Climão na Mesa de Jantar — Vamos Falar de Política e Religião

Vivemos em um mundo estranho. Um mundo Trumpista, quase Le Pen e definitivamente Temer que tem uma retórica comum: A crença. Atualmente ando assistindo a série “Deuses Americanos”, série que trata da questão da formação da nação americana por uma narrativa de imigração onde os deuses vem em conjunto com seus seguidores para o país das oportunidades, AKA USA, e comecei a pensar sobre quem são nossos novos deuses e principalmente de onde vem essa crença.

Na obra da série e, por extensão o livro que originou a série, a crença é o que cria os deuses e não o contrário. Essa premissa sugere que a mitologia é feita pela quantidade de seguidores que ela possui e que a retórica na realidade é o que dá força às divindades. E o que não são Trump ou Temer além de figuras simbólicas do que eles representam?

Aqui no Brasil nossos pais, alguns amigos, e definitivamente a maioria dos nossos avós vendeu suas preces no altar do conservadorismo e se ajoelhou para líderes improváveis em busca de alguma segurança de que “tudo vai ficar bem”. Já na terra dos sonhos não podemos dizer que a barganha do nosso querido Donald foi ilegítima mas seu fervor quase religioso é tão vazio de argumentos quanto quando dizemos que “impeachment foi dentro da lei”. Trump usou de seus palanques quase como um pastor da Record vendendo a salvação por uma quantia módica de 25% da receita líquida do seu salário e convenceu seus eleitores a “Make America Great Again” fazendo todos esquecerem de perguntar “como?” e “a qual custo?”.

O problema dessas narrativas político-religiosas é que elas são tão fantasiosas quanto nossa belíssima obra da literatura escrita por Neil Gaiman. E o que leva pessoas a acreditarem em histórias como essas é o mesmo que leva crianças a acreditarem no lobo mau: Medo. O medo do desconhecido impera nas raízes da nossa sociedade, o medo do diferente, da mudança, do estranho, do imigrante, do viado, da feminista, dos direitos humanos, do pobre e do negro.

O que o fervor da crença faz bem é criar medo do “outro”. Mas na psicologia e na vida o outro e nós somos parte da mesma coisa. Nosso povo é um amalgama do que era o pior e mais descartável da Europa, somos nações de ex-criminosos, rebeldes, exilados, escravos, pobres desesperados e marginalizados. É irônico que em nações de imigrantes, como é bem demonstrado na série, como o Brasil e os Estados Unidos exista uma noção tão clara de “pertencimento” quando no fundo nosso nascimento veio do “não pertencer”.

Não tenho uma resposta para essa crise de fé que passa nossa geração mas deixo um poema de Augusto dos Anjos, um dos meus escritores favoritos, para finalizar a reflexão.

Vandalismo

“Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

E nesses templos claros e risonhos …

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”

Texto escrito ouvindo: “Lorde — Melodrama”

  • Texto escrito por Igor Ventura.