A música de Miguel Zenón é como um electrão, gira em múltiplos sentidos e em simultâneo!

Hoje tive o prazer de ouvir o quarteto de Miguel Zenón ao vivo pela primeira vez. Esta foi uma oportunidade especial não só para ouvir talentosos músicos mas também para tomar contacto mais direto com alguma música nova. Miguel Zenón presenteou o público do Hot Club de Lisboa com alguns temas do seu novo disco “Identities are changeable” — não na versão multimédia com big band, mas antes no formato de quarteto.

Como prelúdio para este trabalho podemos imaginar Miguel Zenón sentado num canto de um cruzamento, observando as pessoas a transitar, vindas de diversos sítios, indo para diversos sítios. Todas elas passam por este cruzamento, depois, algumas voltam pela rua de onde vieram, outras decidem seguir um caminho novo, e há ainda outras que, indecisas, andam num constante vaivém entre duas ou mais ruas.

Meditando sobre os transeuntes e os seus percursos, Miguel percebe que não pode pura e simplesmente classificar as pessoas tendo em conta apenas a rua pela qual as viu seguir pela última vez. A rua de onde surgiram é também importante. Desta forma, percebe que aquilo sobre o qual medita é algo mais do que o simples local onde as pessoas estão no momento x, e está antes relacionado com todo o percurso que os transeuntes fizeram e estão a fazer.

A esta marca histórica chamou identidade. E pensando que no dia seguinte outras ou as mesmas pessoas poderiam voltar e escolher caminhos diferentes, percebeu que estas mesmas identidades têm potencial para mudar.

Assim, partindo das identidades como marcas históricas, Miguel iniciou um processo de composição musical personificando identidades em compassos rítmicos. Compassos rítmicos esses que no fundo comportam uma marca histórico-temporal, da mesma forma que os transeuntes. A música resultante, comporta desta forma uma carga multi-identitária.

A música de Miguel Zenón é como um electrão, gira em múltiplos sentidos e em simultâneo! Em mecânica quântica a medição destrói o efeito quântico de super-posição (multiplicidade) da partícula sub-atómica, na música de Zenón a super-posição de compassos dá-nos a ideia de multiplicidade da música. Umas vezes está mais dentro de um compasso, outras vezes dentro de outro, e noutras está nos dois de igual forma, é uma questão de medida.

O universo desta exploração de Miguel Zenón é o mesmo universo da minha recente exploração em “< > | — desprendimento, projecção e imaginário”, e que corresponde ao aprofundamento do segundo tipo de relação proposto no meu modelo conceptual “< | >”, só que ele chegou lá simplesmente pensando em cultura identitária. Por esta razão, e por ser eu próprio também produto de uma miscigenação cultural, não pude deixar de muito me identificar com o trabalho de Zenón.

Poslúdio:

É já final de dia e saio para dar uma volta a pé, hoje estou em Lisboa, mas podia estar em Nova Iorque, ou em Coruche. Entre o passeio e as montras contorneio os carros e admiro as árvores, o sol já se está a pôr. A determinada altura chego a um cruzamento e páro. Aparentemente este era um cruzamento como os outros, no entanto tinha-me captado a atenção ter visto num dos cantos sentado Miguel Zenón. Enquanto estou parado, observo-o atentamente a levantar-se pronto para caminhar. No entanto, foi apenas preciso piscar os olhos para o perder de vista, e ficar sem saber por onde seguiu. Em cada uma das ruas, com pessoas a vir e a ir, consigo ver pelas costas um homem careca a caminhar. Qualquer um deles pode ser Miguel Zenón, às vezes parece-me mais um, outra vezes parece-me mais outro… Perplexo, sento-me no local onde outrora o tinha visto e começo a escrever esta história…

(04/07/15 depois de ter visto o primeiro de dois concertos consecutivos do quarteto de Miguel Zenón no Hot Club de Lisboa)
Copyright © 2015 Omar Costa Hamido

Este artigo entretanto também foi publicado na página do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro: http://www.jazzportugal.ua.pt/web/ver_riff.asp?id=1339&lg=pt