quem não habita o mundo não tem hábitos: percepção, realismo e fantástico

mestre Cortázar.

os textos do livro Clases de literatura, do Julio Cortázar, são uma série de aulas que ele deu em uma universidade norteamericana. um livro que estive namorando desde agosto de 2014, quando topei com ele na feira de livros de Córdoba e não quis comprar porque 220 pesos mais o peso nas costas (milhões de pesos).

mas aí que lindo voltar a ler Cortázar. enquanto a ex-mulher dele continuar tirando coisa inédita do baú (parece que tem um baú infinito na casa dela) eu vou continuar lendo tudo que sair.

aí que nessas aulas o Cortázar discute muito a suposta oposição realismo e fantástico na literatura, para mostrar o quanto um depende do outro, serve ao outro, enriquece o outro. e obviamente menciona Kakfa, que segundo um dos seus principais críticos, Günther Anders, é um escritor realista.

isso está no livro “Kafka: pró e contra”, que por sinal é mui lindo e preciso na análise (nem precisa ter lido muito de Kafka pra acompanhar o trabalho crítico do Günther Anders, porque mesmo quando ele está discutindo uma obra específica está também discutindo a literatura de forma mais ampla).

Cortázar vai mais ou menos pelo mesmo caminho ao reforçar de que maneira o fantástico serve para fazer ver o real: fazer ver aquilo que está oculto no cotidiano, na rotina, no hábito.

quem não habita o mundo não tem hábitos
e entende os costumes como decretos.” — Günther Anders

por exemplo: ele lê aos alunos seu conto “Com legítimo orgulho”, do livro “A volta ao dia em oitenta mundos” (um dedicado in memoriam a K, vai vendo).

a narrativa descreve a rotina de uma comunidade que, a partir de dois de novembro, com a chegada do outono, recebe da municipalidade a tarefa de recolher as folhas secas. fazem isso há tanto tempo, há tantas gerações, que a atividade é tomada como algo perfeitamente natural, sem questionamentos — que iriam questionar?, há folhas secas e elas atrapalham a vida e é necessário recolhâ-las.

e elas atrapalham sobretudo no primeiro de novembro, quando se visitam os cemitérios e é necessário limpar as tumbas dos mortos — e muitas vezes não se encontram as tumbas dos parentes devido à quantidade de folhas secas que se acumulam pelo chão.

o fantástico cresce conforme o narrador explica os detalhes dessa tarefa: é necessário espirrar essência de serpente nas folhas pra que o animalzinho adestrado que recolhe as folhas o faça com alguma vontade e eficiência. por causa disso é preciso fazer expedições à floresta, onde vivem as serpentes. muitos dos que são enviados nessa tarefa morrem por lá; são os corpos que voltam, junto dos sobreviventes e da essência de serpente. e são justamente aqueles pouco eficientes no trabalho de comandar os animaizinhos que são enviados à floresta.

por isso, embora reconheçam a necessidade das expedições à floresta, todos empenham-se no trabalho de recolher as folhas secas para não serem enviados à floresta.

mas segue a vida e seguem os hábitos, e todos têm seus mortos pra enterrar e quando chega o ano seguinte no primeiro de novembro se lembram da importância de se recolher as folhas secas quando visitam os familiares no cemitério e precisam limpar as tumbas e encontrar as tumbas.

é necessário ir à floresta pra buscar essência de serpente pra borrifar nas folhas secas pra conseguir recolhê-las — e isso tudo parece terrivelmente natural e necessário porque no primeiro de novembro não encontram as tumbas dos familiares mortos nas expedições à floresta pra buscar essência de serpente.

esse é o fantástico de Kafka, nesse caso em um conto de Cortázar.

o efeito do realismo está na linguagem. isso Günther Anders explica com mais detalhes e exemplos, mas acho que dá pra generalizar um pouco: o narrador de “Com legítimo orgulho” descreve tudo com naturalidade, sem questionar, reafirmando o óbvio de algo que ao leitor parece perfeitamente absurdo.

é também o despertar de Gregor Samsa, em “A metamorfose”. acordou, era um inseto. como se isso pudesse acontecer a qualquer um de nós, a qualquer momento.

(e talvez aconteça.)

ou, principalmente: não seria o caso de encarar nossos próprios costumes com estranheza, e reconhecer neles o absurdo que somos incapazes de perceber por estarmos demasiado metidos no hábito?

esse conto de Cortázar, afinal, é realista porque escancara o quanto tomamos por natural e óbvio costumes e tradições simplesmente porque sempre foi assim.

quantos desses costumes sobreviveriam a um questionamento mais profundo?

(ou pensar o absurdo dos acontecimentos no Brasil hoje em dia, o absurdo das reações das pessoas, do comportamento dos meios de comunicação, das declarações oficiais, dos comentários de portal. estamos vivendo uma história de Kafka ou as histórias de Kafka que contavam sobre o que estamos vivendo?)

então: vida real?

viajar e ler literatura são duas formas possíveis de se relativizar o real (ou pelo menos nos lembrar de que isso é necessário); de relativizar a naturalidade da rotina, de entender que o hábito não tem nada a ver com verdade: é o caminho pra relativizar a própria importância, pra não levar a vida (e a morte) tão a sério.

que é a nossa percepção? escutamos um ruído familiar e imediatamente pensamos: é um caminhão. nossa percepção está treinada pra reconhecer padrões, e esse treinamento nos impede de duvidar da realidade aparente.

mas a realidade aparente não é nada mais do que isso: aparente.

não se trata, como li um tempo atrás, de escutar um estrondo na rua e ser capaz de esquecer a familiaridade da associação: é um caminhão. mas é o exercício constante de duvidar; de dar um espaço, físico e mental, entre o ruído e o suposto reconhecimento.


me lembro de um dia, numa cidadezinha das serras de Córdoba; estava no hostel, escrevendo no computador. senti um ruído (sim, senti o ruído: foi o barulho e um tremor) e pensei: um caminhão (um treminhão). mas estava numa estradinha secundária e por ali não passava mais do que um jipe grande, e um jipe grande não produziria aquele rebuliço todo.

San Marcos Sierra.

deu-se o inesperado: tinha sido um tremor de grau cinco na escala Richter, com origem a uns poucos quilômetros dali.

me lembrei na hora do que tinha lido.

não era um caminhão.


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