Porque a suficiência foi a melhor “ciência” que aprendi na vida

O que tenho no quarto

Comprei hoje uma luminária pra poder ler na cama os livros de sebo que havia comprado. E acho que não vou comprar mais nada por um tempo — ok, talvez mais livros. Eu, que costumava ter coleções de filmes, livros, carrinhos, brinquedos, tampinhas, chaveiros… logo eu, que valorizava tanto o “ter” — um “ter” cultural, é verdade, mas não menos material — hoje a minha vontade é de passar tudo isso pra frente, para que essas coisas também possam fazer parte da memória afetiva das outras pessoas.

Descobri que só me basta ter o que me cabe — na verdade, apenas o que cabe numa mala. Chega a ser meio romântico: meu “ter” cabe numa mala e o resto é o meu “ser”. Mas é a tal da “suficiência”: preciso de algumas coisas, mas não quero que elas pesem mais do que as coisas que carrego dentro de mim — minhas memórias, emoções, conhecimento, saberes e sonhos.

Tenho meu pequeno patrimônio conquistado com o dinheiro do que trabalhei até hoje, mas tudo o que posso oferecer de melhor é invisível, vem de impulsos e ações. Sinceramente, um dos meus grandes alívios é a certeza de que hoje já não sou mais prisioneiro do que tenho.

Tenho trabalhado isso em mim nesse tempo longe do meu lar, da minha família e de (alguns dos) meus amigos. É uma forma incrível de começar a mergulhar em si mesmo: estar longe do que te parece essencial. Com o tempo, me senti seguro para chamar de “lar” qualquer lugar que me oferecesse conforto físico ou espiritual, onde me sentisse livre para viver do meu jeitinho. Os amigos a gente guarda num lugar especial — lá mesmo, onde sempre cabem mais. Às vezes dá pra fechar os olhos e lembrar como é bom estar dentro dos abraços de alguns.

Me pergunto frequentemente “sou hoje a melhor versão de mim mesmo?” Faça-se essa pergunta de vez em quando. Encontre os seus pontos de melhora e se esforce para melhorá-los. A questão não é ser perfeito — e isso, amores, nunca seremos — mas ser suficiente para si, ser uma de suas melhores companhias, ser seguro ou segura de si. Seja sempre hoje a sua melhor versão. Afinal, já que estamos fadados a passar o resto da vida dentro de nós mesmos, é melhor ir melhorando desde já e indo dormir mais tranquilamente a cada dia.

A suficiência é a melhor “ciência” de todas porque quando você carrega com você apenas o suficiente — mas está sempre em busca de coisas para completá-las, é claro — você não tem o peso da desconfiança sobre suas costas. Pra mim, suficiente mesmo é poder fazer diferença na vida das pessoas de forma positiva. Então abra sua cabeça, ouça o que pessoas que te amam têm a dizer, aprenda a entender o seu corpo — ele sabe das coisas — e não perca tempo com “mediocridades”, como escreveu Mário de Andrade.

“Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!” (Mário de Andrade)
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