A problemática da depilação na sociedade pós moderna

Ontem estive numa discussão curiosa no twitter e a pauta discutida renderia facilmente estudos de cunho social muito mais aprofundados. A atriz Bruna Lienzmeyer compartilhou com seus seguidores um desabafo sobre a sensação libertadora ao perceber que não precisava, necessariamente, fazer parte da grande parcela de mulheres que constantemente removem seus pelos e claro, como toda polêmica, o alvoroço foi gigantesco. Curiosamente percebi a quantidade imensa de homens afirmando que sentiam nojo/asco e se utilizavam da falha argumentação a cerca de HIGIENE e DEPILAÇÃO, vinculando diretamente a presença de pelos à falta de higiene e pasmem: todos os perfis que eu entrei de pessoas que faziam tais afirmações eram de homens com pelos no rosto (barba), peitoral, braços, axila e provavelmente até onde o sol não bate. Eu daria ênfase à tal hipocrisia masculina mas acredito que a problemática nesse caso é muito mais profunda.

A remoção dos pelos na história da nossa civilização não é recente. Fui pesquisar sua origem e segundo afirma Frances Borzello, uma historiadora e pesquisadora da Idade Antiga em entrevista à BBC no podcast “The Why Factor”, a depilação surgiu a Grécia Antiga na qual apenas as mulheres retiravam seus pelos. Segundo a mesma, a presença ou ausência de pelos havia se tornado um marcador de gênero, muito embora ambos gêneros possuíssem pelos naturalmente. Ao longo da história, muçulmanos encorajavam ambos os sexos a removerem seus pelos enquanto para o cristianismo os pelos deveriam ser mantidos como um sinal de castidade.

No fim do século 19 os pelos das axilas ganharam uma conotação erótica com a perda das mangas dos vestidos femininos e as “moças de família” eram aconselhadas a remover seus pelos devido à carga sexualizada que eles produziam nos homens, visto que o pudor antes não permitia que a pelugem ficasse a mostra. Ao longo das décadas a depilação se ressignificou e surgiu a falsa impressão de que a ausência de pelos estaria vinculada à higiene e eis que a industria da beleza caiu em cima das mulheres novamente exigindo cada vez mais a remoção de seus pelos. A década de 60 e 70 tentou, através do surgimento do movimento feminista, dar um basta à essa cultura de depilação tentando naturalizar o corpo feminino e normalizando a pelagem e assim a moda das moçoilas com seus corpos peludos se manteve até meados dos anos 90 e 00, curiosamente quando a indústria pornográfica ganhou força. Um estudo publicado pela revista de saúde sexual Journal of Sexual Medicine, vinculou o fenômeno da depilação pubiana à disponibilidade de pornografia. Desde então naturalizou-se a remoção COMPLETA de praticamente todos os pelos do corpo, desde às axilas à genitália.

Observe que durante toda a história da nossa civilização a exigência da depilação recaiu somente à mulher. Em homens, a depilação se tornou critério para categoriza-los em mais ou menos viril. Ou vai me dizer que você nunca ouviu piadinhas em seu meio social de homens que removem seus pelos são “menos macho”, “viadinho” e outros sinônimos tão pejorativos quanto? Em homens, a presença de pelugem é sinal de virilidade, na mulher de falta de higiene e claro que mesmo com diversos estudos e pesquisa nesse âmbito, os médicos e pesquisadores sempre foram enfáticos em relação a depilação: não tem absolutamente nenhuma relação com higiene. Inclusive muitos afirmam justamente o contrário: pelos servem como uma proteção natural do nosso organismo e anti-natural é remover essa “camada” protetora existente em nossa pele, deixando-a propensa a mais infecções. Inclusive existem estudos que associam o hábito de depilar a um aumento no índice de doenças sexualmente transmisíveis.

Mulheres adultas são socialmente obrigadas a manter sua depilação completa em dia e isso se normalizou a tal ponto que ninguém mais se questiona o porquê disto. Um corpo feminino sem pelos remete a uma fase infantil da mulher, se equipara ao corpo da menina pré-puberdade no qual ainda não houve o crescimento dos pelos na genitália. Com incentivo da industria pornográfica, homens que exigem depilação feminina completa de suas parceiras inconscientemente procuram companheiras que demonstram pouca ou nenhuma experiência sexual, as mulheres precisam sempre exalar juventude e manter sua inocência preservada demonstrando ainda mais a relação de propriedade que existe entre os sexo masculino e feminino. A mulher desde sempre precisou zelar os seus pudores, do contrário era ainda mais desvalorizadas como seres humanos na nossa sociedade onde o homem é o centro de tudo. Com toda a problemática que existe sobre a imposição social sobre a mulher manter seus corpos prontos pra atender as demandas dos desejos masculinos, exigir um corpo sem pelos é erotizar um corpo infantil, é algo extremamente problemático. A busca por elementos infantis dentro das relações sexuais flerta facilmente com a pedofilia além de evidenciar a busca por uma relação de dominação que é comumente visto numa relação normal entre adulto e criança. Essa concepção de sensualidade e erotização é tóxica mostra o quão adoecida está nossa civilização

O que nossa sociedade (não apenas a pós moderna mas as civilizações antigas também) odeia não são os pelos. O ódio é à mulher que opta por não performar feminilidade e não atender as demandas masculinas sobre os SEUS PRÓPRIOS corpos.

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