
Perdoar é para os Fortes
por Kleber Monteiro
É sem dúvida reconhecida, muito citada e correta a frase de Mahatma Gandhi: “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte”. Para perdoar é preciso ser forte, pois há muitos desafios a vencer. O ideal seria não se magoar, não se ofender, não se sentir ferido ou injustiçado. Se assim fosse, não haveria mais a necessidade do perdão e, sem razão de ser, nem seria mais uma virtude. E quando aplicado esse raciocínio a Deus, não faz sentido o perdão divino, uma vez que também não faz sentido a mágoa ou a ofensa perante a divindade, causa suprema de todas as coisas. Mas, estamos falando da condição humana e, nesse caso, o perdão tem sua razão de ser.
Por que o perdão é mesmo necessário? É difícil? O que significa?
O nosso esforço, aqui, será refletir um pouco sobre essas três perguntas. Sendo assim, vamos à primeira. Seguindo o mesmo raciocínio da relação entre perdão e mágoa, vamos considerar que o ser magoado, seja consigo ou com o que quer que seja (um homem, uma mulher, Deus, a vida, o destino…), abriga em si algum grau de sofrimento e passa a viver assombrado pelo teimoso fantasma da memória de suas feridas. Ainda que o tempo passe, a ferida continuará aberta e sensível ao mais leve toque. Nessa condição, não há paz. Quando menos se espera, a lembrança da mágoa retorna e inflama o que parecia estar adormecido. Por isso, o perdão representa um bálsamo capaz de dissipar a tormenta da alma e se torna uma necessidade, seja para quem ofendeu ou quem acolheu em si a ofensa. Portanto, perdoar é uma necessidade para conjurar os fantasmas da memória, cicatrizar as feridas do coração e, enfim, tornar-se livre.
Contudo, a experiência humana ensina que perdoar não é fácil, especialmente se a ferida for profunda. A dificuldade é proporcional ao grau da mágoa. Quanto mais fértil for o terreno do orgulho, da vaidade, dos preconceitos, da fé cega, do egoísmo, mais fácil se torna a semeadura e a ofensa desenvolve raízes profundas, difíceis de serem arrancadas. Talvez o maior desafio do perdão seja a sensação de injustiça. Parece que perdoar se torna abrir mão da justiça e justifica ou, pior, estimula a repetição da ofensa. Por isso, diante de certas violências, perdoar pode até mesmo parecer um absurdo.
É preciso, então, compreender o que significa perdoar. Por se referir a uma ofensa que provoca mágoa e abre uma ferida íntima, perdoar não é o mesmo que esquecer. A tentativa de jogar no esquecimento a memória sofrida da mágoa é uma forma desesperada de tentar apagar a dor de si mesmo. Mas, não é assim que funciona. Quem perdoa já não sofre mais com a memória da violência sofrida, no entanto essa memória continua presente. Só não faz mais sofrer, deixa de ser motivo de desassossego, de aflição, de revolta, de desespero. Perdoar também não significa retirar a responsabilidade de um ato de violência. O perdão não livra quem quer que seja de responder por seus erros, mas liberta da prisão íntima da revolta, da culpa, da impotência, do ódio, do medo. Aí está o seu poder transformador e, por isso, não significa necessariamente mudar quem é perdoado. Quem perdoa renova a si mesmo e, talvez, ajude a renovar quem está à sua volta.
Uma judia sobrevivente do campo de concentração nazista em Auschwitz, Eva Moses Kor, é um bom exemplo do significado do perdão. Toda a sua família foi assassinada durante a Segunda Guerra Mundial. Ela e sua irmã só não tiveram o mesmo destino por serem crianças e gêmeas, o que era suficiente para se tornarem cobaias das experiências brutais do médico Joseph Mengele, o anjo da morte de Auschwitz. Em todas as suas experiências macabras não havia uso de anestésicos. As irmãs sobreviveram, mas tiveram que conviver durante toda a vida com problemas de saúde decorrentes dos experimentos do sádico médico nazista. Nesse caso, a mágoa está impregnada de justificativas. Em 2015, Eva foi notícia em todo o mundo por ter abraçado e perdoado Oskar Groening, um dos carrascos da SS julgado na Alemanha pela cumplicidade na morte de 300 mil judeus assassinados nas câmaras do campo de extermínio de Auschwitz. Por esse ato, foi chamada de traidora por outros judeus sobreviventes dos campos de concentração. Eva justificou o seu ato como um reconhecimento por aquele homem ter demonstrado um mínimo de decência humana ao se responsabilizar por seus atos, e o mais importante, por ela se entender capaz e no direito de se livrar das coisas ruins que lhe fizeram, por remover dos ombros a carga diária de dor, de raiva. A sua necessidade de “perdoar os nazista, não é porque eles mereçam, mas porque eu mereço”.
É mesmo verdadeira a afirmação de Gandhi. Perdoar é para os fortes. Afinal, não é uma tarefa fácil, ainda mais quando a mágoa tem raízes profundas. Às vezes, pode levar praticamente uma vida, como acontece no caso de Eva. Mas também pode transcender a morte e alcançar outras vidas. Dizer que é preciso não se ofender para se prevenir da dor e da necessidade do perdão ainda é falar de algo distante da experiência humana. Então, que o perdão seja um exercício cotidiano de fortalecimento moral em face das mágoas recorrentes. E que seja, assim, uma prática libertadora.
13–08–2017
Kleber Monteiro, dirigente do Instituto Allan Kardec de Estudos Espíritas — Ciência e Filosofia com Espiritualidade. Autor da Obra , O Mestre e a Palavra, fruto de um esforço por compreender e relacionar os ensinamentos de Jesus a aspectos fundamentais da vida. As palavras do Mestre, despidas de toda e qualquer roupagem de milagres e misticismo, nos trazem um potencial reflexivo, como fonte inesgotável de riquezas para compreensão da vida e norte para o desenvolvimento de potencialidades humanas e realização espiritual. Assim, vamos aprendendo lições de amor, humildade, cuidado, empatia, fé, perseverança, sintetizadas em palavras simples que traduzem ideais éticos, inatos e propulsores da perfectibilidade divina, a se realizar no Espírito em suas múltiplas e redentoras jornadas na vida.
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