Um passado.
Quando meu sonho era estudar fora do país, em 2012, ainda que sem condições, produzi muitos algos. Eis aqui, de 20/10/2012, de um sonho passado, não cumprido, mas bem aproveitado, da forma como escrevi, com os mesmos erros, as mesmas dificuldades; eis aqui.
Sombras por todos os lados. Assustavam-me, mas nunca chegaram há um dia, me englobar em sua escuridão. Naquela época, eu não compreendia o que elas significavam. Achava algo anormal, medonho, mas como nunca me tocavam, não relatava a ninguém. Sempre quando meus pais diziam “coma tudo, não deixe nada, tem gente que não tem o que comer por aí filha” a sombra se esvaía.
Até que um dia, andando pelas ruas suburbanas, paramos em um sinal; deparei-me com aquela sombra. Ou melhor, uma sombra semelhante àquela que me rondava, querendo que eu a aceitasse e entendesse, porém com um detalhe que fazia uma diferença enorme: essa sombra conseguia ser gigante, de uma forma que eu queria me encolher, por causa de sua intimidação, mas eu não o fazia. Eu olhava e olhava, até notar de onde essa sombra vinha: de uma criança. Uma criança com roupas diferentes das minhas, sujas e com um pano em mãos. Pedira alguns centavos aos meus pais e eles deram para logo depois, o sinal abrir e o carro continuar seu percurso. Ainda acompanhei aquela criança, um menino, com a cabeça até ela sumir, com o movimento do carro. E ela sumiu, junto com a sombra. A curiosidade aumentava e até tentar desenhar a sombra eu já havia tentado. Este fato me fez chegar aos meus pais e me perguntar o que ela poderia ser. “Isso filha, só pode ser a fome.” Fora o que eles disseram. Lembrei-me de quando minha mãe dissera que ela comia feijão com farinha, isso quando tinham. E de noite, eu chorei. Chorei porque aquela sombra significava uma pessoa sem ter o que comer. Sim, eu havia compreendido, pois poderia ser pequena, mas meus pais já haviam me dito várias histórias deles. Felizes, tristes. E essa era uma triste que minha mãe já havia passado e aquele menininho estava passando. E pela primeira vez meu coração sofreu e minha alma doeu. Eu não queria ver novamente tais sombras. Elas me assustavam, mas graças aos meus pais eu sabia que elas não me tocariam. E eu estava extremamente feliz, porque nesse dia, eu ia com meus pais remover as sombras e levar a luz, pelo menos naquele momento às pessoas que as carregavam como algo permanente em seu corpo, que marcava sua alma.
Não era muito, já que infelizmente a vida não nos favoreceu, mas era o suficiente. Biscoitos. Eram duros, com um toque salgado e, complicados de mastigar, mas a comunidade, quando nós chegamos, aceitara, de bom grado e comeram com refrigerante. Uma moça me oferecera e meus pais me incentivaram a comê-lo. Comi com um afinco que jamais imaginaria poder comer. Eu comi feliz, porque pela primeira vez eu vi as sombras que alagavam as almas de todos ali sumirem. Elas se foram, sem palavras, com seu ar morto. Essa moça me abraçou e agradeceu, e eu chorei novamente, mas de alegria. É como Benjamin Franklin citou “A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro.” O meu coração se converteu em ouro, ao ver a alegria daqueles que, ainda que não tenham o que comer não se lamentam e quando tem, comem com felicidade repartindo seus pedaços entre os outros, eles aprenderam a amar ao próximo mesmo nas dificuldades. “É realmente, eu não sei o que é a fome”. Eu sorri, mais um singelo sorriso e fora embora para casa, carregando até hoje o que me passaram. Aprendi que não é só alimentar o corpo, mas a alma. Dar e receber com carinho. Partilhar. E tentar mudar alguma coisa, mesmo que pequenina, no meio desse mar de sombras e escuridão. Eu mudei, estou mudando e continuarei mudando, e até a morte levarei.
Não há motivos para se perguntar, foi isso, em 2012, que saiu. E disso, mantenho-me andando. Pedaços de mim, sou eu essa, e só.