Conto Glaciar

um interlúdio de
“< > | desprendimento, projeção e imaginário”


Conto Glaciar

À deriva no mar azul-escuro
está aquela bela protuberância
branca e gélida.

Na minha lancha laranja aproximo-me dela, calma e tranquilamente, convido-a para um passeio,
e assim boiamos, numa dança lenta, sem rumo.
Aos poucos, o gelo começa a derreter-se,
e nós rimo-nos estendidos ao sol forte e amarelo.

Passam-se horas e, distraído pelo cantar dos pássaros lilases, nem me tinha apercebido de que já não ouvia os risos dela há uns minutos.
Olho para o lado e ela é agora uma lisa e fina camada de gelo.

Encosto o meu ouvido à sua barriga achatada e oiço estalidos surdos. Tenho receio de que se esteja a rachar por dentro. Tiro as roupas que vestia e coloco apenas os meus óculos de mergulho vermelhos.

Mergulho no mar gelado e sereno sem produzir um único som.

Lá dentro procuro a minha amada mas sou surpreendido. Cá em baixo ela é na realidade um ser de monstruosas dimensões.

Nado na direção dela e abraço-a, mas só de a tocar gelam-me os dentes. Na verdade, tudo aqui perde o seu encanto e até o meu coração ficou azul.
A minha pele começa a perder a cor e a esbranquiçar, os meus membros começam a alongar, a inchar e a enrijecer. Estou, eu próprio, a transformar-me num monstro.

Faço um esforço mental para me manter acordado, penso no dia em que a vi pela primeira vez, lembro-me da lancha, do sol, dos pássaros… aterroriza-me a ideia de nunca mais os poder ouvir…
tenho de voltar,
tenho de voltar!

Com um estrondo brusco, como se alguém fechasse uma porta com força, desprendo-me dela e nado com pressa em direção à superfície.
No entanto, as mutações do meu corpo aceleram exponencialmente, tudo fica grande e disforme muito depressa. Um pé cola-se à omoplata, uma mão ao outro joelho e assim progressivamente.

Tenho já mesmo uma mão fora de água quando de repente, tudo congela e perco os movimentos… Como um iceberg permaneço assim, imóvel, apenas com uma mão fora de água…

À deriva no mar azul-escuro
sou apenas uma bela protuberância
branca e gélida.

(Este conto é parte integrante da obra “< > | desprendimento, projeção e imaginário”)
Copyright © 2015 Omar Costa Hamido