“Quando quiserem… e como quiserem” Review

Conheçam Ana de Oliveira e Carolina Zeferino Arruda, duas atrizes que desempenham o papel de atrizes.

As atrizes, as do tipo personagem verídico, não as verdadeiras personagens em si, chamam-se Simone e Sílvia. Ou talvez seja Sílvia e Simone… na realidade é um bocado indiferente. Elas são, ou melhor, elas dizem-se amigas. Sim as personagens… ou seriam as atrizes? Já não estou certo, mas isto, também é, em boa verdade, um bocado indiferente.

As atrizes ou as personagens vivem uma trama inspirada na seguinte realidade: duas amigas e colegas de profissão confrontam-se com aquilo que verdadeiramente são, isto é, duas concorrentes desleais e inimigas que não têm com quem mais falar senão uma com a outra.

É como se não houvesse mais ninguém, e na realidade, não existe mesmo mais ninguém em palco, o que, dado os personagens que desempenham chega a ser até constrangedor. São só as duas, com os respetivos amigos imaginários e alter egos, incluindo o capitão “Jack Sparrow de Oliveira”.

Até mesmo o espaço sonoro sintético arquitetado pelo João Carvalho é em parte composto pelas vozes das mesmas atrizes ou personagens.

O drama é forte, a concorrência é apertada e a infidelidade é macabra. A escassez de trabalho e as relações polígamas não consentidas servem de adereços de cena.

Aqui colidem as esferas “profissional” e “pessoal”, tal como eu lhes chamo no meu atual trabalho-laboratório, e acelerador de partículas,

“< > | - desprendimento, projeção e imaginário.”

É curioso pensar sobre como, em analogia ao referido contraponto com o silêncio a uma só voz, a determinada altura um dos personagens tenta convencer-se de que existe mesmo uma espécie de equilíbrio e de que tudo está bem…

Elas interiorizam e exteriorizam esta realidade vestindo e despindo os seus papéis. O seu próprio papel, o papel da outra, e o papel de si próprio.

Contudo, apesar de ter sentido que algumas das transições mais subtis foram sublimes, ou que, por outro lado, noutras possa ter havido um excesso de exposição, não consigo deixar de pensar em como, pouco tempo depois destas ocorrerem, e independentemente do nome ou personagem vestido, as atrizes-personagens pareciam voltar a si mesmas. É quase como se não conseguissem despir o seu próprio papel.

Talvez Ricardo Reis tivesse razão quando escrevia

“(…) só nós somos, sempre, iguais a nós próprios.”

Involuntário ou não, na realidade, também isto é indiferente. O efeito provocado é genial, e é por isto que vale a pena ir ver esta peça (próxima recita no teatro Garcia de Resende, em Évora, e nos dias 3 e 4 de Julho). O efeito é tal que, no final da recita, uma senhora da assistência gritou para o palco

“e agora fiquem amigas!”

Quando cumprimentei as atrizes no final da apresentação, pude perceber que são finalistas do curso de Teatro na Universidade de Évora, o que só acresce no valor da ginástica despendida para ter esta peça em cena itinerante. No entanto, quando tentei confrontar uma delas sobre o cenário que tinham acabado de expor só fiquem com um:

“pois, eu agora também quero ver…”

(21/06/15 depois de ter assistido a “quando quiserem… e como quiserem” em Coruche, no dia 20 de Junho de 2015)

Copyright © 2015 Omar Costa Hamido

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