Mulher, gorda e resistindo

Você sente o que eu sinto?

Ser mulher me faz ficar tensa ao perceber que meu vizinho de poltrona no ônibus é um homem. O medo é inevitável: lembro de histórias ouvidas e vividas, imagino como seria minha reação em caso de algum tipo de abuso. Com certeza você já viu aquele tweet que diz: “Quando eu tô sozinha na rua de noite prefiro que tenha 6 tipos diferentes de demônio atrás de mim do que um homem”. Soa engraçado, mas na verdade é triste.

Ser gorda é temer a consulta médica. Mesmo que a especialidade nada tenha a ver com peso ou gordura corporal, sabemos que qualquer indício de doença pode ser relacionado ao meu peso (mesmo que não tenha nada a ver). Sendo o médico do trabalho a ansiedade é ainda maior: será que posso ser despedida caso apresente alguma doença? Será que, apesar de meus exames ótimos até agora, esse novo exame vai apontar uma doença séria relacionada ao fato de eu ser/estar gorda e serei prejudicada?

Ser mulher e gorda é um desafio diário. Lidar com a minha própria mente já não é fácil. As armadilhas são constantes, resultados de anos aprendendo como ser mulher dentro dos padrões e o quanto estar fora deles é ruim. Lidar com uma sociedade que insiste em me colocar em posição inferior é mais difícil ainda. Saber que são tantas as mulheres em situação igual, pior e muito pior do que a minha é desesperador. Mas resisto e insisto na mudança, trabalhando duro pela minha transformação interior e contribuindo como posso para a educação dos que vivem também nessa sociedade.