssemos. Tio Zé enumerava nos dedos os nomes das crianças que ele sabia que tinham sido devoradas por lobisomens, e os pais eram covardes demais para contar essas histórias para o resto do mundo.

Com a fogueira finalmente apagada, as roupas impregnadas com o cheiro adocicado da fumaça e os rostos quentes com a lembrança das chamas, voltávamos para nossas casas olhando por cima dos ombos, erguendo os olhos para céu e checando a circunferência exata da lua naquela noite.

Longe disso tudo, uma parte da minha família morava na cidade vizinha, a uns quarenta minutos de carro. Nas férias, ou em finais de semana especialmente quentes, meus tios e primos iam me buscar num fusca azul e velho. Numa certa ocasião, o carro chegou no meio da noite, e me encontrou já aguardando com a mala aos meus pés na varanda de casa. Esse meu outro tio era um homem absurdo, o tipo de gente que gosta de te perturbar só pra poder se lamentar quando você se chateia; eu sempre fui uma criança medrosa e chorona, então ele gostava especialmente de me perseguir, e saía xingando depois das broncas da minha mãe, que tinham que ser altas pra superar o som do meu choro na barra do seu vestido. Naquela época eu não me importava, porque a família era a única coisa na qual podíamos colocar alguma certeza, e eu não poderia arriscar me importar por uma coisa assim. Então eu sabia que naquela noite não seria diferente; e minha mãe não iria encarar a estrada com a gente.

Era noite de lua cheia.

O céu estava limpo, sem nenhuma nuvem ou estrela que pudesse dizer que aquele era realmente o céu; se não fosse pela luz transparente da lua no meio daquele breu, talvez imaginássemos que o céu tinha nos abandonado, e que ficaríamos para sempre mergulhados naquela pintura de um azul muito escuro. Eu me lembro de encostar a cabeça no banco do carro e ficar olhando a lua pela janela, imaginando como era engraçado que ela nos seguia assim tão rápido através da estrada escura; eu sempre perguntava para os adultos se a lua se movia mesmo, se ela realmente nos seguia enquanto andávamos sem rumo pelas ruas largas da nossa vila. E então um vulto me chamou a atenção de volta para a estrada, perto do momento em que eu estava pegando no sono. Perguntei o que era aquilo. Meu tio bufou e soltou uma risadinha, “Deve ser um lobisomem, você não viu a lua?”; eu fiquei chocada com a naturalidade com que ele me dava aquela informação, sem demonstrar medo ou fazer qualquer sinal de que voltaríamos pelo mesmo caminho que viemos, fugindo do perigo. Aquele tio, aquele homem grotesco que, provavelmente, eu odiava desde aquela época, começou a entoar elementos das mesmas histórias de lobisomens que o tio Zé contava à luz da fogueira, e ele não precisava das chamas para tornar as coisas assustadoras; disse que na verdade eles tinham me buscado só para me levar pro meio das árvores que cercavam a estrada, e eu serviria de comida para os monstros. “Uma gordurinha igual essa que você tem, eles vão fazer a festa”, e começava a apertar minha barriga com uma das mãos, fazendo o carro vacilar um pouco na estrada. Talvez essa foi uma das primeiras vezes que eu consegui perceber que ele estava bêbado.

Eu comecei a chorar. Queria que parassem o carro, queria sair, queria que me levassem de volta pra casa; minha prima, só alguns anos mais velha do que eu, observou a cena inteira em silêncio. Mas ele ria, gargalhava até, sua barriga grande e peluda indo para frente e esticando o cinto de segurança. Meus gritos de medo se misturavam com o riso dele e se misturavam com o rock deprimente que saía do rádio, enquanto eu me debatia e me contorcia para me livrar dos apertões que ele continuava a dar na minha pele. Quando eu olhava pela janela, através dos meus olhos já inchados, só conseguia ver o mesmo vulto de animal zanzando pela estrada, de alguma forma se aproximando cada vez mais do carro, até o ponto em que eu conseguia ver o brilho dos seus dentes em minha direção, prontos para destruir os vidros das janelas, arranhar a lataria do carro, que ficaria alagado com o sangue de todos nós mortos ali dentro. Na minha cabeça, eu conseguia ouvir um uivo alto e, a cada vez que ele soava, a lua parecia crescer, como se estivesse pronta para aceitar a oferenda de todos aqueles homens cruéis que se transformavam em animais naquela noite. Eventualmente, meu tio parou com as histórias, mas continuou resmungando e xingando o próprio céu, porque eu continuava chorando e gritando, enquanto ele tentava aumentar o volume do rádio. Pensando bem, eu me lembro da minha prima agarrando a minha mão, a dela só um pouco maior do que a minha, tentando me acalmar, ainda sem dizer nada.

Quando chegamos na casa, eu continuava chorando. Contei tudo para minha tia, entre soluços e acusações, e ela me deixou ligar para a minha mãe; no telefone, disse que queria ir embora, que não queria mais passar aquelas férias ali. Não expliquei o motivo, porque àquela altura já estava começando a me sentir boba e vulnerável, mesmo que eu não soubesse exatamente o que essas sensações significavam. Fiquei esperando a chegada da minha mãe e do meu padrasto no nosso velho Chevette vermelho; esperei acordada, mesmo depois de comermos a carne dos porcos que meu tio matava no quintal, e depois de minha tia me obrigar a tomar um banho, esfregando meu pescoço com força, e depois de todas as outras crianças irem dormir. Quando eles chegaram, mal me despedi dos meus tios, só entrei logo no carro e tentei dormir no banco traseiro, com o dedo na boca enquanto ouvia minha mãe falando preocupada com meu padrasto; depois de pouco tempo, eu esqueceria a mágoa e voltaria ainda para passar alguns dias quentes das férias naquela casa, mas naquele momento eu só me sentia presa numa grande armadilha, ainda imaginando que só tinha chegado ali para virar comida de lobisomem. Não sei se algum dia cheguei a contar a história para minha mãe.

No caminho de volta pra casa, me esforcei para não olhar para a lua.

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