O Curioso Caso do Flamengo

Em 2001, Vampeta soltou uma das frases mais emblemáticas do futebol brasileiro: "O Flamengo finge que paga e eu finjo que jogo". Reside aí a preocupação número um de qualquer administrador esportivo. O objetivo maior de qualquer gestor de clube de futebol. Não atrasar salários.

Parece fácil, mas é muito longe de ser. Pagar salários em dia no futebol brasileiro é uma tarefa extremamente complicada. Por conta de anos de relaxamento financeiro, clubes de futebol tendem a ter pouco dinheiro em caixa. Com isso, é muito difícil um clube fazer ajustes quando alguma coisa sai do lugar.

Em geral, o que entra de receita sai quase que imediatamente para cobrir despesas, principalmente os salários dos jogadores. Como boa parte das fontes de receita dos clubes (tv e patrocínio) são originadas em poucos clientes, se um deles atrasa um pouco, gera descompasso no pagamento. E se uma dessas poucas fontes seca, por exemplo um contrato de patrocínio que não é ou demora para ser renovado, ela gera um rombo que o clube não tem como cobrir. Aí ele atrasa salário. Se ele ganha um campeonato, então, o desafio aumenta. Todas as dificuldades de salário servem também para pagar premiações aos atletas, imediatas, com as bonificações recebidas pelo clube, que podem demorar alguns meses. Não é uma tarefa simples.

Para cobrir esse rombo e não atrasar os salários, o clube tem algumas alternativas. Ele pode escolher atrasar o pagamento de fornecedores. Quando ele já está no limite desse atraso, ele pode escolher não pagar impostos. Quando ele já tá no limite da inadimplência, ele pode escolher então não pagar os funcionários. Aí, quando a corda está estourando mesmo, ele deixa de pagar os jogadores.

Não pagar jogadores é a última instância da irresponsabilidade financeira de um clube. É a beira do abismo. Um passo para frente e fim.

O próprio Vampeta afirma que o Flamengo de hoje não atrasa mais salários. O discurso do clube de recordes de receita e controle das despesas aliado à repercussão desses números pela imprensa corrobora com isso. Tudo indica que hoje o clube paga e os jogadores jogam.

A última vez que atraso de salário foi um problema grande no Flamengo parece ter sido em 2013. De lá para cá, surgiu uma notícia aqui, outra acolá, mas nada de muito significativo. Atualmente, o Flamengo parece estar com as finanças em ordem. Mas está mesmo?

A primeira coisa a fazer para analisar isso de forma certa é olhar a evolução do balanço ao longo dos últimos anos:

Esse gráfico é curioso. É fácil de ver que a principal alteração de 2013 pra cá é a queda do Passivo Não-Circulante, ou seja, a dívida de longo prazo do clube, e o aumento do Ativo Não-Circulante. E aqui surge uma ressalva importante. Ativo Não-Circulante não necessariamente significa dinheiro. É um número mais imaginário do que real, já que ele é feito a partir de uma série de estimativas que podem ou não serem convertidas em dinheiro em determinado momento no futuro. Ativo Não-Circulante não significa dinheiro em caixa. Ao analisar a evolução detalhada, isso fica mais claro. O grosso da composição do ativo se concentra em Imobilizado, Intangível e Propriedades para investimento:

A estimativa de valores também tem impacto grande no Passivo Não-Circulante, já que o item que apresentou maior redução ao longo dos últimos anos foi a 'Provisão para Contingências'. Como o próprio clube explica no balanço: "As provisões para as eventuais perdas decorrentes desses processos são estimadas e atualizadas pela administração, amparada pela opinião de seus consultores legais internos e externo" (grifos meus). Ou seja, não significa necessariamente um valor real.

Os outros valores devidos no longo prazo, principalmente o de impostos, continuaram relativamente estáveis:

O primeiro gráfico do balanço lá em cima mostra que no dinheiro disponível (Ativo Circulante) e na dívida de curto prazo (Passivo Circulante), a estabilidade também permanece. Para a gestão do dia-a-dia, a situação do Flamengo não se alterou tanto nos últimos anos. Teve uma melhora significativa em 2014 (ruim), mas depois voltou aos mesmos níveis de 2010 e 2012 (muito ruim). A liquidez do clube, que é a capacidade de honrar seus compromissos mais urgentes, piorou muito nos últimos dois anos:

Com isso, a necessidade de dinheiro pra cobrir o rombo do caixa do clube continua muito elevada:

Como então o clube faz para não atrasar salários? Fazendo o que todo mundo faz quando a corda aperta:

Em 2016, o clube conseguiu abater parte dos empréstimos por conta do pagamento de luvas do contrato de televisão. Mas, ainda assim, hoje o Flamengo deve três vezes mais em empréstimos do que ele devia em 2009. E isso explica a melhora dos números: o clube está mudando o perfil da sua dívida. Ao invés de dever muito no longo prazo, ele deve menos no curto prazo. E se antes ele tomava empréstimos de empresas e organizações do mundo do futebol (Maracanã, CBF e FERJ), hoje ele toma empréstimos de bancos que fazem parte do mundo do Flamengo (um banco é da MRV, patrocinadora do clube, e outro banco tem um VP do clube como diretor).

O problema de dever tanto no curto prazo é que o clube entra no mesmo ciclo anterior. Se o dinheiro parar de entrar em algum mês, seja por um imprevisto de um dos clientes ou por um mal-resultado em campo, o clube vai ter que escolher entre pagar o empréstimo ou pagar o salário. Logicamente, a escolha vai ser pelo último. E é bem aí que a bola de neve começa.

É bom ter cuidado.

Um clube pode fingir que paga.

Um jogador pode fingir que joga.

Um banco nunca vai fingir que cobra.

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