Vagão de vagâncias

Oliver Hecht
Sep 1, 2018 · 6 min read

Já se sentiu vagando em sua própria vida?

Nada faz muito sentido. Trabalhar, estudar, sair.
Estou desempregado agora há 10 meses. Meu último emprego, barman e bartender no bar do meu “sogro” (pai da minha namorada). Eu não tenho muito do que reclamar de lá, gostava muito das pessoas, do ambiente, e, até do trabalho em si. Ninguém é perfeito, tampouco meu sogro, mas, praticamente sempre me dei muito bem com ele. O inevitável desentendimento e discussões aconteciam, mas nunca foram algo crucial.

Meu problema real havia começado alguns meses antes. Estou namorando há quase dois anos. Em Outubro comemoramos nossas “Bodas de Dedo-De-Moça”. Após cerca de 3 ou 4 meses de namoro, meu pai expulsou minha namorada da minha casa, a chamou de vadia e disse para ela nunca mais voltar aqui. Meu pai está velho, quase 75. Sou seu quarto e último fruto, advindo de seu terceiro casamento. Mas também sou seu único filho residindo no Brasil, e, com ele.

Minha família é praticamente toda da Alemanha. Mas meus irmãos mais velhos foram criados aqui, antes de irem estudar na Alemanha. Meu irmão mais velho foi embora antes mesmo d’eu nascer. O do meio mais velho saiu daqui quando eu tinha cerca de 2 anos. O do meio mais novo não cresceu aqui no Brasil, foi embora com a mãe dele, segunda esposa do meu pai. Minha mãe, Brasileira, paulista, faleceu quando eu tinha quase 4 anos.

Resumindo, não tenho NINGUÉM aqui no Brasil além do meu pai, e, o mesmo vale para ele.

Meu pai nunca mais foi o mesmo depois da minha mãe morrer. Pelo menos é isso que escuto de todo mundo, tendo em vista que praticamente não me lembro de absolutamente nada da época, tanto antes ou depois.

Eu já comecei minha infância de modo diferente. Nunca me lembrei da minha mãe. Já tive relapsos de memória, mas possivelmente eram sonhos. Meu pai trabalhava em casa, mas ele nunca esteve realmente presente. Até certa idade, ele fazia questão de “corrigir” meu dever de casa. Coloco em aspas, porque ele só corrigia o que ele sabia. Como é alemão, língua portuguesa, por exemplo, não era seu forte.

Corrigir meu dever de casa consistia em gritar veemente comigo até eu entender a matéria. Meu pai é engenheiro, o que significa que Matemática era seu melhor tópico. Para ele era muito simples, afinal, era engenheiro. De que adiantava gritar com uma criança, dos 7 aos 14–15 anos, para essa entendesse lógica, nunca me fez sentido. Nós, adultos, realmente achamos que, gritando, a outra pessoa entenderá melhor? Bom, infelizmente peguei esse hábito e, hoje que tenho consciência disso, tento mudá-lo.

Fora a correção do meu dever de casa, meu pai ficava o dia inteiro no escritório. Ele trabalhava em casa, justamente com a desculpa de “estar presente” para mim, já que minha mãe estava impossibilitada disso. Mas a realidade era bem diferente.

Ele, de fato, fez parte do meu dia-a-dia. Mas em forma de medo. Quase tudo que fiz na minha vida, até o dia presente, fiz por medo do meu pai. Ele sempre foi um cara enérgico e, honestamente, fui vitima solo de abusos verbais e físicos por anos. Ele nunca me tocou sexualmente, não é de sua índole, mas, o estrago em mim já havia sido feito.

Eu não sou o que se pode chamar de adulto funcional. Disso tenho certeza. Mas eu tento e faço meu melhor, quando consigo e tenho vontade.

Voltando aos problemas atuais, como disse, minha namorada fora expulsa da minha própria casa de modo extremamente vulgar, com meu pai gritando para o bairro inteiro escutar. O que ela havia feito para ele? Absolutamente nada. Ao meu ver, até hoje vejo assim, por falta de explicações e, por observações lógicas de meu pai: ele estava e está ainda hoje, com ciumes.

Após o ocorrido, minha namorada parou de vir para cá (obviamente) e eu que frequentava sua casa. Fiz amizade com os pais dela, sempre me dei muito bem com pessoas mais velhas que eu. O pai dela me ofereceu um emprego no seu bar e, por quase um ano, lá trabalhei. E, honestamente, eu estava feliz como não havia sido em tempos. Via minha namorada quase todos os dias, praticamente me mudei para a casa dos pais dela (onde ela morava até recentemente) e trabalhava com o pai dela também quase todos os dias.

Minha vida estava ótima, tirando detalhes aqui e ali, tudo estava indo bem, estava economizando um pouco, saia bastante com minha amada, dinheiro não me faltava.

Mas, obviamente, meu pai tinha outros planos. Após ficar quase o ano inteiro praticamente sozinho (nossa empregada, com quem meu pai também tem um relacionamento “diferenciado” — ele a vê quase que como uma filha- continuava vindo), meu pai, que a vida inteira passou bebendo, virou um alcoólatra.

Bebeu, bebeu e bebeu até não poder mais e começar a cair. Honestamente não sei dizer quantas vezes ele pode ter caído enquanto eu não estava. Mas rapidamente ele foi piorando. Antes de seu ápice, ele, já em desespero, disse que sentia muito e que minha namorada podia voltar a frequentar nossa casa. Até chegou a pedir desculpas para ela (de forma bem risível, diga-se de passagem).

Também antes de seu ápice, e, tendo em vista as incontáveis vezes que achei meu pai no chão, caído, bêbado, meu pai me pediu para eu me demitir do bar e voltar a morar aqui em casa. E, no MEU desespero, após achá-lo tantas vezes no chão, machucado, mal, aceitei. Me demiti. E, com isso, começa o fim da minha vida. Meu pior momento, agora em 10 meses.

Meu pai pediu para ser internado e eu já estava considerando essa opção. Conversei com meus irmãos e concordamos. Mas, meu pai tinha a impressão de que ficaria 1 semana internado e voltaria para casa, após desintoxicado, para tomar uma cerveja. Devo dizer que procurei bastante, mas, pelo menos aqui no Brasil, ou na nossa região, não existia nada assim.

Meu pai ficou dois meses internado em duas clínicas particulares. Ainda houve problemas nas informações alheias e meu pai acredita até hoje que a primeira clínica queria dar alta para ele após 1–2 semanas de internação. Longe da realidade que o dono do estabelecimento tentava me passar, e, diferente de tudo que QUALQUER funcionário de QUALQUER clínica que estive, tentava passar.

Me fora falado que um alcoólatra, assim como qualquer adicto, deveria ficar longe de sua adicção, para sempre. Bom, meu pai voltou a beber pouco mais de 2 meses após voltar da reabilitação. Hoje ele está cada vez mais perto de voltar a seu ápice alcoólico, mesmo eu estando aqui o ano inteiro e a sua disposição.

Eu já não sei mais o que fazer. Minha namorada nunca mais se sentiu realmente confortável perto do meu pai e, não posso culpá-la por isso. Mesmo depois que ela pôde voltar, meu pai nunca a tratou de forma sadia.

Meu pai é um cara complicado. Sempre foi. Mesmo antes da minha mãe partir. Mas, eu ainda estou aqui. Estou me aproximando cada vez mais dos 30 anos. E, honestamente, não sei o que fazer com a minha vida.

Estou vagando. Estou sendo um mero expectador da minha vida.

Passo dia-após-dia em casa, mas me sentindo preso. Fico assistindo séries ou filmes, tento ler um pouco, tento fazer algo aqui, algo ali. Tentei e estou tentando instaurar meu próprio negócio. Mas, não consigo realmente dar continuidade a nada.

Me sinto preso. E, acima de tudo, me sinto sugado. Evito até onde posso, encontrar meu pai pela casa, mas, só de estar perto dele, sinto minha energia esvaída. Não. Consigo. Fazer. Nada.

Já tentei mais de uma vez conversar com meu pai sobre isso. Até já tentei abordar meus irmãos sobre isso.

Mas a solução deles é sempre tão simples: arrume um emprego e saia de casa.

Fácil, não? Não. Fazer isso é o mesmo, na minha visão, abandonar meu pai ao relento. Independente do quão abusivo meu pai possa ter sido, não consigo abondá-lo. Não assim. Mesmo quando praticamente me mudei daqui, continuava vindo, semana após semana, para vê-lo. Eu o amo. Apesar de tudo, não consigo deixar de amá-lo.

Mas EU estou perdido. A vida do meu pai já está no fim (minha avó viveu até os 101, mas ela não fumava, muito menos bebia igual a ele), ou chegando perto dos finalmentes.

EU não sei o que fazer.

EU não sei como dar continuidade à minha vida, enquanto vivo com meu pai. E, ao mesmo tempo, não sei como conseguiria abandonar meu pai para viver minha vida.

Eu. Estou. Vagando.

E, enquanto isso, todos meus amigos, família e conhecidos, seguem suas vidas.

Oliver Hecht

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There is a Riot in everyone