Tempo de Barba

Sempre acabava em sangue. Entre os dedos, uma lâmina afiada. Nas mãos, um senso equivocado de obrigação. Dependendo do momento, era uma sequência de gestos que ou precisava ser executada com pressa e descuido ou com vagar e atenção, mas que sempre terminava em sangue escorrendo sobre a pele, e a pele sofria muito. Depois de terminar a coreografia maldita, sobre a mesma pele, enquanto ela sangrava, ainda caia uma mistura assassina de álcool, glicerol, benzofenona, sulfato de zinco, linalol, cumarina, geraniol, citronelol e outros nomes impronunciáveis e agourentos — uma mistura que fazia a pele arder muito e não só onde sangrava. A lâmina deixava um rastro de irritação tamanha que olhar o espelho era contemplar uma terra desolada.

Fazer a barba era uma batalha narcísica, íntima, circunscrita às paredes do banheiro e à companhia muda e solitária do reflexo no espelho. Uma batalha doméstica que evocava péssimas imagens. Banheiro, lâminas, solidão. Barbear-se tem, sim, algo de autoeliminação, inclusive de forma literal: é uma parte de si que está indo embora, toda uma chance que podia ter sido e que não foi, em pedacinhos, ralo abaixo. A pessoa que um portador de barba poderia se tornar é ceifada a cada vez que ele se barbeia.

Barba feita, o tempo voltava a correr e a vida a acontecer. Aquele tempo de vida dedicado a passar a lâmina sobre o rosto era uma pausa no fluxo da existência, durante o qual todas as leis naturais eram quebradas, porque não fazia sentido se propor a cortar a própria cara. Ignoro o quão bom ou ruim eu possa ter sido como autobarbeador, porque o resultado era idêntico mesmo nas raras visitas que fiz a barbearias com o propósito de ser barbeado. Fazer a barba era ter sangue sobre o rosto, até quando eu fazia com todo o cuidado que me era possível. Para garantir esta regra infalível, havia (ainda há, mas não mais visível) uma cicatriz antiga no queixo, uma queloide que nunca se entendia com o barbeador e manchava as toalhas de vermelho.

Tentei outro método, a máquina de barbear. O uso da lâmina me garantia dois dias de cara limpa, até o próximo recontro em frente ao espelho. A máquina me livrava do sangue, mas me obrigava ao barbear diário, um hábito que também consome tempo desnecessariamente, além de ser um saco. Todos os dias, em frente ao espelho, havia um consumo de energia, elétrica e espiritual, consagrado a uma coisa inútil. A barba por fazer, me refiro àquela intencionalmente cultivada para parecer por fazer, é um equívoco. Ela é podação do próprio espírito dos pelos faciais, porque não os deixa em paz, e também é negação do retrocesso deliberado e assumido do barbear-se, porque não elimina os pelos de vez. A barba por fazer é um tempo em reset incessante.

Perceba que subjacente tanto ao barbear quanto ao não-barbear, há aí, em algum grau, a boa ou má gerência do tempo. Barba é tempo.

Entre julho e novembro de 2011, decidi não mais fazer a barba. Queria evitar os machucados faciais. Também assumi a preguiça de me barbear. Ouvi que minha aparência melhoraria se deixasse a barba crescer em paz. Somando tudo, barbado fiquei, ainda num ano em que a barba não era esta moda disseminada no mainstream. Àquela época, me parece, a barba ainda era um item do arsenal estilístico hipster, que começava, aos poucos, a cruzar a fronteira em direção ao mundo do homem padrão, feito que a legging masculina (ainda) não conseguiu.

Hoje, ostento uma barba negra, queimada de sol em alguns pontos, que requer outro tipo de dedicação à frente do espelho. Ela cresce, cheia, abundante, viva e a poda a que se permite é apenas para manter-se elegante. O cultivo da barba é um tipo de paisagismo.

Este paisagismo tem um início. Num ponto vexatório da adolescência, havia o buço. A terra começava a oferecer seus primeiros arbustos. Como o mundo ao redor do adolescente, aqueles pelinhos eram confusos. Nem finos e transparentes, nem grossos e escuros, eram mais galhos constrangedores que anunciavam a transição inexorável para a maturidade, pelo menos em teoria. O buço é a própria natureza do amadurecimento: volta mais forte depois de agredido. Quanto mais aquela pelugem adolescente for combatida, melhor ela sairá da adolescência. É o que fazemos. Combatemos, nos fortalecemos.

O tempo passou. Os pelos engrossaram e continuaram sendo combatidos por uma década inteira, a que vai dos vinte aos trinta. Salvo por uma ou outra vontade bissexta de mudar o visual, que nunca ultrapassaram uma semana, meu rosto ficou liso por anos. Eu fazia a barba porque me sentia obrigado a ter de fazer a barba e também porque, lá no fundo, sentia que deixar a barba crescer seria equivalente a pintar o cabelo de verde. Tive, anos depois, mais coragem em fazer dreadlocks do que teria, anos antes, em pintar o cabelo de verde — ficar barbudo, até 2011, eu não encarava com naturalidade, mas como um pequeno exotismo, tal como esverdear um moicano sobre a cabeça.

Uma ressalva a ser feita é que moicanos verdes são bonitinhos, nem são mais tão “diferentões” assim, mas, tal como a legging masculina, ainda não cruzaram a fronteira.

Ter ou não ter barba está relacionado ao tempo em que e ao lugar onde o portador vive. Não me recordo de pintura alguma de um Napoleão Bonaparte barbado, mas todo o Cristo é barbudo (e cabeludo), desde a representação nórdica equivocada às semíticas bronzeadas e mais realistas. A barba era vista com frequência nos rostos dos czares, mas quase sumiu na era pós-Romanov, salvo por um ou outro bigode totalitário. Nas Américas, há décadas que pelos faciais não habitam a Casa Branca. Já lá do outro lado, no Oriente Médio, pelos faciais são mais frequentes, tanto entre líderes quanto em seguidores. Hoje, em várias camadas sociais do mundo globalizado, as barbas estão em alta, disseminadas entre outsiders, homens padrão, homens trans, homens cis, todos os homens. Há pouco estigma envolvendo a barba, assim quero acreditar. Barba é barba e é de quem tem.

Na infância, as referências de pelos faciais eram os bigodes de Tom Selleck e do maestro Junior, do Flamengo. As únicas barbas cheias eram as dos onipresentes membros do ZZ Top — e Jesus. Na adolescência, durante a década Tom Cruise, a de 90, eu mal vi pelos faciais no mainstream, senão pelo bigode do zagueiro Ricardo Rocha. Sempre ligada à masculinidade, a barba hoje é mais que isso. É traço tanto da cantora Conchita Wurst quanto do pilar Sebastién Chabal. Não é o gênero que importa, é a identidade.

Conchita e Chabal. Barba é de quem tem.

Hoje a identidade da barba é polissêmica. Não se resume aos ares de sabedoria dos anciãos, nem ao espírito contestador dos jovens rebeldes. Não é a imagem da miséria, não é o retrato da aristocracia. É tudo isso — embora o único barba que tenha sido isso tudo, ao mesmo tempo, foi Liev Tolstoi, que não foi nosso contemporâneo, infelizmente.

Desde que deixei a barba crescer, fui acometido por dois acessos de insanidade que me fizeram ficar sem barba. Não sei o que houve em mim para barbear o rosto, mas o fiz, duas vezes. Em ambas, na rua, acharam que minha filha era minha irmã, mesmo que a diferença de idade entre mim e ela seja de 26 anos. A segunda vez foi ainda mais traumática porque meu gato (que ainda não existia para mim da primeira insanidade) tinha a mania de se esfregar na minha barba. Sentado onde estivesse, lendo, escrevendo, vendo tevê ou comendo, deitado onde estivesse, fazendo o que fosse, ele se achegava em mim e esfregava a cabecinha ronronante sob meu queixo, em todas as direções. Fiz a barba, ele passou uma semana sem “falar” comigo e desde então nunca mais repetiu o gesto. Um trauma do caralho.

Nunca mais fiz a barba — embora o certo fosse dizer: nunca mais desfiz a barba, que a namorada diz ser maravilhosa. Meus parceiros de jiu-jitsu discordam dela, talvez por isso me tenham apelidado de “Osama”.

Hoje, à frente do espelho, vejo pelos compridos, queimados de sol, alguns precisando ser aparados. Sempre é uma barba diferente por dia, sempre é uma pessoa diferente à frente do espelho. As combinações entre barba e pessoa jamais se repetem. Cultivar a barba é uma dança, uma sequência de improvisos entre dois parceiros que se afirmam ao longo do tempo. Xampus, pentes, tesourinhas. Os instrumentos de cultivo são outros, são ferramentas de um artista para um narcisismo à flor da pele. O banheiro não é mais solitário, porque agora é um ateliê. Tal como romancistas, os artistas da barba trabalham os personagens — barba e portador, simbióticos — no desenrolar do tempo. Ao longo dos últimos quatro anos e meio, desde quando a barba me acompanha, este personagem que escreve, que, tal como preveem os clichês, cofia os bigodes para pensar melhor entre um parágrafo e outro, se sente muito grato ao simples fato de ter deixado os pelos seguirem seu caminho. No que diz respeito aos cuidados consigo mesmo, não se obrigue a nada, deixe rolar. Deixe a barba crescer.