18 documentários LGBT imperdíveis no YouTube e Netflix

Conhecimento é uma das melhores armas contra o preconceito. Por isso, resolvi fazer uma listinha com alguns docs que eu vi e recomendo muito. E essa vai ser uma troca: recomenda alguns nos comentários!
O link pra cada filme está no finalzinho dos descritivos, com exceção dos que estão no Netflix.
A revolta de Stonewall
Este é um filme que nos faz entender o contexto da revolta de Stonewall e o quanto ela foi importante para a construção dos direitos civis das pessoass LGBTQI.
Até aquela data, ser LGBT era ilegal nos Estados Unidos. Nas aulas de educação sexual, eram mostrados vídeos que equiparavam gays e lésbicas a estupradores, pedófilos e psicopatas. A moral vigente colocava a pessoa homossexual como marginal e doente mental. Sair do armário não era uma escolha segura — social e fisicamente. Há histórias de homossexuais que foram internados em hospícios e sofreram lobotomia. Outros perderam emprego, amigos, família e cometeram suicídio.
Ao longo do tempo, criou-se uma subcultura de bares para onde homens e mulheres iam escondidos e se encontravam com pessoas semelhantes. Os próprios bares eram escondidos. Às vezes, em baixo de algum outro bar — underground.
Logo, a sociedade fez pressão para que esses locais fossem extintos, por acusações de sodomia, atentado ao pudor, tráfico de drogas, perturbação da ordem e por aí vai. Bares sempre eram fechados pela própria polícia.
Só que em 28 de junho de 1969, houve uma resistência em um desses bares, o que culminou numa revolução civil pela igualdade de diretos dos homossexuais que dura até hoje. Nesta data atualmente é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBT.
Tá no YouTube completo e com legendas em português.
Para a Rússia, com amor
O documentário “To Russia with love” gira em torno dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sóchi, na Rússia, que rolaram em 2014. Por ser um país restritivo a LGBTQI+, muitos esperavam um ato político de algum atleta da comunidade durante a transmissão, o que não aconteceu.
Em 2013, a Rússia proibiu qualquer propaganda de relacionamentos sexuais não tradicionais. Na prática, o que acontece é o seguinte: ninguém está seguro ao sair do armário publicamente; qualquer protesto aberto é violentamente dissolvido pela polícia e/ou grupos extremistas e até boates precisam mudar de nome/endereço com certa frequência por questões de segurança. Isso sem falar do bullying e violência gratuita sofridos por LGBTs. Isso acontece ainda hoje.
O documentário conta histórias de pessoas de diversas nacionalidades que estão ligadas diretamente aos jogos da Rússia ou a causa LGBTQI+. Mas tem dois, especialmente, que enchem a gente de esperança: Konstantin Yablotskiy, co-presidente da fundação esportiva LGBT da Rússia, várias vezes sabotada pelo governo; e Vlad Slavskiy, estudante russo, que conta as atrocidades cometidas contra ele entre a escola e o caminho para a sua casa (de pedradas a tentativas de estupro).
“To Russia with love” é muito importante porque, acima de tudo, fala sobre respeito — e a falta dele — aos direitos LGBT, questões que são, infelizmente, ainda muito próximas de nós.
Tá no Netflix.
Além das 7 cores
Um curta simples, mas poderoso. Imersa na movimentada cena noturna da região da Rua Augusta, em São Paulo, Daniela Glamour Garcia nos conduz nesta crônica queer sobre o os conflitos de quem decide viver à margem do que é considerado “normal” pela maioria.
Tem completinho no YouTube.
Tig
“Boa noite, eu tenho câncer. Como vocês estão?”. Tig Notaro é lésbica e comediante de stand up estadunidense. Ela ficou famosa no mundo todo ao começar um dos seus shows com essa frase e fazer seu número com base nisso. Além de ter descoberto que tem câncer de mama, ela perdeu a mãe e descobriu que não poderia engravidar nunca mais. Tudo de uma vez.
Em meio a tempos em que, de certa forma, ficamos na defensiva ao ouvir sobre “humor politicamente incorreto”, é bom ter exemplos de como ele também consegue libertar, quebrar tabus e fazer mais gente pensar sobre os problemas dos outros de forma justa.
O filme está no Netflix.
Oriented
Um documentário sobre três amigos gays palestinos que vivem em Israel, seus pontos de vista políticos e sociais, crises existenciais e auto-aceitação. Eles formam o Qambuta, um grupo com objetivo de propagar igualdade sexual e de gênero aos palestinos.
No documentário, é possível entender como os conflitos históricos entre israelenses e palestinos pesam sobre o comportamento social dos gays (formação de estereótipos e etc), além, é claro, de abrir a nossa visão sobre os nossos semelhantes — e como são! — mesmo que sejam de um país tão diferente do nosso.
Tá no Netflix.
A fabulosa história do cinema queer
Para os fãs de história do cinema, tá aqui o filme certo pra entender o cinema queer. O doc leva a gente lá pra 1947, contando a história dos principais filmes da cultura queer americana e seus contextos até o início dos anos 2000.
Até meados dos anos 70, cinemas que passavam filmes queer eram invadidos e ia todo mundo preso. A partir dessa década, pós revolta de Stonewall, o cinema queer disparou.
Diretores, historiadores e críticos participam do filme, falando com riqueza de cada filme que marcou o cinema queer independente, passando por clássicos como “Female trouble”, “Pink Flamingos” e “The Rocky Horror Picture show” até “Poison” e “Paris is burning” (foto), esses últimos premiados em Sundance.
O doc mostra, além de tudo, como cinema queer foi saindo de uma área trash e underground e ganhando ares políticos e revolucionários, tipo quando os gays pegam em armas em “The living end” e de importância comercial e social quando “Meninos não choram” rendeu um Oscar a Hilary Swank.
O filme é de 2006, então não temos basicamente nada que foi lançado nos últimos 10 anos, 12 anos — e ainda ficam faltando alguns filmes não citados. De qualquer forma, é traçada uma linha do tempo bem interessante sobre o crescimento do cinema queer em qualidade e importância. E o filme ainda dá um monte de dicas de outros filmes pra por na lista.
Tem legendado no YouTube.
A Jihad do amor
Um documentário sobre como o Islamismo e os muçulmanos lidam com a homossexualidade. O filme nos leva a países como Irã, Egito, Paquistão e África do Sul e pontos de vista de homossexuais e de líderes políticos e religiosos são postos na mesa.
Para os gays, em teoria, só há uma opção: deixar a religião. Mas eles pesquisam em busca de palavras de aceitação dentro de seu livro sagrado.
Há depoimentos de homens e mulheres gays e até de alguém que se diz “ex-gay”. Os primeiros são perseguidos, foram até presos, mas alguns conseguiram asilo político na França ou Turquia.
Claramente, não é uma vida fácil. Mesmo assim, boa parte dos personagens lutam para serem considerados muçulmanos e gays, por isso o nome Jihad pelo amor. Há uma cena particularmente perturbadora de quando a filha de um homossexual é perguntada sobre o próprio pai em relação ao que gostaria que fizessem com ele caso ele fosse preso.
No geral, é um filme bem tocante, informativo em relação aos conceitos do islamismo e conta com histórias e personagens fortes.
O filme está disponível no YouTube com legendas em português.
Bichas
Bichas é um filme que fala, antes de tudo, de amor. Para ser mais exato: de amor próprio. A palavra BICHA vem sendo usado de forma errada, como xingamento. Quando na verdade, deveríamos tomar como elogio. Ser bicha é correr o risco de ser agredido pela ignorância, como aprendemos no encontro de quarta-feira. É muito importante entender as histórias desses 6 personagens (nosso querido Orlando é um deles) e aprender com elas.
Ninguém precisa ser bicha para sentir empatia por quem é. Ninguém precisa ser LGBT para respeitar e apoiar causas LGBT. Bichas é, sem dúvida, um filme sobre empatia. Nem precisa ir longe para conhecer histórias emocionantes de vida. O documentário é de um diretor recifense. :)
Tá completinho no YouTube.
Parágrafo 175
O filme conta a história de 10 homens e mulheres gays sobreviventes do regime nazista na Alemanha.
Até os anos 20, Berlim era uma cidade gay-friendly (se comparada a outras várias da Europa naquela épica). Apesar de existir uma linha que defendia que atos homossexuais eram crime, os casos de prisão foram raros. Casas noturnas tinham crescido, gays homens e mulheres ganhavam voz e havia um movimento para barrar essa lei.
Tudo parecia caminhar no rumo do progresso social até o partido nazista ganhar força. Pessoas foram marginalizadas dentro de escolas, perderam seus empregos e foram, num curto espaço de tempo, perdendo os seus direitos. Depois de eleito Chanceler, Hitler criou um departamento especial para investigar e prender homens gay com base no parágrafo 175. Com mulheres gay era um pouco diferente: eles acreditavam que mulheres podiam ser convertidas.
O argumento, infelizmente, é o que ouvimos hoje: “Se hoje os gays representam X% da população, em 100 anos ninguém mais vai procriar”. Na busca de criar e reproduzir uma raça pura, os nazistas perseguiram judeus, testemunhas de geová, negros e gays — estima-se que cem mil homossexuais foram enviados a campos de concentração.
O filme relata histórias de pessoas que viveram o inferno das prisões, torturas e dos campos. E aborda com muita riqueza o contexto histórico de antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial — gays foram presos até o final da década de 60.
Não é um filme fácil de assistir, mas é uma aula de história e um aviso: nacionalismo exacerbado leva ao fascismo. E sempre vai sobrar para as minorias.
O filme tá no YouTube completo e com legendas em português.
Paris is Burning
É um dos documentários LGBT mais importantes de todos os tempos e que abriu as portas para o novo cinema queer independente do início dos anos 90, levando prêmios em Sundance e outros festivais.
O filme mostra histórias de gays e trans de Nova Iorque do final dos anos 80. De gente que foi despejado de casa até os mais maduros, que acolhem e aconselham os mais jovens. Eles vivem em “casas” (houses), que são famíias que eles escolheram e todos estão interligados por bailes (balls), grandes festas competitivas de beleza e talento.
Personagens icônicos são apresentados neste filme, como Pepper LaBeija, Willi Ninja e Angie Xtravaganza, mas há muitos outros. O filme é didático e explica o que significam algumas expressões muito populares entre os gays (pelo menos entre os americanos), como “shade”, por exemplo. Além disso, há muitas informações sobre montação e drag queens no filme.
E tá disponível completo e legendado no YouTube e também no Netflix.
Jamaica’s Gully Queens
No último documentário que vi, “Jamaica’s Gully Queens”, do Vice, há uma comunidade de LGBTQs marginalizados vivendo numa fossa. E não é força de expressão. O refúgio de algumas pessoas rejeitadas/perseguidas por suas comunidades e até por suas famílias é num esgoto em Kingston, capital da Jamaica.
O filme conta histórias e mostra a vida da galera que acabou indo parar lá. Tudo por uma única razão: lgbtfobia.
Tá no YouTube (infelizmente, sem legendas em português).
The struggle of being gay in Albania
A Albânia é um dos piores países europeus para os LGBTs. A opinião pública geral é, basicamente, contra seus direitos — e sua existência. Há poucos anos ocorreu a primeira parada LGBT da Albânia, de bicicleta. E houve uma tentativa de dissolvê-la com bombas. BOMBAS, CARA.
É comum que LGBTQs sejam postos pra fora de casa e até mesmo agredidos pelos próprios pais. Há quem tenha vivido na rua ou em abrigos. Como é de se esperar, as condições são ainda piores para pessoas trans. Os clubes são fechados e funcionam secretamente em horários específicos.
O documentário do VICE é curtinho, mas tem entrevistas muito interessantes e mostra fatos bem reveladoras. Vale a pena conferir.
Ele tá completo no YouTube. Infelizmente, não há legendas em português.
Stephen Fry: Out There
“Ainda que o Brasil tenha orgulho da sua espetacular conquista de direitos civis para LGBTs, melhor ficarem atentos, porque tudo pode ser perdido”.
Em 2013, o inglês Stephen Fry passou pelo Brasil, pela Uganda, Rússia, índia e Inglaterra para gravar o minidocumentário Stephen Fry: Out There, no qual ele viaja o mundo para se encontrar com LGBTQ e autoridades que lutam contra os seus direitos civis, segundo ele, com a intenção de entender de onde vem tanta homofobia.
Você provavelmente já assistiu ao trecho da entrevista dele com Jair Bolsolixo, mas devia era ver a série completinha. A entrevista com a autoridade russa é de dar vergonha. E o melhor: o próprio Fry fala isso pra ele. “Você sabe que isso vai rodar o mundo, né? O que você diz não faz sentido nenhum”. E fala para outros mais. É bom ver um apresentador que não aceita calado todas as barbaridades que dizem, não é?
Fry se emociona na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (a maior do mundo) e alerta para o retorno do forte conservadorismo no Brasil, mostrando o exemplo da Rússia, onde ser homossexual deixou de ser crime em 1993, mas recentemente os LGBTs sofrem violência, perseguição e descaso pelas autoridades.
Ironicamente, Uganda e índia são ex-colônias britânicas. E todas as leis homofóbicas que existem lá são da época do colonialismo inglês e reforçadas por uma religião que foram os ingleses que levaram. Enfim.
Tem no YouTube (sem legendas):
Episódio 1
Episódio 2
The world’s worst place to be gay
“The World’s worst place to be gay” é um documentário/programa de TV da BBC 3 de Londres no qual um apresentador de rádio inglês assumidamente gay vai até a Uganda, país fortemente cristão, considerado um dos piores do mundo pra ser gay. E revela histórias de homossexuais completamente marginalizados e perseguidos.
Ele ainda conversa com um político criador do projeto de pena de morte a quem for homossexual — isso já existe, só falta legalizar. Homens e mulheres gay são queimados e sofrem estupros coletivos no país.
O que posso falar sobre esse programa, além do fato de que achei focado demais no apresentador — suas comparações entre sua vida no Reino Unido e como seria em Uganda etc — é que as histórias contadas pelos gays e a naturalidade com que a população trata o tema “prisão/morte aos gays” é chocante — há quem, inclusive, afirme que a homossexualidade foi trazida à Terra por aliens. A homofobia é levada ao extremo. E por todos.
Não é fácil assistir a isso. Por inúmeras razões. Tá no YouTube e tem legendas em português.
Bridegroom
Apesar de ser menos político do que eu esperava, Bridegroom Movie é um documentário bem tocante. O filme conta a história dos estadunidenses Shane e Tom, casados por seis anos até a morte trágica de Tom (à esquerda).
O filme percorre toda a história de vida dos dois, desde a infância para mostrar o quanto duas personalidades tão diferentes podem se completar e encontrar forças uma na outra. Faz também uma reflexão importante sobre demonstrar carinho sem vergonha de “dar pinta” — e como a morte de alguém desperta o sentimento de “eu podia ter feito melhor”.
Além disso, o doc fala também sobre aceitação pela sociedade e pela própria família e toca nas legislações restritivas de alguns estados dos EUA que não permitem o casamento igualitário através de depoimentos que sensibilizam e que podem gerar identificação.
Tá no Netflix.
E no YouTube, com legendas em português.
Dzi Croquettes
Dzi Croquettes é um dos melhores e mais premiados documentários brasileiros que vi nos últimos 10 anos. Faz todo sentido. Na década de 1970, inspirados pelo grupo estadunidense The Coquettes, os Dzi estrearam no Rio de Janeiro com humor ácido, coreografias sensuais e homens com corpos seminus.
Virando a censura da ditadura de cabeça pra baixo — e virando também algumas mentes — os Dzi marcaram o teatro brasileiro por sua irreverência e criatividade. Um fenômeno que jamais deve ser esquecido.
Tem no YouTube.
Party Monster: The Shockumentary
Quando eu era menino fiquei fascinado com o universo de Party Monster. Ontem finalmente encontrei Party Monster: The Shockumentary, um documentário que conta a história de personagens que nunca passaram em branco na minha vida: Michael Alig e James St. James.
O filme é de 1998 e traz imagens das festas (inclusive as ilegais) dos club kids e fala de detalhes da vida de Michael Alig contados por ninguém menos que sua mãe e amigos bem próximos.
Um dos personagens mais controversos das noites de NY nos anos 80 e 90, Alig foi um dos idealizadores de uma subcultura da qual a galera da noite de todos os lugares ainda bebe da fonte.
Fiquei feliz em ver que o filme tem muitas, mas muitas imagens de arquivo. Vale muito a pena ver.
Tá completinho no YouTube (porém sem legendas em português).
Gaycation
Uma série na qual a atriz americana Ellen Page, que é homossexual, compartilha com todos suas percepções sobre diversos lugares. Neste episódio, ela chega ao Brasil, onde entrevista até Jair Bolsonaro.
Num filme provocativo e bem importante, ela mostra pessoas de diferentes realidades e pontos de vista — alguns, convenhamos, bem inaceitáveis.
Esse, excepcionalmente, está no Dailymotion.
Curtiu? Dá um ❤ no texto e não deixe de mandar mais dicas de docs online nos comentários. Bora passar esse conhecimento adiante.
