breve exercício contra o imediatismo

o gato João contra o imediatismo.

Cortázar escreveu naquele conto “Perda e recuperação do cabelo”, já alguns bons anos atrás,

contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis.

logo a gente percebe que o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis não é necessariamente um mal destes tempos. talvez seja um mal deste século e do último?

não estou convencida que seja questão assim tão atual: a diferença está na maneira de ver e sentir o tempo. antes, uma notícia do outro lado do Atlântico precisava chegar de navio. conhecer notícia de semanas era estar atualizadíssimo.

eu aqui queria pregar — pra mim mesma — contra o imediatismo. o imediatismo é um desses vícios dos nossos tempos, ou talvez um vício meu e de qualquer forma também o vício de muitas outras pessoas, como vez ou outra acabo confirmando sem querer. o imediatismo de querer tudo agora nesse instante, de achar que um dia perdido é uma vida perdida, de achar que todos os dias precisam ser ocupados com coisas úteis (o imediatismo é amigo-gêmeo do pragmatismo) e que se as coisas não mudam ESTA SEMANA não vão mudar nunca mais.

afe.

exercício contra o imediatismo: pensar na própria vida dois ou cinco ou dez anos atrás e medir o que mudou. então imaginar-se em dois ou cinco ou dez anos no futuro olhando o momento atual e pensando “aquele tempo em que eu passei três meses sem dinheiro e sem saber o que fazer da vida” ou “aquele ano em que eu não encontrava trabalho” ou “aquele tempo em que eu achei que aquele negócio ia dar certo” ou “aqueles meses em que eu passava uma semana inteira assistindo a Doctor Who” etc.

quer dizer: exercício de perspectiva. porque a gente sempre pode olhar o passado com mais condescendência.

e principalmente porque: as coisas estão sempre mudando.

o imediatismo é isso de querer sempre mais e sempre tudo ao mesmo tempo nesse exato instante. porque se não agora nunca mais e; convenhamos, não é bem assim. um ano pode parecer muito tempo, e talvez seja, mas não é nada criminoso “perder” um ano em dúvidas, em dívidas, em um relacionamento que não deu certo. ou não seria, se a gente se esforçasse por gastar mais tempo vivendo o momento como ele se apresenta do que querendo agregar mil coisas ao pobre do momento.

eu digo isso pra você, mas veja que estou principalmente dizendo isso pra mim.

é que não custa compartilhar as coisas com os amigos.


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