O Narrador

PARTE 1

Finalmente, ele terminou o seu primeiro conto. Victor era ator por profissão, mas queria tomar o controle das realidades alternativas. Sair da mera ação e reação e passar a ser o responsável por imbuir as vontades, complexos e incertezas nos corações e mentes. Sussurrar no ouvido dos seus personagens e vê-los reagirem ás circunstâncias que ele criaria. Estava cansado de ter de explicar suas ações, de ser coerente, de se desenvolver durante uma história, como todo personagem de toda peça ou filme que ele fazia. Tinha em mente a ideia fixa de que o narrador é o único que não precisa se explicar. O narrador narra porque sim.

Ele escrevia sentado na varanda, para ouvir os sons das ruas, sentir o vento frio da madrugada nos seus cabelos absurdamente pretos e na sua pele levemente bronzeada pelo sol carioca. Sua caneca descansava na mesa, cheia de café gelado. Victor tirou os óculos e coçou seus olhos.

Já era de manhã, mas ele não havia reparado em quanto tempo havia passado desde que o sol nascera. Estava atrasado para o ensaio geral, tinha que correr para o Teatro. Era o dia da prova de figurino, o que obrigava o elenco inteiro a chegar mais cedo, ainda mais ele que tinha cerca de seis trocas de roupa durante o espetáculo. Entornou o café frio na garganta e tomou uma ducha para acordar da noite não dormida. Era o seu primeiro grande papel na carreira, uma adaptação para os palcos do filme “O Show de Truman”, no qual ele faria o protagonista, nenhum ensaio podia ser perdido e nenhum atraso seria tolerado.

Era um dia frio, porém ensolarado, perfeito para esconder as olheiras profundas com óculos escuros. Ele sempre gostara da manhã, acreditava que era a parte mais importante do dia. O que fazemos de nossas manhãs nos define, por serem as primeiras atividades logo depois de acordarmos, logo depois de não estarmos aqui. Como num livro, se as cinquenta primeiras páginas não forem boas, largue-o. Se suas primeiras cinco horas forem ruins, as próximas não serão tão melhores assim.

Seu bom humor estava estampado na forma em que cumprimentava a todos. Por não ter dormido, ainda dava boa noite para os funcionários do teatro — engano sincero — e ria de si mesmo por causa disso. Lembrou de quando, no seu conto, a personagem principal é apresentada ao leitor dessa forma, confundindo o momento do dia num início de conversa. A personagem foi inspirada na figurinista da peça. Vanessa era uma senhora baixinha, mas exagerada em tudo, menos no seu ofício, onde sempre fazia tudo com extrema exatidão e mão firme. Seus grandes cordões e suas pulseiras de penduricalhos só poderiam ser comparados aos seus óculos gigantescos.

Parte 2

Os camarins ainda estavam vazios. Lá ele só encontrou Ricardo, o diretor da peça, sua cabeleira grisalha e seus olhos azuis fortes eram inconfundíveis. Victor nunca havia contado a ninguém sobre os seus contos, mas se fosse contar para alguém em busca de sugestões e ensinamentos, esse alguém seria Ricardo. Junto dele havia um homem careca de vestido com um terno completo cinza. Victor cumprimentou-o cordialmente, mas não reconheceu o homem. Foi imediatamente quando fez menção de se sentar para esperar a figurinista que Ricardo o interpelou:

- Ei ei ei… senta não, vambora! Prova tudo aí que eu preciso de você para ensaiarmos o segundo monólogo enquanto os outros provam as roupas.

Victor não entendeu direito, mas acatou as ordens e começou a se despir enquanto perguntava por Vanessa.

- A gente vai começar sem ela? E se precisar de algum reparo em alguma coisa? E se ela tiver alguma ideia nova, ela sempre muda tudo depois que provamos.

- Que Vanessa é essa que você está falando, tá doido? O Hugo já tá aqui. — Ricardo falou apontando para o homem de terno cinza — Vamos começar antes que cheguem os outros atores.

Será que demitiram a Vanessa e o Ricardo está tão puto com isso que tá preferindo não tocar no assunto? Quem é esse Hugo? Victor tentava fazer sentido da situação ao mesmo tempo em que tentava ser mais discreto com a sua apreensão, sem obter muito sucesso.

Provou as roupas e o resto do elenco foi chegando aos poucos. Sempre perguntava pelo paradeiro de Vanessa, mas todo mundo parecia não saber de quem ele estava falando, como se ela nunca houvesse existido. Decidiu conversar com Hugo pra saber se ele teria alguma informação mais consistente.

- Olha, onde foi a Vanessa? Você sabe? Ela falou que ia fazer as roupas de uma adaptação de Sweeney Todd na Argentina, mas achei que era só no fim do ano.

- Victor, que história é essa de Vanessa? E quem vai fazer essa adaptação sou eu, hoje mesmo recebi um e-mail do produtor, o bastardo quer que eu chegue lá em Novembro já. Muito trabalho, meu deus do céu, mas quanto mais melhor.

Victor nunca havia tomado um susto tão grande com algo tão simplório. Esse sujeito não apenas havia tomado o lugar de Vanessa na peça, mas parecia que agora ele era o substituto de Vanessa em toda a sua vida. Ele era Vanessa. E Vanessa não era mais.

Victor passou o dia acreditando estar num sonho, em algum estado de insanidade, a teoria de que alguém estava pregando alguma pegadinha nele já não fazia mais sentido. Voltou para casa após o ensaio mais longo da sua vida e ficou andando pelo seu apartamento ainda cheio de caixas devido a sua recém mudança. Após pensar muito e não conseguir concluir nada sobre o assunto ele decidiu fazer a única coisa que um aspirante a escritor faria numa situação dessas. Sentou-se em frente ao seu computador e começou a escrever um conto sobre o que estava acontecendo. Seu segundo conto para a coletânea e seu primeiro conto em primeira pessoa. Pela primeira vez, ele não seria o narrador afastado, onipotente e onisciente. Mesmo assim, ao escrever ele sentiu um maior controle sobre o que estava acontecendo. As palavras pareciam ser a sua última ligação com a sanidade.

Acordou na sua mesa, com a cabeça apoiada ao lado do computador e com o despertador do celular apitando. Imediatamente ao despertar, descobriu que havia escrito cerca de 2000 palavras durante a noite, o que matou a sua breve esperança de que os eventos do dia anterior não passassem de um sonho. Agora tinha que beber um café e tomar um banho rápido para ir ao ensaio, como todos os dias.

Para o seu horror a situação havia piorado. Não apenas Vanessa continuava sumida do mundo e da memória de todos, como agora outras duas pessoas que foram usadas como personagens no seu primeiro conto também haviam sido substituídas. E todos os que permaneceram continuavam a não se espantar com os acontecimentos, muito pelo contrário, era apenas mais um dia comum na rotina de todos. Rebeca, a atriz que fazia a mulher de Truman na peça havia sido substituída por uma tal de Luiza e Thiago, o roteirista, foi trocado por uma mulher chamada Ester.

Victor não mais conseguia esconder a sua aflição, durante o dia inteiro de ensaio os seus colegas perguntavam o porquê dele estar agindo de forma tão estranha, inclusive essas novas pessoas que ele nunca vira antes. Ao chegar em casa, sentou-se no computador e começou a escrever de imediato sobre os dois novos sumiços ou trocas. Era escrever ou enlouquecer. Ele estava em mar aberto e o teclado do computador era a sua boia.

No terceiro dia, os outros dois atores que ele transformara em personagens no seu primeiro conto haviam sumido também, assim como ele já esperava. Dessa vez Victor não se surpreendeu nem um pouco. O ensaio foi o melhor da semana, todos os “novos” membros da equipe eram tão bons quanto os antigos, apesar de serem pessoas completamente diferentes dos seus “originais”.

Pela terceira e última vez Victor sentou-se ao computador e começou a despejar em texto os acontecimentos do dia. Dessa vez ele precisou escrever muito pouco, o dia anterior já havia dado todas as pistas do que aconteceria no dia seguinte e ele já havia se adiantado. Tomando o seu segundo conto como encerrado ele decidira abrir uma garrafa de vinho para comemorar.

Quando estava levando o primeiro gole de vinho à boca um pensamento terrível tomou conta da sua mente e seu corpo começou a tremer. Todas as pessoas nas quais ele baseou os seus personagens do primeiro conto sumiram e foram substituídas. No seu segundo conto, o personagem principal era ele mesmo. Então, isso significaria que agora ele mesmo iria sumir e ser substituído. Victor mal completara o pensamento e sua visão ficou desfocada e em menos de um segundo ele havia perdido a consciência.

Parte 3

Victor acordou no chão da sua sala ao lado da poça de vinho e dos cacos de vidro que antes formavam uma taça. Ele correu para o espelho do banheiro e viu que ainda era ele mesmo, Victor. Não havia mudado em nada, a não ser a armação dos seus óculos que agora estava quebrada devido a queda.

Sentou-se no seu computador para reler o seu trabalho da noite anterior. Assim que terminou de ler as últimas palavras do seu segundo conto ele recebeu um e-mail de algum endereço que ele não conhecia. O e-mail era pequeno, apenas composto por um parágrafo, uma assinatura e um documento em anexo. Mas essas poucas linhas foram capazes de fazerem o seu sangue gelar e tirar toda a cor da sua pele. O grito de desespero foi calado pela compreensão de que nenhuma palavra faria diferença dali pra frente.

E no e-mail lia-se:

Finalmente, ele terminou o seu primeiro conto. Victor era ator por profissão, mas queria tomar o controle das realidades alternativas. Sair da mera ação e reação e passar a ser o responsável por imbuir as vontades, complexos e incertezas nos corações e mentes. Sussurrar no ouvido dos seus personagens e vê-los reagirem ás circunstâncias que ele criaria. Estava cansado de ter de explicar suas ações, de ser coerente, de se desenvolver durante uma história, como todo personagem de toda peça ou filme que ele fazia. Tinha em mente a ideia fixa de que o narrador é o único que não precisa se explicar. O narrador narra porque sim.

Atenciosamente,

Pedro Bedim

Like what you read? Give Pedro Bedim a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.