João na solidão

Entre um homem e uma calçada.

Eu sou João. Mas também sou inútil, de acordo com meus colegas de trabalho, acho que às vezes meu nome nem é João. Tudo que tenho feito desde que tornei-me adulto é comer, trabalhar, reclamar, dormir e quase acordar. Porém, nesse dia eu fiz algo diferente, uma manifestação do meu cansaço de viver nessa prisão rotineira…

Estava no meu quarto, no apartamento do segundo andar, onde moro de aluguel. As infiltrações baixavam a minha satisfação com o ambiente, a poeira despertava minha alergia e o frio doía em meus ossos. Era o meu momento de descanso pós-expediente, como todos os dias. Deitei metade do corpo na cama, com meus pés ainda ao chão e olhei para o teto, que, sujo e rachado, fez-me perceber que era assim que minha alma estava.

Sem querer, lembrei-me da Ingrid, ela era uma garota maravilhosa e seu jeito mudava (positivamente) qualquer aspecto da minha vida. Ela tinha seu próprio modo de ser feliz, e isso me encantava a cada dia. Era uma chance (talvez única) para minha vida preenchida de mesmice. Mas logo o sonho se dissipou e a realidade veio como numa batida de trem, a mulher que eu tanto gostava acabara comigo na semana anterior. Por telefone, dissera que talvez eu pudesse ser um alguém melhor e voltou com o ex-namorado fútil. Não sabia se era capaz de esquecê-la.

Levantei-me da cama aos estalos, o peso sobre os ombros denunciava o intenso esforço feito todos os dia do trabalho daquele maldito mercado. Nunca havia encontrado melhores oportunidades de emprego para reduzir a exploração que eu sofria. Fui de encontro à janela do quarto, observei a escuridão da rua, postes que mal iluminavam, fantasmas que passavam mais que pessoas. Uma veia tão vazia em meio a um fluxo tão caótico. Fechei os olhos e respirei, o máximo que pude.

Um homem sem amor, sem autenticidade, sem felicidade, é apenas um objeto, seja ele vazio ou quebrado. Com essas palavras na minha mente, encontrei uma saída para o ciclo no qual vivia. A única saída do ciclo, era o fim dele. Sorri. Subi na janela, senti a brisa violenta da cidade tão fria e egoísta, e apoiei minhas mãos nas laterais. Parte de mim estava satisfeito pelo que estava prestes a fazer. Joguei-me da janela, tudo foi tão rápido, momentos felizes da minha vida passaram pela minha cabeça, pessoas que foram importantes para mim, tudo que fosse honrável de estar nas minhas memórias. Eu pude sorrir mais uma vez. Tudo se apagou.

Senti uma dor imensa, gritei por socorro, e logo então me dei conta do que acabara de fazer. Saltei do segundo andar e quebrei minha perna. Eu berrava e ria. Berrava por causa da dor insuportável, e ria porque eu não havia quebrado apenas a perna, eu havia quebrado o ciclo que estivera me escravizando. Era um começo.