Dona Tristeza

Eu me enlaço nas tristezas mais simples, nas que nem se dizem e as mais banais. Também me entrego às mais frondosas, sublimes e poderosas, da minha alma escondida.

Sou submisso da tristeza do jeito mais penoso, deixo-a esmagar meu corpo e machuca-lo até que eu sucumba ao nada.

Minha tristeza tem um ciúme possessivo, passivo-ativo, e o abraço só é permitido entre nós. Ela me prende em algum lugar vazio, de preferência escuro, pois ela também tem ciúmes da luz.

Dona Tristeza, sei que não posso a culpar, mas o teu abusivo processo de me afogar, deixa-me perdido em caminhos que são únicos.

Mas sou intensidade, e as sensações me infiltram, desmontam e levantam, em um ciclo ocioso. E eu tenho tudo aquilo que faz a tristeza se apaixonar. A fragilidade de um tanque de guerra e a força de uma borboleta.

A tristeza se faz compreensiva na hora de enfrentar o mundo. Conversamos, ela profunda e eu cansado. Então ela segura minha mão, leve e discretamente tentando não ser notada, e assim me permite levantar. Estou indo lá fora e nós sabemos que não posso parecer tão frágil.

Dona Tristeza, foram dez as vezes que eu quis a deixar. Nove eu voltei, e na última eu fui. Mas agora são mais dez vezes que eu vou tentar ir, e de qualquer forma vai continuar assim, porque apesar de tudo, mesmo que eu te abrace, jamais vou permitir que você seja completamente dona de mim.

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