Conto Glaciar

um interlúdio de
“< > | desprendimento, projeção e imaginário”

Omar Costa Hamido
Mar 19, 2015 · 2 min read

Conto Glaciar

À deriva no mar azul-escuro
está aquela bela protuberância
branca e gélida.

Na minha lancha laranja aproximo-me dela, calma e tranquilamente, convido-a para um passeio,
e assim boiamos, numa dança lenta, sem rumo.
Aos poucos, o gelo começa a derreter-se,
e nós rimo-nos estendidos ao sol forte e amarelo.

Passam-se horas e, distraído pelo cantar dos pássaros lilases, nem me tinha apercebido de que já não ouvia os risos dela há uns minutos.
Olho para o lado e ela é agora uma lisa e fina camada de gelo.

Encosto o meu ouvido à sua barriga achatada e oiço estalidos surdos. Tenho receio de que se esteja a rachar por dentro. Tiro as roupas que vestia e coloco apenas os meus óculos de mergulho vermelhos.

Mergulho no mar gelado e sereno sem produzir um único som.

Lá dentro procuro a minha amada mas sou surpreendido. Cá em baixo ela é na realidade um ser de monstruosas dimensões.

Nado na direção dela e abraço-a, mas só de a tocar gelam-me os dentes. Na verdade, tudo aqui perde o seu encanto e até o meu coração ficou azul.
A minha pele começa a perder a cor e a esbranquiçar, os meus membros começam a alongar, a inchar e a enrijecer. Estou, eu próprio, a transformar-me num monstro.

Faço um esforço mental para me manter acordado, penso no dia em que a vi pela primeira vez, lembro-me da lancha, do sol, dos pássaros… aterroriza-me a ideia de nunca mais os poder ouvir…
tenho de voltar,
tenho de voltar!

Com um estrondo brusco, como se alguém fechasse uma porta com força, desprendo-me dela e nado com pressa em direção à superfície.
No entanto, as mutações do meu corpo aceleram exponencialmente, tudo fica grande e disforme muito depressa. Um pé cola-se à omoplata, uma mão ao outro joelho e assim progressivamente.

Tenho já mesmo uma mão fora de água quando de repente, tudo congela e perco os movimentos… Como um iceberg permaneço assim, imóvel, apenas com uma mão fora de água…

À deriva no mar azul-escuro
sou apenas uma bela protuberância
branca e gélida.

(Este conto é parte integrante da obra “< > | desprendimento, projeção e imaginário”)
Copyright © 2015 Omar Costa Hamido

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store