Isa, antropofágica
isadora esculturava-se por natureza. os olhos castanho-flamejantes em formato de amêndoa endureciam no óleo, e assim era acostumada amar e amar-se. o cavalete ainda vazio, em gramas, era o mesmo que a obra pronta. a mulher posava para todo e qualquer pintor que lhe oferecesse nada além do que ela precisava: tinta, pincel, e o que os outros comumente chamavam “dom”, e ela chamava de paixão. beirava a cafonice o que ela sentia por cada um que a pincelava, mal acreditava ela mesma que a pulsação de suas veias suportava tanta oxigenação. e os pintores iam e vinham, desapareciam com suas obras, e com um pedaço que ela dilacerava e raptava para si. era canibal a menina, gostava de jantar os pintores, mas quando eles percebiam, pegavam os pedaços de si de volta. e ela, magra que só, era sempre voraz. quase nunca dava tempo de comer, pois a fome era sempre específica. mas as vezes, dava. “queria os dedos, pois assim levo o amor deles comigo, e mato minha fome de toque.” isa trocou de cidade umas quatro vezes, nadou nua nos canais venezianos umas quatro. bebeu sangue da própria menstruação em todo ciclo. não sacia. um dia, se apaixonou por um cantor sem dedos, e desenvolveu uma real anorexia. “se não posso devorar o que preciso dele, nada posso devorar. ele não pode me dar o que preciso, então não quero nada.” aos 37 quilos, isadora percebeu que o amor existe em formas que ela desconhece. abriu um pacote pequeno, em embrulho mal-cuidado e ensanguentado, e sentiu-se contemplada. era dia dos namorados, e isadora fagocitou a língua do cantor. o amor existe em formas que desconhecemos.
