Os corpos (des)padronizados.
Eai, leitor, o que é belo para você? Você já parou para se questionar se realmente aprova os padrões de beleza na sociedade?

Desde pequeno, sempre fui hostilizado por conta do meu corpo. Por ter alguns quilos a mais do que a maioria das crianças da minha rua, eu era caçoado, agredido verbal e fisicamente, e ainda tinha que aguentar as pessoas falando sobre como eu estava gordo e que precisava urgentemente de uma dieta.
A sociedade sempre implementou muitos padrões de beleza, comportamento, etc. Hoje nós podemos ver a mídia como uma grande influenciadora no quesito de enquadramento dos indivíduos que abusam do poder de prestígio que possui, afetando ambos os gêneros, que se rendem ao consumismo até chegarem ao corpo ideal e acabam ultrapassando os limites para conseguirem alcançar determinado padrão. O culto à esses padrões, revistas de moda, anúncios publicitários em massas de produtos a serem consumidos para perder quilos, envolvem um padrão pré-estabelecido de vida. Somos diariamente atingidos com informações de que devemos ter um corpo magro porque isso é saudável, daí corremos para as academias, utilizamos receitas emagrecedoras, é chá disso, shake daquilo, cosméticos de não sei o que, os quais fazem perder peso rápido e pouco a pouco acabamos nos envolvendo mais na ditadura da beleza padronizada, onde possuir um pouco mais de peso é considerado feio ou é sinônimo de doença. Isto é apenas uma maneira de controle utilizado pelo sistema capitalista para incentivar o aumento do consumo dos produtos de beleza e padronizar as mercadorias, o que facilita a produção da burguesia e, como conseqüência, aumenta os seus lucros. Esses aspectos propagam muito a ideia de homem sarado com o corpo definido, cabelos sedosos e olhos claros e da mulher deve ser alta, magra, branca, com os cabelos lisos e loiros, de preferência longos, e sempre muito bem cuidados, que deve depilar todos os seus pelos, sejam aqueles que crescem ao redor das sobrancelhas ou os das axilas e pernas, além daqueles na região da virilha, que acaba gerando uma ideia de “homem e mulher perfeitos” que perdura na sociedade ainda hoje. Os padrões sempre existiram ao longo da história. No período da Renascença, o corpo que apresentava características que expressavam saúde, fertilidade, força e status social e tratado como belo era aquele que apresentava o formato mais cheio, com quadris largos e abdomes avantajados. A partir do século XIX, esse padrão de beleza começou a mudar gradativamente. Ter um formato mais cheio passou a ser visto de modo negativo e a magreza como virou o ideal. A transição do final do século XIX para o século XX já nos remetia a um ideal de que o corpo magro era símbolo de saudável e belo. Foi a partir deste período que a magreza começou a ser pregada arduamente por meio de propagandas publicitárias. Por trás dessa construção dos padrões de boa forma e beleza esconde-se uma ideologia elitista, política e social. Na Alemanha nazista o discurso estético-corporal tinha a função de exaltar o indivíduo que se adequava aos modelos arianos e menosprezava os que não se enquadram naquele padrão.
Todos estes padrões afetam diretamente esta mesma sociedade que exalta “regra da beleza”. Problemas físicos e psicológicos como bulimia, depressão, distorção da imagem corporal, anorexia nervosa, ansiedade, etc. são algumas dentre diversas complicações que são causadas por conta do culto feito a esses padrões. Boa parte dos suicídio cometidos nos dias atuais são por indivíduos que não se sentem aceitos pela sociedade por ter algo que não se enquadra no padrão aplicado a eles. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica apresentou uma estimativa de que cerca de 130 mil crianças e adolescentes já submeteram-se no ano de 2009 a procedimentos estéticos por pressão da sociedade ou família.
Eu, como indivíduo de corpo preto, sempre me senti sexualizado pelas outras pessoas. Estereótipos como “negão tem que ter que ser forte”, “preto tem que ter pegada”, “adoro pegar negão porque eles tem pau grande”, sempre assombraram o meu dia-a-dia. Os corpos pretos sempre foram vistos como incapazes para o trabalho intelectual, quentes, lascivas, etc. Um exemplo de sexualização do corpo preto é a Sarah Baartman, mais conhecida como “Vênus negra” ou “Vênus hotentote”. Ela foi vendida em 1814 para um francês e foi aí que sua exploração foi ainda maior. Sarah foi estudada por cientistas naturalistas e forçada a se prostituir. Segundo pesquisadores daquela época, o corpo de Sarah era como que paradigma da “exuberância” do corpo feminino negro, tido como anormal em relação ao corpo branco. Após sua morte, seu corpo foi enviado para o laboratório do cientista George Cuvier, do Museu Nacional de História Natural. A teoria dele era de que os órgãos genitais de Sarah eram mais protuberantes por serem mais “primitivos” e, por isso, com maior desejo sexual. Seu esqueleto e órgãos genitais ficaram em exposição até 1974 no “Museu do Homem”, em Paris. Seus restos mortais só retornaram para África em 2002, somente após pedido de Nelson Mandela.
O irônico nisso é que o mesmo corpo que é sexualizado, desejado e está entre os fetiches de alguns indivíduos é o corpo mais assassinado hoje. Em uma matéria do Estadão, o Atlas da Violência diz que a taxa de negros assassinados entre 2007 e 2017 teve uma aumento de 33,1% — em 2007 os negros eram 63,3% dos assassinatos e em 2017, 75,5% dos assassinatos — totalizando em 2017 mais de 49 mil homicídios contra negros e 16 mil homicídios contra não negros. “É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos”, diz o Atlas da Violência em seu relatório.
“Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total, na loucura real”
- Raul Seixas
Desde que o mundo é mundo, somos constantemente enquadrados em modelos padronizados de comportamento e estética pela sociedade. Esse problemática de padrões já tem sido, durante muito tempo, um grande empecilho para determinados indivíduos e está na hora de encerrarmos isto. Vamos aprender a respeitar mais as diferenças um dos outros e entender e amar os nossos corpos. Existe uma das frases que fala muito sobre o autoconhecimento: “Aprenda diariamente a ter um caso de amor com a pessoa bela que você é, desenvolva um romance com a sua própria história. Não se compare a ninguém, pois cada um de nós é um personagem único no teatro da vida.”. O nosso corpo é a nossa casa, nós somos nossos melhores amigos e precisamos entender que não há como fugir disso. Trabalhe a sua auto-estima, priorize sua saúde mental e física, entenda que você é um ser único e não divulgue mais esses padrões de beleza. O importante aqui é ser feliz e encontrar um ponto de equilíbrio entre o que é saudável e o que é possível.
Não precisamos ser aceitos em nenhum padrão, somos quem somos e isso já é ótimo. E para você que acha que devo aceitar os seus padrões, pode enfiar eles no seu $#.
Vou deixar aqui esse outro texto que fala sobre corpos em um aspecto diferente do que tratei. Acho importante a sua leitura, pois, além de ser de um produtor da baixada, ele irá falar como se dá a luta e os desafios enfrentadas por nós, manas do séc. XXI. Se deliciem, anjes!
Referencias Bibliográficas:
- HAIRSPRAY — Em Busca da Fama. Direção de Adam Shankman. Estados Unidos: New Line Cinema, 2007 (117 min.).
- Flor, Gisele. “Corpo, mídia e status social: reflexões sobre os padrões de beleza.” Revista de estudos da comunicação 10.23 (2009).
- Dutra, Josileyde Ribeiro, Sonia Maria da Fonseca Souza, and Marina Chiesa Peixoto. “A INFLUÊNCIA DOS PADRÕES DE BELEZA VEICULADOS PELA MÍDIA, COMO FATOR DECISÓRIO NA AUTOMEDICAÇÃO COM MODERADORES DE APETITE POR MULHERES NO MUNICÍPIO DE MIRACEMA-RJ.” Revista Transformar 7 (2015): 194–213.
- de Quadros, Dênis Moura. “A marginalização e a sexualização dos corpos negros na mídia e na literatura afrofeminina contemporânea: espaços que (de) formam identidades.” Palimpsesto-Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ 17.26 (2018): 513–531.
- CAITANO, Simone Cristina. Genocídio da juventude negra brasileira : um olhar crítico sobre o valor da vida. 2018. 77 f. Monografia (Graduação em Serviço Social) — Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2018.
